sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Salut, Salu!


Luís Martins, Beato Salu.
(Desconheço a autoria da foto).


Ontem, segurando pedras da cidade, 
encontrei o Amigo Luís. 
Gostei de o rever.

Abraço, Luís!


Deixo, como lembrança, 
um poema publicado em 2011.


Salut, Salu!


Não sei de onde vieste e por que deixaste
Os caminhos por onde novo e outro andaste,
Se outro diferente foste noutros idos dias!
Sei que em caminhos que em Évora alisaste
Comigo sempre a andar longe e perto te cruzaste
Com um sorrido e certo “Olá, senhor Dias”!

Não sei quando o nome eu to disse
Ou como o nome tu certo o soubeste!
Do teu, no teu andar longe e perto,
Nunca o nome tu mo disseste,
Nunca do teu apelido me falaste,
Sempre Salu ficou incerto.

Não sei de onde vieste e por que deixaste
Os caminhos por onde novo e outro andaste,
Se outro diferente foste noutros idos dias!
Sei que pelos apertados carreiros da vida 
Em que se caminha da decisão não partilhaste.
Sabedoria a tua, que desta vida tu já sabias
E outras, muitas outras, cabeças não!

Não sei de onde vieste
E se outro diferente foste.
Sei que vais ficar, que já ficaste
Nas pedras polidas desta Cidade
Junto das outras Pedras vivas já sem idade!

Salut, Salu!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Como obter o livro "FIAT LUX (no ano da Luz)"


Capa

Contracapa


Como obter o livro "FIAT LUX (no ano da Luz)"


Este meu 3º livro de Poesia teve uma edição reduzida.

Caso pretenda adquirir (10 E) um exemplar autografado,
é favor contactar-me, sem compromisso,
por este e-mail do blog:

tracadossobrenos@gmail.com

O envio (incluído) será por correio verde.

Obrigado.


José Rodrigues Dias


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Convite - Apresentação do meu livro Fiat Lux (no ano da Luz)


Contracapa do livro


CONVITE 


Apresentação do meu livro

FIAT LUX

(no ano da Luz)


Dia 4 de Dezembro, sexta,
18 horas,
sede distrital da ASSP, 

Rua Chafariz D'El Rei nº 31,
Évora.

Veja, por favor, mais informações no post seguinte.

Será muito bem-vindo!


José Rodrigues Dias

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Convite - Apresentação deste meu terceiro livro de Poesia



Apresentação


Dia 4 de Dezembro, sexta,
18 horas,
sede distrital da ASSP, 

Rua Chafariz D'El Rei nº 31,
Évora.


Convite


Teria muito gosto se pudesse(s)
participar na apresentação
deste meu terceiro livro de Poesia.

É um conjunto de 55 poemas
cada um deles
com a palavra "luz" ou "Luz"...

Concreto
muito
simbólico...

55, esse número de poemas
dos que viram a luz em 2015...

55, da sequência de Fibonacci
que define o número de ouro...

2015, o Ano Internacional da Luz...

Se quiser(es), se puder(es), 
venha (vem), é sexta, às 18 horas,
a entrada livre, feita franca...

Livre, franca a porta,
que livre é a Poesia!...



É na ASSP, Delegação Distrital da 
Associação de Solidariedade Social dos Professores, 

Rua Chafariz D'El Rei nº 31,
Évora.

Venha (vem), será(s) bem-vindo!

Muito brigado à ASSP,
muito obrigado a todos!


José Rodrigues Dias

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O mundo na minha escola primária


Escola, Talhas. 


O mundo na minha escola primária


Eu gostava muito da porta da minha escola primária: era de cantaria e redonda em cima. Era uma escola só para meninos; havia outra escola só para meninas. Havia muitos meninos e muitas meninas. Alguns andavam descalços. Não havia electricidade na terra e não havia televisão. Telefone havia. Lembro-me do telefone número 4. Havia poucos rádios e eram grandes, da gente rica. Trabalhavam a pilhas. Quando acabavam as pilhas ficavam sem saber as horas certas. Mas as horas eram todas boas. Eram as horas dadas pelo sol e pela lua, quando não havia névoas. Quando havia, ou quando chovia muito, que Deus a dava, não fazia diferença. Um dia nascia depois de outro dia e o mesmo acontecia com as noites. Eram sempre alternados. Também havia as horas dadas pela barriga. Essas eram as horas piores, com fome.

Notícias quase não havia em Talhas, nem era preciso. Quando alguém morria tocava o sino. Tocava de maneira diferente consoante o morto era homem ou era mulher. Se o morto era de outra terra, a notícia lá chegava e logo se espalhava.

Era assim o mundo. O mundo estava todinho ali na minha escola, no saber da senhora professora e no mapa dependurado por um fio numa parede da sala de aula ao pé do quadro. Um dia calhou cair com o ponteiro a forçar o Mondego a passar pela terra dos doutores. “Meninos, poucos podem ser doutores, mas têm que estudar todos muito para serem homens”, dizia a senhora professora, nós todos em silêncio. Também lá estava na parede um retrato. Era dum governador, que a gente ali na terra não conhecia bem, que a gente não precisava. Bastava o senhor regedor. As festas eram sempre no verão, o Natal era a seguir à consoada e a Páscoa o senhor Padre dizia, logo a seguir ao Domingo de Ramos. Os ramos eram raminhos de oliveira e era em latim a missa aos domingos e nos dias-santos. Ao entrar na igreja, os homens tiravam o chapéu dos domingos e dias-santos. Benziam-se à entrada com a água benta da pia. As mulheres ficavam na parte de trás da igreja.

Água era a das fontes, que era fresca mas pouca no verão, e não se podia gastar muita água para lavar as casas para a festa. E também ficava longe e os cântaros pesavam nos quadris. As necessidades eram feitas na loja dos animais e no campo, tudo muito natural. Era bom o campo, com vinhas e oliveiras. As pitas andavam em liberdade na rua. Quando era o tempo, havia os figos, as alfaces, os pepinos, os feijões, etc. Foi a minha professora que me ensinou a usar o “etc.”. Ensinava-nos muita coisa a senhora professora. Também tinha uma régua. A mão era certinha. Erros ninguém tinha.

Gostei muito da minha escola e da minha professora. Ensinou-me a ler, a contar e a escrever. As contas e os problemas eram muito difíceis. E ensinou-me também a aprender. Tive sorte com a minha escola e com a minha professora. Por acaso eram duas professoras. Gostei das duas. Lembro-me delas.

Um dia quis ter uma escola igual à minha. Hoje vendem as escolas.

Hoje já não há meninos nem meninas, mesmo todos juntos a brincar juntinhos aos crescidinhos. Nem escolas. Há outras réguas. Também não há gente. Há lixo. Dizem que é da cidade. Tanto campo que havia! Ah, lembro-me também que a senhora professora dizia que havia uma província toda planinha que era o celeiro de Portugal, cheiinha de trigo. Mas dizia a senhora professora também que lá havia fome. Isso eu nunca entendi bem. Mas ela sabia.

Parece que agora quase tudinho mudou. Do Portugal do mapa só vejo um risco grosso junto ao mar. Sem barcos. Ou com outros barcos. Desapareceu quase todinho. Deve ser da minha vista já cansada. É assim a vida.

Só vejo uma coisa que se mantém: o mundo, esse, continua dependurado por um fio. Por outro fio. Cairá?


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

sábado, 19 de setembro de 2015

O colchão de ondas...


Setembro, 2015.


O colchão de ondas...


Pelo carreiro abaixo
o sol pelo mar adentro,
o colchão de ondas...


José Rodrigues Dias, 2015-9-19

domingo, 6 de setembro de 2015

De dentro da terra emergindo


Julho, 2015, Évora



De dentro da terra emergindo


De dentro da terra emergindo 
em paz, o caminho em luz,
mão na mão, amor os unindo...


José Rodrigues Dias, 2105-08-11

sábado, 18 de julho de 2015

Turbilhão


Julho, 2015



Turbilhão


Criaturas, gente, 
areia em turbilhão:
não é feia
nem negra
nem indolente,
é de sombras cheia,
quase tragédia grega,
triste ilusão...


José Rodrigues Dias, 2105-07-11

quinta-feira, 16 de julho de 2015

100.000 visitas ao blog...



100.000 visitas ao blog...


Ontem o blog atingiu as 100.000 visitas.
Há um contador no canto inferior esquerdo,
bem ao fundo, se quiser ver.
Começou em 10 de Novembro de 2011.

Com as características que tem,
sinto-me honrado.

Agradeço muito a(s) sua(s) visita(s) e a(s) leitura(s).


José Rodrigues Dias, 2015-07-16

terça-feira, 14 de julho de 2015

Pitágoras


Pitágoras, filósofo e matemático grego.


Pitágoras


Sobre o futuro incerto deste à beira-mar caminhar
Ando perguntando com atrevida insistência a Pitágoras,
Mestre em Geometria, em gnose, em cultivado silêncio,
O que se está passando com este luso tortuoso andar.

Vem-me respondendo com paciência de sábio,
Dizendo-me por sinais:
Ouvis pouco,
Entendeis menos,
Falais demais!

Com reverência, vou tentando argumentar:
Mestre, mas nós aprendemos, nós sabemos,
Olha, até o teu teorema do triângulo conhecemos;
Como não haveremos, então, de assim falar?

Sempre por sinais,
Sinto que me pergunta em silêncio:
Se tu não ouves,
Distraído e em tantos ruídos envolvido,
Como podes tu o profundo aprender,
Como podeis vós todos ter assim o conhecer,
Como podeis vós sem o verdadeiro saber,
E tão convencidos, tantos assim tanto falar?

Por sinais,
Sempre por sinais
Que alguns não consigo decifrar,
Diz-me para pouco falar,
Para muito o bem ouvir
E fundo outros sinais sentir.
Diz-me para trabalhar e trabalhar o pensar!

Continuo a ouvi-lo em silêncio,
A aprender, a pensar, a trabalhar…


José Rodrigues Dias, Traçados sobre nós, Chiado Editora, 2011.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Grécia


Ilha de Hydra, Grécia, 1990.


Grécia

A gente grita e se grita é de dor
e de revolta,
seja a revolta qual for
e a forma do grito
e a face da dor.

É dor viva e é viva a revolta
que a gente agora liberta em grito
ou que em silêncios soluçados tem envolta!
Eu aqui grito pelos homens de voz pisada
que cantaram em nascentes a sabedoria
e pelos rios e mares poesia
na palavra livre declamada
em democracia!


José Rodrigues Dias, in Tempo Mágico, Coletânea de Poesia e Texto Poético da Lusofonia
Sinapis Editores, 2015.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Ainda a Grécia (Wisdom for the problems of today)...







Ainda a Grécia 
(Wisdom for the problems of today)...

... e o congresso mundial da IFORS 
(International Federation of Operational Research Societies), 
aqui com a capa dos "Abstracts" e outros elementos da organização...

Atenas, Grécia, 25-29/06/1990.

Significativo, hoje, o tema do congresso:

Wisdom for the problems of today

Sagesse envers les problèmes actuels

Tive o privilégio de ser o Presidente (Chair)
de uma sessão sobre Fiabilidade (Reliability).

Na imagem a pág. 121 com os dois primeiros trabalhos dessa sessão...

Foi bom!

Gostei da Grécia.

Gostei dos gregos...


José Rodrigues Dias, 1015-07-03

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Lembrando a Grécia...


Em Atenas, Junho de 1990.


Lembrando a Grécia...


IFORS’ 90 – 12th Triennial Conference 
on Operations Research.

Congresso Mundial da
International Federation of Operational Research Societies

 Atenas, Grécia, 25-29/06/1990.

Presidente de Mesa 
de uma Sessão de Trabalho.


José Rodrigues Dias, 2015-07-02

Senta-te agora um pouco




Senta-te agora um pouco


Junto a este teu banco,
folhas e flores cor de pátria
que me medram do peito
em canto,
assim juntos vemos ao fundo a cidade,
no silêncio das coisas nos entendemos
enquanto o tempo nos escreve a idade...

Senta-te agora um pouco,
tudo está acomodado,
o teu jantar pode esperar...

Tu sabes, é de manhã e à tarde,
é nestas tardinhas
que o branco
da luminosidade
é ainda mais suave,
que suavemente nos embala
até que devagarinho parte...


José Rodrigues Dias, 2015-07-01

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Tempos



Tempos


Avalanches de torpedos, de medos…
Avalanches de impostos, de desgostos…

Tempos passados, drogados…
Tempos de pios votados, de ímpios constatados…
Tempos de primavera floridos, de inverno frios sentidos…
Tempos idos de ter, vindos de perder…
Tempos de fartura aclamada, de negrura proclamada…
Tempos de sinais sentidos, de sentidos adormecidos…
Tempos de falências avisadas, de cabeças perturbadas …
Tempos de esperança sonhados, de desesperança amaldiçoados…
Tempos chegados, chorados…


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 104 pp, 2011, pág. 76.

domingo, 28 de junho de 2015

Fractal



Fractal


O mundo é um fractal, uma flor
Repetida em multicolores e fraternas flores.

Com estranhos atractores,
A borboleta e o passarinho
Continuarão a bater a asa, a voar,
Em qualquer lado, em qualquer lugar,
E tempestades incertas poderão rebentar
Em caos do outro lado do mar.

Com estranhos detractores,
O réptil e o passarão
Continuarão a bater o pé, a pisar,
Em qualquer lado, em qualquer lugar,
E tempestades certas irão rebentar
Em caos do outro lado de todo o mar…

Complicado este mundo de complexidade
Em dinâmica não linear de neo-liberdade…


José Rodrigues Dias, Traçados sobre nós, Chiado Editora, 2011.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Grécia


Grécia

A gente grita e se grita é de dor
e de revolta,
seja a revolta qual for
e a forma do grito
e a face da dor.

É dor viva e é viva a revolta
que a gente agora liberta em grito
ou que em silêncios soluçados tem envolta!
Eu aqui grito pelos homens de voz pisada
que cantaram em nascentes a sabedoria
e pelos rios e mares poesia
na palavra livre declamada
em democracia!


José Rodrigues Dias (2012-02-13),
in Tempo Mágico, Coletânea de Poesia e Texto Poético da Lusofonia
Sinapis Editores, 2015.

domingo, 14 de junho de 2015

Vida





Vida



Nasci de uma gota como um rio
Vindo do interior sagrado da vida.
Gota a gota, pelos mistérios,
Fiz-me garoto como ribeiro cristalino
Cantarolando nas pedras do caminho.
Pedra a pedra, fiz-me homem
Como um rio digno de ser rio.
À volta, ao sol, a imensidão da terra;
Em noites de lua cheia, o céu, suspenso,
Contido na quase quietude das águas…

Rio pleno a falar com o infinito do mar,
Onde vai morrer e outra vida nascer!


José Rodrigues Dias, Évora, 2011-06-15

in IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, 2011.

sábado, 6 de junho de 2015

Este silêncio que se desprende


Mosteiro da Batalha



Este silêncio que se desprende


Este silêncio que se desprende
da interioridade
de luz suave
em que se guarda o tempo...

O mistério devagar se apreende
da palavra 
que se trabalha...

Nos fala
este silêncio
nos cala!


José Rodrigues Dias, 2015-01-20

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Saramago



Saramago


No dia seguinte ninguém morreu, disseste,
Livro abrindo;
Morte em intermitência…
Hoje, disseram que morreste,
Notícias abrindo;
Morte em permanência…

Agora, José, que morreste,
(Morreste?)
Que outro mar passaste,
Como que a caminho de outra Lanzarote,
Diz, José, há vida em morte
Como há morte em vida sem sorte?
Ou sem norte?
Há intermitências de vida em morte?
Há dor e amor?
Há Criador?

Morto vivo, renasceste depois de morto.
Hoje, morto?
Morto, manter-te-ás vivo, morto!


J. Rodrigues Dias, Poiesis, Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XIX,  Editorial Minerva, 2010.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Fonte


Fonte gótica - Ourém


Fonte


Anda,
sobe os degraus
refresca nesta água as mãos
a face de sulcos salgados
molha os lábios secos

não digas nada…

Bebe um pouco
senta-te neste banco
limpo
feito de branco
polido…

Bebe um pouco mais
mais um pouco
sossega
não digas nada
o tempo tudo sara…


José Rodrigues Dias, in Tempo Mágico, Sinapis Editores, 2015.

domingo, 31 de maio de 2015

Margarida, distraída



Margarida, distraída


Um dia, precavida, disseste-me,
Por tão distraído dizeres o teu ser ser:
Se algum dia, passando, passar sem te falar
Estou passando, perdida, olhando, sem te olhar!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Servos


Servos



Conta-se que havia um senhor que tinha muitos servos e que nas suas terras havia trabalho e pão. Mas um dia começou o senhor a empobrecer. Ano após ano, cada vez mais pobre, não importa aqui como o senhor empobrecia, já não sabia o senhor o que fazer com os servos, que o tempo, conta-se, era de muita secura. Outros senhores davam-lhe conselhos, o senhor até os seguia, mas cada dia se via mais pobre… E o senhor, que diziam ser um homem de bem, já de longa idade, olhava, pensativo e triste, os seus servos na secura da terra. Que haveriam de comer, com tanta secura…

Os campos à volta eram já quase só de terra batida naquela aridez crescente, isso via bem o senhor, e os servos sem pão e sem trabalho da secura sofriam… Um dia, olhando os servos já quase espalmados, disseram certos senhores de fora ao senhor para cortar mais no pão dos seus servos, ele que já contrariado tinha antes cortado. Mas que haveria o senhor de fazer, ele que não tinha pão e que já só o recebia daqueles senhores de fora a quem já tanto agora devia…

Um dia, falando o senhor no seu jeito aos servos, já quase sem dignidade na postura, o senhor disse-lhes, com pena, é verdade, que ia cortar mais no pão. Que poderiam dizer os servos e ele se o pão era daqueles senhores de fora e os senhores assim queriam… E o senhor cortou, cortou mais, que tinha que assim cortar, dizia a si mesmo, olhando triste os servos, para a si mesmo se desculpar.

Entretanto, nas terras à volta, a secura dos tempos ia aumentando e os homens de fora que tinham o pão iam apertando o senhor que cada dia mais lhes devia.

E o pão do senhor aos servos foi assim diminuindo, o senhor mais pobre, mais triste, cada dia mais pobre, pior os servos, as dívidas do senhor maiores àqueles senhores de fora…

Um dia faltou ao senhor um servo. Homem bom, procurou-o. Encontrou-o morto.
Noutro dia, faltaram-lhe dois.
Depois, mais tarde, outros servos…
Há quem conte, sem se saber bem como, que os servos se revoltaram…
Mais tarde, conta-se, os senhores de fora encontraram o senhor morto e ficaram com o que sobrou…


José Rodrigues Dias, 2012-01-29

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sobreiros



Sobreiros


Gostaria que os homens fossem como os sobreiros,
Nas agruras resistentes, sempre sóbrios, em solos ardentes.
Gostaria que os homens ao quarto de século fossem jovens adultos
Como os sobreiros, com a cortiça virgem tirada dos troncos
Pela primeira vez descortiçados por mestres tiradores
Sem machados a cortarem as raízes e a seiva do crescimento.
Gostaria que os homens nos sobreiros, então, se olhassem
E no espelho do céu se repensassem no seu tronco nú,
Com a casca rugosa superficial tirada, reduzidos à sua essência,
À seiva que lhes dá a vida pelas raízes na secura da terra conquistada.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros,
Em nova etapa, com a força retemperada e, nove anos passados,
De novo descascados por hábeis mestres descortiçadores,
Com precisão no corte para de novo não os magoar no seu ser
Nem os ofender no essencial do seu viver e crescer.
Gostaria, então, que os homens olhassem de novo os sobreiros,
Maiores, continuando sóbrios no seu porte, verdadeiros,
E sentissem como leve continua a ser a cortiça secundeira
Que vento fraco matinal de quase aragem leva ligeira.
De tronco nú, gostaria que os homens neles de novo se mirassem
E em imagem de futuro com eles se reiniciassem
E de novo, em nova etapa, se fortificassem.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros
E que um dia, depois, nove anos depois, vissem como teria
Finalmente, então, qualidade a cortiça amadia.
E de novo em tronco nú, despojados da sua superficialidade,
Reduzidos à sua essência, em nova etapa iniciada,
Com mais porte e mais seiva, maiores, verdadeiros,
Gostaria que os homens olhassem agora os adultos sobreiros,
Imponentes, agarrados mais ao solo, ainda mais sóbrios.
Gostaria, assim, que os homens fossem como os sobreiros,
Crescendo, dando-se ao cuidar de mestres, aos outros se dando,
Olhando-se no espelho do céu, almejando o brilho das estrelas,
Libertando-se do superficial, o essencial preservando,
Como os sobreiros, imponentes no ser do tempo,
Olhando do seu alto a pequenez dos pequeninos chaparros
E o abocanhar sôfrego dos porquinhos.
Gostaria, então, que os homens fossem como os sobreiros
E que vissem como é até leve a cortiça amadia
Que um vento mais forte como colorido trapo superficial
Para um longe escuro leva para sempre,
Num qualquer dia!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011, pp 69-71.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Cidade grande



Cidade grande


Cidade grande,
Com ondas de gentes
Empurradas para os limites,
Espumando desfeitas nos rochedos!

Empurradas para todos os limites…
Limites do espaço, da miséria, da vida,
Do tempo todo sem tempo nenhum livre…
Sem tempo mesmo para se amar serenamente…

E o monte, simples,
Na sua morada altaneira,
Asseada, varrida pelo vento,
Olhando e dormindo ao pé do céu,
Lá em cima, junto ao céu das estrelas,
Sobre a planície sempre sua companheira,
Meneando os seus cabelos longos de trigo,
Docemente aberta a amor genuíno
De amantes assim eternos,
Sem um queixume,
Livres e iguais,
Ternos…


José Rodrigues Dias, IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, p. 281, 2011.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Amor



Amor


À noite, em cada noite,
Olha a serenidade da luz da Lua,
Mesmo quando a Lua estiver escondida
Por nuvens voando livres ao vento solto,
Como que desafiando-te num jogo de esconde-esconde,
E sente o Amor.
Sente o Amor!
O amor de companheira,
Ou de livro aberto, de página escrita ou à espera de palavra,
Mesmo que palavra seja difícil de chegar e de encontrar,
Por ser palavra perdida…


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

sábado, 2 de maio de 2015

Tu, terra, Eva…


Tu, terra, Eva…


Eva ali nua
Saída da terra,
Do que fundo é,
Raiz que é…

É encosta, costela,
Árvore, fogo, ar, serra…
É Douro e Tua,
Meu selvagem Sabor,
É à terra amor…

Eva ali nua
Livre,
Um porquê de criança,
Livre o homem,
Adão…

Eva, vida, viva…

Sereia das águas,
Rumorejo das videiras,
Passarada às cerejas,
Olhos sem mágoas…

Eva é o que ali se deleita,
Beleza virgem
Que enfeita a pureza…


José Rodrigues Dias, Évora, 2012-05-22

Em A Terra de Duas Línguas II, Antologia de Autores Transmontanos, pp. 79-80, Coordenação: Ernesto Rodrigues - Amadeu Ferreira, Lema d´Origem, 2013.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Miguel



Miguel

(Ter trabalho é ter riqueza)


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Daninhas…


Daninhas…


De um lado para o outro
Escarifico a terra húmida
Da chuva que só agora veio,
Sempre vem o que tem que vir…,
Mesmo que tarde o homem diga,
Tardego o ano e o cultivo…

Revolvo a terra
Em desajeitados passos
De aprendiz,
Meio cruzados,
Perpendiculares deveriam ser,
Eficazes são pela perseverança...

Arranco as mil coloridas ervas,
Em mil pedacinhos as desfaço,
Quase a pensar as amaldiçoo,
Não, não sou pessoa de mal…,
Assim as enterro
Como cinzas,
Mortas…

Sempre renascem…


Évora, 2012-05-10

José Rodrigues Dias in A Terra de Duas Línguas II, Editora Lema d'Origem, pp 82-83, 2013.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O mundo na minha escola primária




O mundo na minha escola primária


Eu gostava muito da porta da minha escola primária: era de cantaria e redonda em cima. Era uma escola só para meninos; havia outra escola só para meninas. Havia muitos meninos e muitas meninas. Alguns andavam descalços. Não havia electricidade na terra e não havia televisão. Telefone havia. Lembro-me do telefone número 4. Havia poucos rádios e eram grandes, da gente rica. Trabalhavam a pilhas. Quando acabavam as pilhas ficavam sem saber as horas certas. Mas as horas eram todas boas. Eram as horas dadas pelo sol e pela lua, quando não havia névoas. Quando havia, ou quando chovia muito, que Deus a dava, não fazia diferença. Um dia nascia depois de outro dia e o mesmo acontecia com as noites. Eram sempre alternados. Também havia as horas dadas pela barriga. Essas eram as horas piores, com fome.

Notícias quase não havia em Talhas, nem era preciso. Quando alguém morria tocava o sino. Tocava de maneira diferente consoante o morto era homem ou era mulher. Se o morto era de outra terra, a notícia lá chegava e logo se espalhava.

Era assim o mundo. O mundo estava todinho ali na minha escola, no saber da senhora professora e no mapa dependurado por um fio numa parede da sala de aula ao pé do quadro. Um dia calhou cair com o ponteiro a forçar o Mondego a passar pela terra dos doutores. “Meninos, poucos podem ser doutores, mas têm que estudar todos muito para serem homens”, dizia a senhora professora, nós todos em silêncio. Também lá estava na parede um retrato. Era dum governador, que a gente ali na terra não conhecia bem, que a gente não precisava. Bastava o senhor regedor. As festas eram sempre no verão, o Natal era a seguir à consoada e a Páscoa o senhor Padre dizia, logo a seguir ao Domingo de Ramos. Os ramos eram raminhos de oliveira e era em latim a missa aos domingos e nos dias-santos. Ao entrar na igreja, os homens tiravam o chapéu dos domingos e dias-santos. Benziam-se à entrada com a água benta da pia. As mulheres ficavam na parte de trás da igreja.

Água era a das fontes, que era fresca mas pouca no verão, e não se podia gastar muita água para lavar as casas para a festa. E também ficava longe e os cântaros pesavam nos quadris. As necessidades eram feitas na loja dos animais e no campo, tudo muito natural. Era bom o campo, com vinhas e oliveiras. As pitas andavam em liberdade na rua. Quando era o tempo, havia os figos, as alfaces, os pepinos, os feijões, etc. Foi a minha professora que me ensinou a usar o “etc.”. Ensinava-nos muito coisa a senhora professora. Também tinha uma régua. A mão era certinha. Erros ninguém tinha.

Gostei muito da minha escola e da minha professora. Ensinou-me a ler, a contar e a escrever. As contas e os problemas eram muito difíceis. E ensinou-me também a aprender. Tive sorte com a minha escola e com a minha professora. Por acaso eram duas professoras. Gostei das duas. Lembro-me delas.

Um dia quis ter uma escola igual à minha. Hoje vendem as escolas.

Hoje já não há meninos nem meninas, mesmo todos juntos a brincar juntinhos aos crescidinhos. Nem escolas. Há outras réguas. Também não há gente. Há lixo. Dizem que é da cidade. Tanto campo que havia! Ah, lembro-me também que a senhora professora dizia que havia uma província toda planinha que era o celeiro de Portugal, cheiinha de trigo. Mas dizia a senhora professora também que lá havia fome. Isso eu nunca entendi bem. Mas ela sabia.

Parece que agora quase tudinho mudou. Do Portugal do mapa só vejo um risco grosso junto ao mar. Sem barcos. Ou com outros barcos. Desapareceu quase todinho. Deve ser da minha vista já cansada. É assim a vida.

Só vejo uma coisa que se mantém: o mundo, esse, continua dependurado por um fio. Por outro fio. Cairá?


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.