terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Multiplicação do pão





Multiplicação do pão


Repito-me hoje
nos actos,
repito os passos:

Mando as ervas daninhas 
aos gambozinos e às urtigas 
remexendo fundo a terra,

na terra ponho uma mão de estrume
e repito, repito,
repito o acto de remexer bem a terra,

abro bem alinhados os sulcos,
como eu gosto, com um segmento de recta,
abrindo certos os meus versos.

Pego na semente de batata
como ela própria olhando me diz
seja ora inteira ora cortada,

e alinho-a nos sulcos direitos
deitada de costas e, então, tapo-a, quente a mão,
nos lençóis de terra passada...

Depois, em silêncio,
como se ofício em templo sagrado,
como que sentencio:

Sossegai, dormi um pouco agora
e tranquila vos seja a noite, leve e macia a terra...
Agora deixo-vos, vou-me embora...

Mas ao abrirdes os olhinhos
em pequenos assomos de rebentos
eu cá estarei, logo eu voltarei...

A fome e a sede,
não as temais, deixai lá,
delas vos livrarei...

Das maleitas,
eu, eu próprio, eu
vos limparei...

E, por fim, o sorriso nos olhos,
por fim voltarei e juntos nos iremos,
sacos de nós cheios aos molhos...


José Rodrigues Dias, 2017-01-24

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