sexta-feira, 23 de junho de 2017

Solstício de S. João Baptista




Solstício de S. João Baptista


Só agora, um tempo de Verão

há tanto este ano chegado e tanto já queimado, oh Sol!,
Solstício de Baptista S. João?...

Não, agora já não o tempo de saltar, 

colheitas ardidas, gente ceifada, nem eira nem beira,
é tempo agora de silêncio, de chorar...

Mas tempo sempre 
de olhar longe, o mar ondulando, o Sol além,
sempre recomeçar...


José Rodrigues Dias, 2017-06-23


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Praça do Giraldo




Praça do Giraldo


Quente, olhar sob a arcada,
a fonte henriquina das pombas sedentas,
a fronte da igreja desmaiada...


José Rodrigues Dias, 2017-06-15

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Chamas




Chamas


Pais e filhos
feitos num instante cinzas,
pais, ninhos...

Seres que são mortos,
rolas que já não cantam, nem os melros, negros,
olhos que nos choram...

Corpos,
jazem negros,
mortos...


José Rodrigues Dias, 2017-06-21

terça-feira, 20 de junho de 2017

Renasce




Renasce


De um chão negro, branca
uma flor
de vida renasce, se levanta...


José Rodrigues Dias, 2017-06-20

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Da idade um homem dali não foge




Da idade um homem dali não foge


De um raio que faísca dos céus
ou de tição na mão sobre mato seco, infernos,
tudo ali feito pelas chamas preto...

Da idade um homem dali não foge,
não pode, nem o fogo lhe ardendo dá tempo,
em sua casa de vida cheia se acolhe...

Uma senhora, afogueada,
a um poço, aterrorizada, se atira.
Disse uma outra: coitada...

Um drama
sobre pobre gente
se derrama...


José Rodrigues Dias, 2017-06-18

O Sol




O Sol


Do calor tão cansado,
de lençóis a cama pelo mar aberta,
o Sol já quase deitado...


José Rodrigues Dias, 2017-06-17

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Ramagem de árvore




Ramagem de árvore


Ramagem de árvore,
de raízes um chapéu verde, fresco,
o dia de Sol ardente...


José Rodrigues Dias, 2017-06-17

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O melro, o calor e o homem...





O melro, o calor e o homem...


Um calor danado na moleirinha aí em baixo...
Fresquinho aqui em cima, uma aragem entre a folhagem...
Tu, que tudo podes, voa então cá para cima...


José Rodrigues Dias, 2017-06-15

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Agradecer a todos




Agradecer a todos 


Sim, fazes sessenta e seis anos, mas anda,
agradece a todos, ao que lá for, mais aos que te amam,
mas não demores, o caminho já te espera...

O caminho mesmo te ordena,
o dia já não é de chegada, que já chegaste,
é de uma outra partida, anda...

Te espera
uma palavra, a Palavra sublime,
que te foge...


José Rodrigues Dias, 2017-06-14

terça-feira, 13 de junho de 2017

Papoila...




Papoila...


Papoila caída,
Sol quente a dobra,
todos quebra...
               

José Rodrigues Dias, 2017-06-11

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Um coelho, abanando as orelhas




Um coelho, abanando as orelhas


Tardinha, além já se indo o Sol...
Um coelho, ainda pequenino, do calor abafado,
refresca-se abanando as orelhas...


José Rodrigues Dias, 2017-06-11

domingo, 11 de junho de 2017

Domingo




Domingo


Domingo em volta
todo me envolve,
um silêncio quente...


José Rodrigues Dias, 2017-06-11

sábado, 10 de junho de 2017

Portugal, porque...




Portugal, porque...


Gosto desta terra,
dos montes, da planície, do mar,
da luz que medra...

Gosto desta lonjura
espraiando-se,
o andar livre a olhar...

Gosto desta mistura
de campo, de mar, de cidade,
gosto desta postura...

Neste chão
dos passos a minha mão
me dá pão...


José Rodrigues Dias, 2017-06-09

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O mundo na minha escola primária




O mundo na minha escola primária


Noutro tempo
outro era Portugal,
antigo o tempo...


José Rodrigues Dias, 2017-06-09

O mundo na minha escola primária


Talhas, a Escola Primária, fechada. 
Foto da Net.


O mundo na minha escola primária


Eu gostava muito da porta da minha escola primária: era de cantaria e redonda em cima. Era uma escola só para meninos; havia outra escola só para meninas. Havia muitos meninos e muitas meninas. Alguns andavam descalços. Não havia electricidade na terra e não havia televisão. Telefone havia. Lembro-me do telefone número 4. Havia poucos rádios e eram grandes, da gente rica. Trabalhavam a pilhas. Quando acabavam as pilhas ficavam sem saber as horas certas. Mas as horas eram todas boas. Eram as horas dadas pelo sol e pela lua, quando não havia névoas. Quando havia, ou quando chovia muito, que Deus a dava, não fazia diferença. Um dia nascia depois de outro dia e o mesmo acontecia com as noites. Eram sempre alternados. Também havia as horas dadas pela barriga. Essas eram as horas piores, com fome.

Notícias quase não havia em Talhas, nem era preciso. Quando alguém morria tocava o sino. Tocava de maneira diferente consoante o morto era homem ou era mulher. Se o morto era de outra terra, a notícia lá chegava e logo se espalhava.

Era assim o mundo. O mundo estava todinho ali na minha escola, no saber da senhora professora e no mapa dependurado por um fio numa parede da sala de aula ao pé do quadro. Um dia calhou cair com o ponteiro a forçar o Mondego a passar pela terra dos doutores. “Meninos, poucos podem ser doutores, mas têm que estudar todos muito para serem homens”, dizia a senhora professora, nós todos em silêncio. Também lá estava na parede um retrato. Era dum governador, que a gente ali na terra não conhecia bem, que a gente não precisava. Bastava o senhor regedor. As festas eram sempre no verão, o Natal era a seguir à consoada e a Páscoa o senhor Padre dizia, logo a seguir ao Domingo de Ramos. Os ramos eram raminhos de oliveira e era em latim a missa aos domingos e nos dias-santos. Ao entrar na igreja, os homens tiravam o chapéu dos domingos e dias-santos. Benziam-se à entrada com a água benta da pia. As mulheres ficavam na parte de trás da igreja.

Água era a das fontes, que era fresca mas pouca no verão, e não se podia gastar muita água para lavar as casas para a festa. E também ficava longe e os cântaros pesavam nos quadris. As necessidades eram feitas na loja dos animais e no campo, tudo muito natural. Era bom o campo, com vinhas e oliveiras. As pitas andavam em liberdade na rua. Quando era o tempo, havia os figos, as alfaces, os pepinos, os feijões, etc. Foi a minha professora que me ensinou a usar o “etc.”. Ensinava-nos muita coisa a senhora professora. Também tinha uma régua. A mão era certinha. Erros ninguém tinha.

Gostei muito da minha escola e da minha professora. Ensinou-me a ler, a contar e a escrever. As contas e os problemas eram muito difíceis. E ensinou-me também a aprender. Tive sorte com a minha escola e com a minha professora. Por acaso eram duas professoras. Gostei das duas. Lembro-me delas.

Um dia quis ter uma escola igual à minha. Hoje vendem as escolas.

Hoje já não há meninos nem meninas, mesmo todos juntos a brincar juntinhos aos crescidinhos. Nem escolas. Há outras réguas. Também não há gente. Há lixo. Dizem que é da cidade. Tanto campo que havia! Ah, lembro-me também que a senhora professora dizia que havia uma província toda planinha que era o celeiro de Portugal, cheiinha de trigo. Mas dizia a senhora professora também que lá havia fome. Isso eu nunca entendi bem. Mas ela sabia.

Parece que agora quase tudinho mudou. Do Portugal do mapa só vejo um risco grosso junto ao mar. Sem barcos. Ou com outros barcos. Desapareceu quase todinho. Deve ser da minha vista já cansada. É assim a vida.

Só vejo uma coisa que se mantém: o mundo, esse, continua dependurado por um fio. Por outro fio. Cairá?


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Olhando o céu de purgatórios...




Olhando o céu de purgatórios...


Tudo, até martelo e faca,
tudo o que mata,
é nesta guerra sem terra...

Nesta terra tanta coisa que é guerra,
o tempo tão insano, tanto colarinho branco,
como um só euro compra um banco...

É o mesmo Sol que dá o pão,
a mesma Lua, tranquila, materna,
os dias é que não, outros são...

Deste fundo
olhando o céu de purgatórios
deste mundo...


José Rodrigues Dias, 2017-06-07


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Flores de romã




Flores de romã


Flores de romã,
ramo aberto em abraço matinal,
a luz sorvendo...

Depois, a luz concentrada,
o mundo inteiro resguardado na romã,
o fruto da gente irmanada...


José Rodrigues Dias, 2017-06-06

terça-feira, 6 de junho de 2017

O poema...




O poema...


Planto árvores,
colho 
sombra fresca...

Da sombra
faço
um poema...

Poema,
cada folha
o canta...


José Rodrigues Dias, 2017-06-05

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Recanto...




Recanto...


Recanto de flores, de paz...
Sobre uma fraga maior o encanto...
Com as mãos dadas se faz...


José Rodrigues Dias, 2017-06-05

domingo, 4 de junho de 2017

Em paz...




Em paz...


Marés, 
adamastores,
ventos...

Caindo,
sempre indo,
subindo...

Do altar
maior o alcance
do olhar...

Do céu,
quase sentido
dentro...

As palavras
em paz
são caladas...


José Rodrigues Dias, 2017-06-04

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Luz e colunas...




Luz e colunas...  


Sob a abóbada celeste, azul,
de Oriente para Poente a Luz se acendendo,
as três colunas em triângulo...

Que sabedoria
no simples, que força e beleza,
e que harmonia...

Tudo escrito
nos antigos livros,
há tanto dito....


José Rodrigues Dias, 2017- 05-31