quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Do Sol já borbulham videiras




Do Sol já borbulham videiras


Do Sol já borbulham videiras,
floridas as ervas vão-se disseminando
e os poços sem água choram...


José Rodrigues Dias, 2018-01-31

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Tu e os espelhos




Tu e os espelhos 


Nos espelhos, 
estáticas e parcelares,
imagens de ti...

Querendo tu conhecer-te, saber de ti, 
integral o teu ser e tu um ser uno,
olha-te dentro, olha bem dentro de ti...

Cada lágrima e ruga, cada alegria,
sorrisos, mágoas, marcas do caminho,
tudo dentro é registado a cada dia...

Olha-te dentro
até porque o correr do rio
oscila no tempo...


José Rodrigues Dias, 2018-01-30

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Do outro lado do espelho




Do outro lado do espelho


Ondas de luz, de sombras,
do outro lado do espelho, reflexivo,
onde nua a vida se insinua...



José Rodrigues Dias, 2018-01-28

Aqueduto das Águas Livres




Aqueduto das Águas Livres


Dia e noite, de engenho a mão do homem,
mestres e aprendizes, pedra sobre pedra, companheiros,
e as águas de fontes para as bocas correm...  

No caminho extenso fechadas
as águas livres respiram em janelas
antes de serem sedes saciadas...


José Rodrigues Dias, 2018-01-29


sábado, 27 de janeiro de 2018

Dádiva




Dádiva


Chegado, lá fora a tarde já anoitece.
Prazer e cansaço, os braços ao trabalho abraçados.
Este tempo da palavra já amanhece... 

Sinto os pássaros,
o regresso
a sua casa, livres!

Dádiva,
de sorte também este tempo
de vida...


José Rodrigues Dias, 2018-01-27

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Passarinhos




Passarinhos
 
 
Que triste aqui em cima!
Tu viste por aí o meu companheiro?
Estou eu aqui tão sozinha...


José Rodrigues Dias, 2018-01-26

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Olhos tristes de fome




Olhos tristes de fome


Gosto do Sol ao entardecer
quando se esconde entre dois sobreiros
como uma bola de fogo quase tranquila…
Gosto de o olhar com um olhar quase místico,
quase como os antigos a venerar o mesmo Sol
e o Sol lhes agradecia com o segredo sagrado
das sementeiras e das colheitas cheias do ano
nos dias pequenos e grandes do tempo…

Porém, hoje, neste tempo,
quando neste entardecer pergunto
ao Sol o segredo das colheitas cheias,
e pergunto com todo o respeito,
o olhar quase místico,
por sinais
o Sol pergunta-me
se eu semeei…

E eu, embaraçado,
sem saber como lhe responder,
meu rosto corado,

sem nada dizer
baixo ainda mais os olhos
tristes de fome…

2012-01-08


José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão, 152 pp, ed. Forinfor, 2017.

 * * *

José Rodrigues Dias, 2018-01-25

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

De um nevoeiro, pela manhã



 
De um nevoeiro, pela manhã
 
 
Manhã carregada de nevoeiro,
a parede com que seguro a água fugidia mal se vê,
manhã feita da cor do cimento...
 
Deixo o trabalho da concreta pedra,
do ar livre frio recolho-me quente em solidão,
trato a sintaxe ardil de cada palavra...

De um nevoeiro
talvez apareça, um dia, pela manhã,
outro livro novo...


José Rodrigues Dias, 2018-01-24

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Nevoeiro, cores de mistério




Nevoeiro, cores de mistério 


O tempo de nevoeiro
com cores de mistério, subtis,
entranhando as coisas...

Silhuetas do passado 
perdem e ganham força
pelo caminho trilhado...

Em nevoeiro pelo caminho
El-Rei D. Sebastião
tão perdido em seu destino...


José Rodrigues Dias, 2018-01-23

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Reflexos e memórias




Reflexos e memórias


Traços no escuro 
que a luz tece rendilhados em reflexos
pela água adentro...

Memória gravada
com estiletes de luz coloridos de vida
pela noite adentro...

Muda o tempo,
com o Sol tudo se muda, nos muda,
e tudo se perde...

Depois diferente
reaparece, talvez, que pouco a gente sabe,          
sendo outro olhar...


José Rodrigues Dias, 2018-01-22

domingo, 21 de janeiro de 2018

Imaginação




Imaginação 


No caminho, pelo chão,
parada, repara, derramada
que imensa imaginação...

Em história acrescentada,
nuns jogos florais,
em piada picante contada...

Desaguasse num rio, pingando, a imaginação
e houvesse nas margens uma pedra e uma tábua 
que pelos mares bem longe iria a embarcação...

E caso, sem deleitação,
o caminho fosse sem ilha dos amores
nasceria da imaginação...


José Rodrigues Dias, 2018-01-21
 

sábado, 20 de janeiro de 2018

A parede e a palavra




A parede e a palavra


Com o cair da noite
sento-me, duro de pé e ao Sol
foi o trabalho de dia...

Nem te digo o que foi,
parecia-me eu a brincar como agora,
agora a palavra à Lua...

Vai ficando 
a parede, a palavra
vai-se indo...
 

José Rodrigues Dias, 2018-01-20

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Raízes tristes




Raízes tristes


Ao Sol de Inverno uma árvore desnudada,
os seus ramos num emaranhado faminto de vida
como raízes tristes em procura de alimento...


José Rodrigues Dias, 2018-01-19

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Do andar de Janeiro




Do andar de Janeiro


Na tarde que se alonga
com o andar de Janeiro
o trabalhar se prolonga...

E das mãos abertas do Sol
o tempo sentido ao ar livre
parece-me ser ainda maior...

E o homem
todo cresce 
do trabalho...


José Rodrigues Dias, 2018-01-18

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Terra-mãe de Torga




Terra-mãe de Torga 
(Hoje, dia da morte de Torga)


Leve hoje o céu,
a terra-mãe de Torga
com sorriso seu...

A terra sentida,
das mãos e das pedras a terra
de nós nascida...

Um rosto tão carregado,
rugas das forças feitas, chuvas, frios, ventos, neves,
em cada caminho andado...

Hoje leve no céu
um sorriso em rosto suave,
parece que é teu...


José Rodrigues Dias, 2018-01-17

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Além das nuvens




Além das nuvens


Além das nuvens
há o azul
escondido no céu...

Sob a aparência
há o ser
dentro do corpo...


José Rodrigues Dias, 2018-01-16

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Luís, Beato Salu, e o dever cumprido.





Luís, Beato Salu, e o dever cumprido.


Estremecera a terra, para a rua a gente saíra, tremera...
O banco do Luís na Acrópole saltara, ele mo disse, saltara...
E Beato Salu, o Luís, as paredes da cidade ali segurara...

Missão sua há muito que era,
o amigo Luís há muito mo dissera,
assim Beato Salu ali cumprira...

Ao Sol o Luís sentado,
seu dever cumprido, protegida a cidade,
seus pertences ao lado...

Cada casa segura,
Luís
sem nenhuma sua...


José Rodrigues Dias, 2018-01-15

domingo, 14 de janeiro de 2018

De silêncio as palavras




De silêncio as palavras


Mãos na massa,
de claro o dia o cimento feito,
começa a chuva...

Faço enquanto posso,
lavo e guardo os materiais,
sob a telha me guardo...

Não é de exteriores,
o tempo é de interioridade,
recolho-me em mim...

De silêncio
feitas
as palavras...


José Rodrigues Dias, 2018-01-14

sábado, 13 de janeiro de 2018

Nuvens dos caminhos





Nuvens dos caminhos


As nuvens que no céu a luz enegrecem
daqui as olho; porém, olhando o mundo, vejo
as nuvens que os caminhos entristecem...

Mas eis que de um arco-íris
brota um colorido amenizando a escuridão
com uns raios de esperança...


José Rodrigues Dias, 2018-01-13

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Pedra do caminho




Pedra do caminho


Oh pedra do caminho, que farei contigo?
Faz-me, faz-te, diz ela, talvez por uma aresta, começa... 
Do início, tu e eu, logo veremos o destino...


José Rodrigues Dias, 2018-01-11

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Pedras, brutas de desafio, polidas do trabalho




Pedras, brutas de desafio, polidas do trabalho 


Olhando,
sentado, sentindo,
o tempo...

O tempo no caminho
que no olhar aberto, atento,
se desenrola em vida...

Caminho de pedras,
brutas de desafio, polidas do trabalho,
o burilado das mãos...

As mãos, cada mão,
de pequenas feitas grandes,
semente grão a grão...

Observo o movimento,
o movimento contínuo no tempo, do tempo,
ora acelerado ora lento...

No jardim,
ali, quase aqui, um homem trata
das flores...

Parando o tempo,
as flores de pé viçosas das mãos
morreriam secas?...


José Rodrigues Dias, 2018-01-11

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Eu e o poema




Eu e o poema


Cedo na manhã o cinzento,
a chuva então caída logo levou
de ontem o fresco cimento...

Digo-te: precisas de deixar 
o vinho novo
um certo tempo a encorpar...

E a ti, poema escrito,
ainda fumegando, barbas por limpar,
logo te ponho a andar... 

Que coisa estranha 
essa de um espeto de pau
em casa de ferreiro... 


José Rodrigues Dias, 2018-01-09

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Caem azeitonas, palavras




Caem azeitonas, palavras


Com a chuva, maduras,
caem azeitonas, palavras,
enchendo-se novos sacos...

Tractor cheio de poemas,
o sonho na esperança
de virem a ser azeite, luz...

Luz que se reflicta
em livro novo prensado, aberto,
e que se transmita...


José Rodrigues Dias, 2018-01-09

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Falo de pedra penetrando a terra, quem sabe...




Falo de pedra penetrando a terra, quem sabe...


Penetrando a terra o falo,
que lá bem do seu âmago, do seu ventre,
haveria de nascer o fruto...

Se com homens e mulheres assim era
e o mesmo era com outros seres,
como não o seria com o granito e terra?

A esta distância alongada no tempo,
penso agora, a terra-mãe já tão gasta do homem,
como saber hoje desse pensamento?...


José Rodrigues Dias, 2018-01-08

domingo, 7 de janeiro de 2018

Cromeleque dos Almendres




Cromeleque dos Almendres


Misterioso o rasto, olhar para trás voltado,
vai-se despedindo o Sol do Cromeleque dos Almendres,
o chão em amálgama de profano e sagrado...

O tempo
já esquecido, de ser já velho,
do início...


José Rodrigues Dias, 2018-01-07

Os Reis Magos e nós




Os Reis Magos e nós


Traçando bem longe o destino
entre sombras e medos dos herodes,
a Oriente a Estrela do caminho...


O caminho
de reconhecimento e oferendas,
o Princípio...


Aqui, romã
com bagos fraternos cantados
em partilha...



José Rodrigues Dias, 2018-01-06

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Chove, vê tu




Chove, vê tu


Chove, carregado chegou o céu:
barafusta a mão molhada do pedreiro da cidade
e gretado sorri o rosto do campo...

Vê tu: há sempre alguém 
que diz que sim
e alguém que diz que não...

Experimentado,
sinto que há sempre das coisas
um e outro lado...

E penso no integral das pingas de água
fazendo poças e charcas e barragens enormes, cheias,
e nas torneiras secas sem gota de água...

A chuva fonte de Vida,
a Natureza fazendo poemas de divina criação,
nós que sim e que não...


José Rodrigues Dias, 2018-01-05

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Sob os pés, rios de lixo




Sob os pés, rios de lixo


Andar à superfície das coisas,
tapar o que não se quer ver, odores, misérias,
varrer para debaixo de tapetes...

Sob os pés, corpos lavados,
muitos rostos burilados,
correm rios de lixo tapados...


José Rodrigues Dias, 2018-01-04

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A argola, o burro e o homem




A argola, o burro e o homem


Deixa-me à argola rija preso,
dócil pensa o burro cansado do homem,
mas ele é que é de se escapulir...

De pé, mirando põe-se a magicar,
lembrando cenas do dono e do passado,
que o homem é que não é de fiar...


José Rodrigues Dias, 2018-01-03

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

No primeiro dia de Janeiro





No primeiro dia de Janeiro


Olho este mundo
no primeiro dia de Janeiro
do cimo ao fundo...

Em concha de terra    
uma manta de água pintada de nuvens
vagueando pelo céu...

Olho mãos do homem
em barragem segurando as regas das colheitas
que rápidas se somem...

Olho as teias de fanatismos tecidas,
oh!, bela a teia aqui de uma aranha à luz do Sol!,
que tanto ensombrecem tantas vidas...

E olho os musgos do tempo,
olho coisas, muitas coisas que pouco entendo,
e olho na terra o entardecer... 


José Rodrigues Dias, 2018-01-02

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Da fogueira à Paz




Da fogueira à Paz


Ardem toros grossos, trapos secos, no chão da praça:
aquecem-se os corpos do frio na noite de fim de ano,
lavam-se os espíritos no fogo que purifica da desgraça...

Talvez ritual antigo de iniciação,
transição de ano, do velho para o novo,
a esperança enchendo o coração...

Imaculada se refaz
hoje de novo, aqui,
essa palavra da Paz...


José Rodrigues Dias, 2018-01-01