sábado, 14 de janeiro de 2012

O sentido da morte



O sentido da morte

Estou, de novo, a pensar no sentido da morte, Steve.
A morte, dizias, seria a maior invenção da vida!
Quem diria, Steve?! Só mesmo tu! …
Mas talvez eu preferisse inverter os papéis!
Pois, então, não é a vida a maior invenção da morte,
Saída de um panelão de uma cozinha enorme iluminada,
Os ingredientes todos juntos e preparados pelo tempo,
E, depois, depois apenas uma simples erupção,
Como num simples interruptor de zero para um?! …
Tu, que pensaste nisso,
Que dirias, Steve?

Mas talvez tenhas mesmo razão!
A vida, a vida de cada um de nós,
Só tem sentido e um valor como outro valor não há
Porque a morte lhe sucede num dia incerto,
Ou a vida em outro estado de vida,
Isso não sei, Steve!
Estou a pensar …
Se a vida fosse eterna,
Se a vida, genialmente,
Não tivesse criado a sua própria morte,
Que encanto teria o dia seguinte,
E aquele petisco de fim de tarde,
E aquele luar dos namorados,
Se haveria sempre um dia seguinte?
E o prazer e a pressa de fazer,
De não adiar para amanhã o dia de hoje,
Esse stress bom,
Por amanhã poder um dia certo já não ser …
Talvez tenhas mesmo razão, Steve!

E o beijo, então, a que saberia?
E haveria mesmo o beijo?
Talvez não, Steve! …

Nem vida haveria! …

José Rodrigues Dias, 2011-10-07

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Começo


Universidade de Évora


Hoje,
simbolicamente,
10 de Novembro de 2011,
3 dúzias de anos depois da minha primeira aula!


Começo


Ontem. 10 de Novembro de 1975.
Primeira aula do Instituto Universitário de Évora.
Espírito Santo.
Matemática I. 3 assistentes.
Trevas e Luz.
Mangas arregaçadas.
Força, catedráticos-assistentes!
Cursos delineados, programas feitos,
Aulas dadas; outro trabalho.
Trabalho infantil.
Caboucos abertos, paredes levantadas,
Templos construídos. Em construção.
Caminho trilhado caminhando.
Aprendendo e ensinando. Investigando.
Doutoramentos de vez em quando. Cá e lá.
Mais lá do que cá.
Olhos cansados de tanto levantar,
De tanto andar.
Terá valido a pena?
Mais alunos, docentes e funcionários.
Cursos e mais cursos.
Edifícios e mais edifícios.
Outros e outros mais.
Tanto e tão pouco!
Princípios, Valores, Homens e Mulheres!
Provas, concursos e júris.
Transparência, igualdade e isenção. Talvez. Talvez...
Relatividade, Einstein. 100 anos. Ele sabe.
O politicamente correcto e o mexilhão.
A fogueira. Galileu Galilei.
A inveja, o punhal e o medo de existir.
Gil, filósofo.
Aperto de mão. O sinal do toque.
Paz, Tolstoi. Paris.
Alentejo. Beleza, lonjura e Poesia.
Terra, Terra-Mãe, mãe de Vida.
Levantado do chão. Sem Pão. Carne e ossos.
Ossos, não!
A Luz nas letras. Guerra Junqueiro.
A Sabedoria na Palavra encontrada. O “paper”.
Pátria. Pessoa e Camões. Contradições.
O papel do “paper”. Que papel o do giz?
Mestre Pitágoras. A Música e o triângulo: Números
em harmonia.
Anastácio da Cunha; desterrado.
Cátedra de Geometria.
Esperança solidária, fraterna. Tu e eu.
O Sonho, numa flor de Abril,
Nos olhos de uma criança.
Futuro de Sonho.
Livre como o vento,
Desfraldando a Palavra.
Palavra de Homem.
Palavra de Honra!
Hoje, 10 de Novembro de 2005.
30 anos.
Universidade de Évora.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.