quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O que será do seu cão...


Foto: Pedro Leal Gonçalves


O que será do seu cão...


Quando idoso se for
o que será do seu cão,
onde chorará sua dor
aquele cão seu irmão?

Que casa o acolherá,
que carro o matará?

Quem os dois juntará,
a mesma sepultura
quem depois lha dará?


José Rodrigues Dias, 2014-10-29

domingo, 26 de outubro de 2014

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A rede e o mar


"A rede e o mar"

Foto de Aragão Humberto, fotógrafo amador brasileiro premiado internacionalmente, Pai do Professor Humberto de Aragão (São Paulo).
Pode ser vista no site:





A rede e o mar


Não é peixe tudo que vem à rede
mas peixe à rede vem e se enleia,
nem poema é tudo quanto se leia
como por aqui se pode ver, vede!

Se a fome a casa ronda e a gente,
conserta o barco, faz tu um barco,
tece a rede, olha, vê que se sente
um ser ser livre, expoente, marco!

Põe a rede no barco, barco no mar,
no mar a rede, espera a meditar,
de versos uma rede cheia se fará,

de peixes teus a fome se matará
dentro de tua casa, dentro de ti,
sem mais choro e ainda se sorri!


José Rodrigues Dias, 2014-10-22

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Mulher da noite




Mulher da noite


A cidade passa indiferente por ti,
És agora mais uma no corredor frio da noite,
Às vezes já do próprio dia na incerteza de cada noite,
E homens de olhar perdido no andar cinzento
Tomam-te como se tomassem um castelo,
Mas não é a ti que tomam os homens…
Eu sei que tu apagas a luz, a tua luz,
E escondes o coração na penumbra do leito
E assim o teu castelo fica a salvo,
Que isso a vida logo to ensinou…
Aliás, nem serão homens
Os que te tomam,
Serão apenas corpos, pedaços de corpos
Que no teu corpo entre gemidos e talvez risos,
Ou talvez choros,
(Choros que tu, 
Acendendo a luz por momentos,
Sossegas então em colo e peito de mulher),
Os que te tomam serão, digo eu, 
Os que querem esconder-se
Dos infortúnios dos combates dos homens
Na transitória ilusão de vitória…

Depois, mulher da noite,
Depois tu voltas a acender a luz
E já não és corpo, serás filha, serás mãe,
És mulher entre gente talvez vendida da cidade…
  

José Rodrigues Dias, Entre o Sono e o Sonho, Antologia de Poesia Contemporânea, vol. III, p. 275, Chiado Editora, 2012.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Saramago




Saramago


No dia seguinte ninguém morreu, disseste,
Livro abrindo;
Morte em intermitência…
Hoje, disseram que morreste,
Notícias abrindo;
Morte em permanência…

Agora, José, que morreste,
(Morreste?)
Que outro mar passaste,
Como que a caminho de outra Lanzarote,
Diz, José, há vida em morte
Como há morte em vida sem sorte?
Ou sem norte?
Há intermitências de vida em morte?
Há dor e amor?
Há Criador?

Morto vivo, renasceste depois de morto.
Hoje, morto?
Morto, manter-te-ás vivo, morto!


J. Rodrigues Dias, Poiesis, Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XIX,  Editorial Minerva, 2010. 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Cerimónia de Entrega do Prémio Vergílio Ferreira 2014


Professora Ofélia Paiva Monteiro


Cerimónia de Entrega do Prémio Vergílio Ferreira 2014


Na próxima segunda-feira, dia 3 de março, pelas 15 horas, tem lugar na Sala dos Atos da Universidade de Évora, no Colégio do Espírito Santo, a cerimónia de entrega do Prémio Vergílio Ferreira. Este ano o galardão distingue Ofélia Paiva Monteiro, Professora Catedrática aposentada de Literaturas Francesa e Portuguesa da Universidade de Coimbra.

O júri decidiu atribuir o prémio a Ofélia Paiva Monteiro pelo seu “perfil de grande investigadora e de autora que brilha pela profundidade e subtileza especulativa na sua vasta obra ensaística, que incide particularmente em Almeida Garrett, mas também em outros autores marcantes da literatura portuguesa.”

O Prémio Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora em 1997, destina-se a galardoar anualmente o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa relevante no âmbito da narrativa e/ou ensaio. Um prémio que pretende homenagear o escritor de “Aparição”, que entre 1945 e 1958 lecionou no Liceu de Évora, período da sua vida que acabaria por influenciar a sua obra


Galardoados com o Prémio Vergílio Ferreira

Maria Velho da Costa (1997); Maria Judite de Carvalho (1998); Mia Couto (1999); Almeida Faria (2000); Eduardo Lourenço (2001): Óscar Lopes (2002); Manuel de Aguiar e Silva (2003); Agustina Bessa-Luís (2004); Manuel Gusmão (2005); Fernando Guimarães (2006); Vasco Graça Moura (2007); Mário Cláudio (2008); Mário de Carvalho (2009); Luísa Dacosta (2010); Maria Alzira Seixo (2011); José Gil (2012); Hélia Correia (2013).

Fonte: UELINE

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Prémio internacional




Prémio internacional

(na área do Controlo de Qualidade e da Fiabilidade)


Emerald Literati Network

2010 Awards for Excellence


Um dos três melhores "papers" publicados a nível mundial, em 2009, pela revista 

International Journal of Quality & Reliability Management.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Prémio Vergílio Ferreira, 2014


Professora Ofélia Paiva Monteiro.


O Prémio Vergílio Ferreira 2014 
foi atribuído a 
Ofélia Paiva Monteiro. 


Este galardão incide sobre o conjunto da obra de um autor que se tenha distinguido nos domínios da ficção ou do ensaio.

O júri decidiu atribuir o prémio pelo “perfil de grande investigadora e de autora que brilha pela profundidade e subtileza especulativa na sua vasta obra ensaística, que incide particularmente em Almeida Garrett, mas também em outros autores marcantes da literatura portuguesa.”

Ofélia Paiva Monteiro é Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde formou várias gerações de estudantes. A entrega do Prémio, realiza-se este ano a 3 de março, pelas 15 horas, na Sala dos Atos da Universidade de Évora (Colégio do Espírito Santo).


Instituído pela Universidade de Évora em 1997, o prémio Vergílio Ferreira foi atribuído pela primeira vez a Maria Velho da Costa, a que se seguiram, entre outros, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa Luís, Vasco Graça Moura, Mário Cláudio, Luísa Dacosta, José Gil e Hélia Correia.


Fonte: UELine, aqui.


Muitos parabéns à senhora Professora Ofélia Paiva Monteiro.


José Rodrigues Dias, 2014-02-13

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Capitães da Areia, este é o meu livro!



Nota prévia: 

A Profª Sara Marques Pereira, Directora da Biblioteca Geral da Universidade de Évora, lançou-me o desafio de iniciar a rubrica "O meu livro" do Boletim da Biblioteca. Tendo aceitado, escolhi "Capitães da Areia", de Jorge Amado. Foi este texto publicado em Outubro, 2013, para além do poema "Dora, capitã da areia", que amanhã será publicado aqui no blog, podendo ser visto aqui, pp 66-70, neste endereço

http://issuu.com/bgue/docs/boletim_outubro_issuu




Capitães da Areia, este é o meu livro!


Capitães da Areia, de Jorge Amado, publicado em 1937, aos 25 anos, logo preso, logo queimado o livro em praça pública…
Assim era, então, a Liberdade…
Como poderia eu, depois, dizer não à Liberdade?!
Sim, o teu nome é Liberdade!

Uma nota prévia sobre os Capitães da Areia no meu contexto histórico: No ano de 1969 concluía, em Coimbra, o ensino secundário (tendo sido, então, premiado pelos resultados obtidos) e entrava para Engenharia. Foi ano, ainda eu no Liceu, de greves académicas, incluindo a exames, dos estudantes universitários. Em 1971, lá para Outubro, ia para o Técnico, em Lisboa, onde concluía o curso em Março de 1975, depois de um semestre ter sido anulado, fechada a escola, fechada também a cantina. Que tempos!... Tempos esses que foram de fortes movimentações e greves estudantis, e morte, com a repressão solta e a liberdade presa, tanto quanto o podem ser. Em Março de 1972, lia As Mãos Sujas, de Sarte, livro que conservo ainda com a capa coberta com o papel da livraria, na Avenida de Roma, que eram muitos os olhos e os olhares indesejados. Abril nascia em 1974, no dia 25, de tempo feito, embora a ferros suaves em forma de cravo e depois de ameaças de parto. No verão de 1975, por concurso, vinha para a Universidade de Évora (então, Instituto Universitário de Évora, tendo dado a sua primeira aula, de Matemática, em 10 de Novembro, em conjunto com os Colegas Mercês de Mello e Carlos Braumann), depois de ter passado, poucos meses, por Charleroi, na Bélgica, em estágio de micro electrónica aeroespacial.

Capitães da Areia que li por volta dos dezoito anos, por certo em 1969, talvez em Coimbra em livro meu (por onde andarás que não te encontro?...), ou talvez em livro de uma biblioteca itinerante da Gulbenkian num desses verões em Talhas, terra quente do nordeste transmontano amaciada ali pela leitura refrescante dos clássicos.
Muito obrigado, aqui de novo o digo, aos que me deram letras e livros.
Muito obrigado, Pais, Professores, a ti também, Gulbenkian!

Capitães da Areia em ondas de miséria lavadas na luz das estrelas e nas ondas do mar, voando depois pelas traduções, pelos países, pela rádio, pela televisão, pelo cinema também de uma neta de Jorge Amado (aquando do centenário do seu nascimento).

Capitães da Areia feitos de garotos sós sem lar, poetas da rua abandonados, vadios, perdidos, na rua encontrados à procura da sobrevivência solidariamente entre eles repartida, fraternalmente, malandros por tudo e por nada e acima de tudo por necessidade e defesa, em sociedade organizada com regras e chefes num trapiche abandonado, velho barracão de praia, livres com a mão de um Padre quase rebelde gostando deles, querendo-os Homens.

Capitães da Areia de que nasceram no seu próprio tempo, para além dos outros, os outros um dia em si mesmos encontrados ou para sempre perdidos, um Artista (que nasceu do Professor, que roubava livros para ler e que os partilhava com os que não sabiam ler, só ele o sabia fazer…), nasceu um crente profundo (do Pirulito ele nasceu, ajudante do Padre José Pedro em terra distante) e nasceu também um líder, político, sindicalista, revolucionário (que nasceu do Pedro Bala, loiro, chefe dos Capitães, que soube ser filho de um Loiro sindicalista em greve assassinado, namorado de Dora, seu esposo na última noite e logo pela manhã seu viúvo, que raio de vida…). E, assim, Jorge Amado coloca aqui, entre outros, três pilares essenciais (digo eu: a sabedoria, conhecimento, cultura, criação; o sagrado, interior, reflexivo, guardião do templo; e o profano, política, transformação, sociedade) entre si ligados no que é o Homem inteiro, pilares aqui nascidos dos meninos e neles cimentados, meninos filhos dos homens que nunca foram meninos, como diria Soeiro Pereira Gomes na dedicatória dos seus Esteiros, que comprei e li aos dezanove anos, na primavera de 1971 (conforme escrevi então nesse livro de bolso), navegando por águas do mesmo mar de Jorge Amado.

É difícil dizer, entre tantos e tantos livros marcantes cedo lidos, este, este é o livro!
Capitães da Areia, este é o meu livro!
Obrigado, Jorge Amado, que nunca foste Prémio Nobel!


José Rodrigues Dias (Professor Emérito), 
Évora, 2013-07-03


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Natália, a memória


Natália Correia. Faria hoje 90 anos. 


Natália, a memória


A memória de uma farta rebeldia
no olhar negro e no gesto largo
e na boquilha longa
e na palavra solta
e no tempo todo
que a todos provocou,
nem presa nem desprendida
em cada paixão desmedida
só vencida pelo coração
na madrugada de um dia
em que cedo a calou…


José Rodrigues Dias, 2013-09-13