sexta-feira, 17 de abril de 2015

Pôr-do-sol



Pôr-do-sol


Se o Sol fosse a medida de todas as coisas,
Como um ser nada seria o homem na praia em pôr-do-sol…
Como o Sol diria que a mulher seria igual ao homem
E igual seria a criança brincando na praia aos relógios de Sol…
Se o Sol os três diferentes olhasse, como ele assim escolheria
A criança brincando pura ao Sol sem o pensar em sombra…

Mas não!
O homem diz-se a medida de todas as coisas…
Das coisas que são, enquanto são,
Das coisas que não são, enquanto não são…

E há homens, pequeninos homens, inebriados que estão
Por um simples raiar dourado efémero do Sol,
Que pensam que são uma medida maior
Que a medida dos outros homens…
Oh Sol, que pequeninos homens que eles são
Assim em ser nada ao te ver assim neste pôr-do-sol…


José Rodrigues Dias, Poiesis, Antologia de Poesia e Prosa Poética Contemporânea, vol. XIX, Editorial Minerva, 2010.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

União



União


O silêncio profundo,
Purificado pelo saber do tempo
Desde o início do mundo,
É realçado pelo respirar contido das almas.
As palavras simples e tão densas,
Calmas, muito calmas,
São amplificadas por aquele silêncio,
Um silêncio límpido de culto
Como o de um imponente templo,
Como o templo do rei Salomão.
As mãos que se apertam
Na sua absoluta nudez
Com uma força suave
Estão puras, sem sinal nem sombra de mal.
Do centro, onde os três pilares alumiam,
Irradia a verdadeira luz do mistério! … 


José Rodrigues Dias, 2011-06-25



IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, 2011, pag. 280.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Primavera triste



Primavera triste



A primavera chegou sem esperança trazer.
O fogo do desespero consome campos e fábricas,
Consome sociedades e nações,
Consome continentes,
Consome corações.
As falsificações aumentam
E aumentam as corrupções.
Punições, nada!
Que justiça, Senhor?!

Os despedimentos explodem
E matam as fomes.
Como é possível tudo isto acontecer
Sem nada se fazer?
Pergunto-me, sem resposta ter:
Como deixaram eles a tudo isto chegar,
Sem nada prever,
Sem nada vislumbrar,
Sem nada dizer,
Para cada um se precaver?

Ouso, contudo, responder-me
Que eles sabiam,
Eles sabiam,
Que eles pelo menos pressentiam,
Pois tinham que antever,
Que isso teria que ser seu dever e saber.
Infelizmente, nada:
Nem ver, nem dever, nem saber…
Nada!

Ouso ainda pensar
Que no seu conhecer,
Ou no seu pressentir,
Nada quiseram fazer
A não ser para o lado olhar
E a outros deixar o agir. 

A outros, iguais,
Sem agir,
Ou a fingir,
Para o lado olhar,
A assobiar,
A fortunas ganhar!

Que triste esta primavera,
Sem esperança trazer,
Com sonhos feitos a desfazer,
Ou sem sonhos poder ter,
As gentes tristes a sofrer,
Os corações a sangrar,
Sem responsáveis castigar,
Sem justiça haver nem ter!

Este é o mundo!
Talvez o mundo a merecer
Sem primavera de esperança haver…


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Descobrir



Descobrir


Mestre,
Ideias novas não surgem,
Apesar de tanto pensar!

Apesar de tanto pensar,
Ideias não emergem,
Mestre!

Olho de um e de outro lado,
Como me tens tanto ensinado,
Olho o caminho já caminhado,
E nada, nada de novo vislumbrado!

Que problema, mestre!

Estou cansado, olhos sem ver, enraivecido,
Quase tudo me parecendo ter esquecido;
Mas lembro-me de ti a dizer
Que solução há-de haver!

Dizes-me que talvez este ainda não seja
O tempo para o meu fruto colher,
Por tempo ainda o fruto não ter
Para, naturalmente, amadurecer.
Dizes-me ainda que tranquilo esteja
E a reflexão ao sol deixe a aquecer.

Olhos semi-cerrados,
Abertos e fechados,
Vendo sem ter de ver,
Por profundo saber,
Em sábio gesto de mundo abarcar
Dizes-me ainda para descansar e olhar!

Olha!

Olha a borboleta lá fora,
A chamar-te,
A voar na primavera,
Voando de flor em flor,
Em hino ao amor.

Olha,
Faz isso, vai com ela,
Procura a luz,
Olha o céu,
Voa, voa, voa,...
E volta,
Tranquilo!

Volta então à tua reflexão.
Fixa bem os pressupostos,
Define bem os objectivos
E parte, decidido, a caminhar,
À procura da certa solução
Que decerto vais encontrar.

Minimiza o duro caminho,
Que é duro o caminho
E, quantas vezes, difuso,
Em nevoeiro escondido.

Chora quando tiveres que chorar!

Vê os desvios do caminho,
Assinala-os com raminhos de acácia
Mas não te desvies do traçado primordial.

Talvez a eles possas voltar mais tarde,
Quem sabe se para muita sede
Poderes então saciar em inesperadas fontes
Que neles poderás então encontrar,
Para novas lágrimas poderes chorar!

Mas não te deixes agora inebriar.
Olha os pressupostos e os objectivos;
Olha apenas o caminho principal,
O caminho principal!

Ao caminhar,
Faz como o vedor,
Mesmo que nele não acredites;
Sente os sinais,
Mesmo que sinais
Não te pareça encontrar.

Há sempre sinais!

Vai caminhando,
Pára de vez em quando,
Refresca a mente,
De lágrimas eventualmente,
E sente!

Há sempre sinais!

Sente o pulsar do coração 
E o pular do pensamento!

Caminha e sente,
Que há sempre sinais!

Há sempre sinais!

....

Sim, mestre,
Estou a sentir,
A ver afloramentos,
A fazer acontecimentos,
A descobrir!

Obrigado,
Mestre!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Sábio



Sábio


Aqui chegado,
Sábio deves ser,
Sábio tens que ser,
Que são muitas as batalhas
E as batalhas deixam muito saber,
Também muito sofrer,
Que é amargo, bem amargo
O sabor de certo saber.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010, p.17.

domingo, 12 de abril de 2015

Aprendiz, devagar



Aprendiz, devagar


Aprendiz, devagar,
pelo teu caminho parte,
a sul hás-de chegar…


José Rodrigues Dias, 2015-03-17

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Vida


Vida



Nasci de uma gota como um rio
Vindo do interior sagrado da vida.
Gota a gota, pelos mistérios,
Fiz-me garoto como ribeiro cristalino
Cantarolando nas pedras do caminho.
Pedra a pedra, fiz-me homem
Como um rio digno de ser rio.
À volta, ao sol, a imensidão da terra;
Em noites de lua cheia, o céu, suspenso,
Contido na quase quietude das águas…

Rio pleno a falar com o infinito do mar,
Onde vai morrer e outra vida nascer!


José Rodrigues Dias, Évora, 2011-06-15, 

IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, 2011.


(Seleccionado em 

www.patriciatenorio.com.br, aqui)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Futuro largo



Futuro largo


Em tuas mãos ousadas
o desenho de um futuro largo
com palavras pausadas…


José Rodrigues Dias, 2015-03-17

sábado, 21 de março de 2015

Estes tempos de Primavera




Estes tempos de Primavera


Talvez vejas pouco pela tua idade
ou talvez sejas um desempregado
no campo ou em qualquer cidade...

Eu, ainda vendo, os tempos sigo,
mas quase já não me apetecendo
por ver coisas como as vou vendo.
Por isso, como sinto, assim digo:

Tudo se vai enchendo de um vazio,
uma sombra  se vê por todo o lado,
em cada olhar mais sentido o frio...

Querer ser um optimista, louco,
sorrindo ele contente a imaginar
a nova Primavera a desabrochar,
sendo muito, talvez fosse pouco…


José Rodrigues Dias, 2015-03-21

segunda-feira, 9 de março de 2015

Palavras gastas



Palavras gastas


Das palavras restou
sapato gasto sem valor,
sombra, o que ficou!


José Rodrigues Dias, 2015-03-09