terça-feira, 21 de abril de 2015

Liberdade



Liberdade



Não és livre!
Não és!
Prendem-te!

Como é difícil a sadia e livre ousadia,
Por ser tomada por perigosa heresia,
Por maior que seja a tua sinceridade
No criticar de uma podre hipocrisia!

Como é difícil o exercer da liberdade
E fácil ser a cinzenta e oculta cobardia
Na apatia de não se ser livre em cada dia!

Não, sou livre!
Sou!
Desprendo-me!

Penso livre
No livre pensamento!

Sim, sou livre!
Sou!
Sou livre!


Sou Liberdade! 
                

José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.
                  

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sonho



Sonho


Amanhã talvez mudes, Amiga!
Mas hoje não deixes que te mudem,
Que te mudem o sonho em Abril florido…
O sonho que agora sonhas inebriada
Como em sono de menina quase acordada…
Não, não deixes!
Sonha, sonha, sonha… Sempre!

Enquanto o mundo te deixar,
Fica assim o tempo que puderes a sonhar
E alimenta assim a alavanca de sonho meu
Mesmo sendo de tons diferentes do teu…
Quando para outro lado do sonho passares,
Se passares, ou se te passarem,
Se por outros caminhos então andares,
Imagino que sentirás pena deste teu sonho ter acabado,
Se em ti o belo e o puro tiverem tristemente em deserto secado…

Sim, Amiga, é provável que também em ti
Este sonho acabe, que se esfume em nada,
Ou em quase nada…
Só tu, então, o saberás!

Precavida, guarda sempre uma réstia do teu sonho,
Da tua aurora que dela te irás recordar
Em madrugada de frio acordada…
Guarda bem uma réstia dessa luz,
Em teu secreto tesouro, só teu,
Um raio só que dessa luz seja,
Desta tua aurora em tons de sol a chegar…
Ficará como um teu porto ainda de partidas
Mesmo que só já de sombrios sonhos em estreitas
Caminhadas em águas já poluídas e agitadas…

Sabes, Amiga, não haverá tempo belo como o do
Sonho jovem e puro acordado a pensar tudo mudar,
Mesmo nada mudando,
Mudando o mundo…

Olha, Amiga, é ainda hoje
A luz dos meus sonhos que me vai encaminhando…

Sonha, Amiga…


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 104 pp, 2011.

domingo, 19 de abril de 2015

Cardos



Cardos



Rosas não são, senhor!
São cardos,
Que são pardos
Estes tempos de penhor.



José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

sábado, 18 de abril de 2015

Sagres



Sagres


Naquela ponta de Sagres, a ocidente,
Tão pequenino, embrenhado no sagrado,
Olhando o Astro a entrar naquele profundo mar,
Como poderia o Homem imaginar a Terra a rodar
À volta do Sol, se ele ali o via, deslumbrado, soterrado,
A entrar no mar da Terra e no outro dia, do outro lado,
De novo o via em amarelo a desabrochar a oriente?...

Quem tal não diria, ali, naquele poente,
Ali, naquele místico pôr-do-sol, em queda milenar,
Que outra coisa, Galileu, qualquer outro movimento,
Não seria uma louca e perigosa heresia? …

Então, qualquer um, lúcido, em paz profunda, ali não via
O que toda aquela santa gente ali sentia,
O que tão simples e puro ali acontecia?...

Só não compreenderia um louco…
Louca a Terra…
Terra louca,
Que a Terra roda
Quando roda a cabeça de um louco…


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Pôr-do-sol



Pôr-do-sol


Se o Sol fosse a medida de todas as coisas,
Como um ser nada seria o homem na praia em pôr-do-sol…
Como o Sol diria que a mulher seria igual ao homem
E igual seria a criança brincando na praia aos relógios de Sol…
Se o Sol os três diferentes olhasse, como ele assim escolheria
A criança brincando pura ao Sol sem o pensar em sombra…

Mas não!
O homem diz-se a medida de todas as coisas…
Das coisas que são, enquanto são,
Das coisas que não são, enquanto não são…

E há homens, pequeninos homens, inebriados que estão
Por um simples raiar dourado efémero do Sol,
Que pensam que são uma medida maior
Que a medida dos outros homens…
Oh Sol, que pequeninos homens que eles são
Assim em ser nada ao te ver assim neste pôr-do-sol…


José Rodrigues Dias, Poiesis, Antologia de Poesia e Prosa Poética Contemporânea, vol. XIX, Editorial Minerva, 2010.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

União



União


O silêncio profundo,
Purificado pelo saber do tempo
Desde o início do mundo,
É realçado pelo respirar contido das almas.
As palavras simples e tão densas,
Calmas, muito calmas,
São amplificadas por aquele silêncio,
Um silêncio límpido de culto
Como o de um imponente templo,
Como o templo do rei Salomão.
As mãos que se apertam
Na sua absoluta nudez
Com uma força suave
Estão puras, sem sinal nem sombra de mal.
Do centro, onde os três pilares alumiam,
Irradia a verdadeira luz do mistério! … 


José Rodrigues Dias, 2011-06-25



IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, 2011, pag. 280.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Primavera triste



Primavera triste



A primavera chegou sem esperança trazer.
O fogo do desespero consome campos e fábricas,
Consome sociedades e nações,
Consome continentes,
Consome corações.
As falsificações aumentam
E aumentam as corrupções.
Punições, nada!
Que justiça, Senhor?!

Os despedimentos explodem
E matam as fomes.
Como é possível tudo isto acontecer
Sem nada se fazer?
Pergunto-me, sem resposta ter:
Como deixaram eles a tudo isto chegar,
Sem nada prever,
Sem nada vislumbrar,
Sem nada dizer,
Para cada um se precaver?

Ouso, contudo, responder-me
Que eles sabiam,
Eles sabiam,
Que eles pelo menos pressentiam,
Pois tinham que antever,
Que isso teria que ser seu dever e saber.
Infelizmente, nada:
Nem ver, nem dever, nem saber…
Nada!

Ouso ainda pensar
Que no seu conhecer,
Ou no seu pressentir,
Nada quiseram fazer
A não ser para o lado olhar
E a outros deixar o agir. 

A outros, iguais,
Sem agir,
Ou a fingir,
Para o lado olhar,
A assobiar,
A fortunas ganhar!

Que triste esta primavera,
Sem esperança trazer,
Com sonhos feitos a desfazer,
Ou sem sonhos poder ter,
As gentes tristes a sofrer,
Os corações a sangrar,
Sem responsáveis castigar,
Sem justiça haver nem ter!

Este é o mundo!
Talvez o mundo a merecer
Sem primavera de esperança haver…


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Descobrir



Descobrir


Mestre,
Ideias novas não surgem,
Apesar de tanto pensar!

Apesar de tanto pensar,
Ideias não emergem,
Mestre!

Olho de um e de outro lado,
Como me tens tanto ensinado,
Olho o caminho já caminhado,
E nada, nada de novo vislumbrado!

Que problema, mestre!

Estou cansado, olhos sem ver, enraivecido,
Quase tudo me parecendo ter esquecido;
Mas lembro-me de ti a dizer
Que solução há-de haver!

Dizes-me que talvez este ainda não seja
O tempo para o meu fruto colher,
Por tempo ainda o fruto não ter
Para, naturalmente, amadurecer.
Dizes-me ainda que tranquilo esteja
E a reflexão ao sol deixe a aquecer.

Olhos semi-cerrados,
Abertos e fechados,
Vendo sem ter de ver,
Por profundo saber,
Em sábio gesto de mundo abarcar
Dizes-me ainda para descansar e olhar!

Olha!

Olha a borboleta lá fora,
A chamar-te,
A voar na primavera,
Voando de flor em flor,
Em hino ao amor.

Olha,
Faz isso, vai com ela,
Procura a luz,
Olha o céu,
Voa, voa, voa,...
E volta,
Tranquilo!

Volta então à tua reflexão.
Fixa bem os pressupostos,
Define bem os objectivos
E parte, decidido, a caminhar,
À procura da certa solução
Que decerto vais encontrar.

Minimiza o duro caminho,
Que é duro o caminho
E, quantas vezes, difuso,
Em nevoeiro escondido.

Chora quando tiveres que chorar!

Vê os desvios do caminho,
Assinala-os com raminhos de acácia
Mas não te desvies do traçado primordial.

Talvez a eles possas voltar mais tarde,
Quem sabe se para muita sede
Poderes então saciar em inesperadas fontes
Que neles poderás então encontrar,
Para novas lágrimas poderes chorar!

Mas não te deixes agora inebriar.
Olha os pressupostos e os objectivos;
Olha apenas o caminho principal,
O caminho principal!

Ao caminhar,
Faz como o vedor,
Mesmo que nele não acredites;
Sente os sinais,
Mesmo que sinais
Não te pareça encontrar.

Há sempre sinais!

Vai caminhando,
Pára de vez em quando,
Refresca a mente,
De lágrimas eventualmente,
E sente!

Há sempre sinais!

Sente o pulsar do coração 
E o pular do pensamento!

Caminha e sente,
Que há sempre sinais!

Há sempre sinais!

....

Sim, mestre,
Estou a sentir,
A ver afloramentos,
A fazer acontecimentos,
A descobrir!

Obrigado,
Mestre!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Sábio



Sábio


Aqui chegado,
Sábio deves ser,
Sábio tens que ser,
Que são muitas as batalhas
E as batalhas deixam muito saber,
Também muito sofrer,
Que é amargo, bem amargo
O sabor de certo saber.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010, p.17.

domingo, 12 de abril de 2015

Aprendiz, devagar



Aprendiz, devagar


Aprendiz, devagar,
pelo teu caminho parte,
a sul hás-de chegar…


José Rodrigues Dias, 2015-03-17