quinta-feira, 14 de maio de 2015

Cidade grande



Cidade grande


Cidade grande,
Com ondas de gentes
Empurradas para os limites,
Espumando desfeitas nos rochedos!

Empurradas para todos os limites…
Limites do espaço, da miséria, da vida,
Do tempo todo sem tempo nenhum livre…
Sem tempo mesmo para se amar serenamente…

E o monte, simples,
Na sua morada altaneira,
Asseada, varrida pelo vento,
Olhando e dormindo ao pé do céu,
Lá em cima, junto ao céu das estrelas,
Sobre a planície sempre sua companheira,
Meneando os seus cabelos longos de trigo,
Docemente aberta a amor genuíno
De amantes assim eternos,
Sem um queixume,
Livres e iguais,
Ternos…


José Rodrigues Dias, IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, p. 281, 2011.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Amor



Amor


À noite, em cada noite,
Olha a serenidade da luz da Lua,
Mesmo quando a Lua estiver escondida
Por nuvens voando livres ao vento solto,
Como que desafiando-te num jogo de esconde-esconde,
E sente o Amor.
Sente o Amor!
O amor de companheira,
Ou de livro aberto, de página escrita ou à espera de palavra,
Mesmo que palavra seja difícil de chegar e de encontrar,
Por ser palavra perdida…


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Vai como vento




Vai como vento


Vai como vento,
vai…,
tens tudo para voar,
vai…,
olha o Azul e a Palavra
com a mão e a razão,
leva cada momento,

o encanto se vai soltar
canto a canto
enquanto a vida saltar…

E de quem é o vento?
É meu…
Leva-me então com o teu vento
e encanta cada nosso momento…

Numa bola inteira vais descansar
e num neto vais continuar a voar! 


José Rodrigues Dias, 2015-05-11

sábado, 2 de maio de 2015

Tu, terra, Eva…


Tu, terra, Eva…


Eva ali nua
Saída da terra,
Do que fundo é,
Raiz que é…

É encosta, costela,
Árvore, fogo, ar, serra…
É Douro e Tua,
Meu selvagem Sabor,
É à terra amor…

Eva ali nua
Livre,
Um porquê de criança,
Livre o homem,
Adão…

Eva, vida, viva…

Sereia das águas,
Rumorejo das videiras,
Passarada às cerejas,
Olhos sem mágoas…

Eva é o que ali se deleita,
Beleza virgem
Que enfeita a pureza…


José Rodrigues Dias, Évora, 2012-05-22

Em A Terra de Duas Línguas II, Antologia de Autores Transmontanos, pp. 79-80, Coordenação: Ernesto Rodrigues - Amadeu Ferreira, Lema d´Origem, 2013.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Miguel



Miguel

(Ter trabalho é ter riqueza)


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Daninhas…


Daninhas…


De um lado para o outro
Escarifico a terra húmida
Da chuva que só agora veio,
Sempre vem o que tem que vir…,
Mesmo que tarde o homem diga,
Tardego o ano e o cultivo…

Revolvo a terra
Em desajeitados passos
De aprendiz,
Meio cruzados,
Perpendiculares deveriam ser,
Eficazes são pela perseverança...

Arranco as mil coloridas ervas,
Em mil pedacinhos as desfaço,
Quase a pensar as amaldiçoo,
Não, não sou pessoa de mal…,
Assim as enterro
Como cinzas,
Mortas…

Sempre renascem…


Évora, 2012-05-10

José Rodrigues Dias in A Terra de Duas Línguas II, Editora Lema d'Origem, pp 82-83, 2013.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O mundo na minha escola primária




O mundo na minha escola primária


Eu gostava muito da porta da minha escola primária: era de cantaria e redonda em cima. Era uma escola só para meninos; havia outra escola só para meninas. Havia muitos meninos e muitas meninas. Alguns andavam descalços. Não havia electricidade na terra e não havia televisão. Telefone havia. Lembro-me do telefone número 4. Havia poucos rádios e eram grandes, da gente rica. Trabalhavam a pilhas. Quando acabavam as pilhas ficavam sem saber as horas certas. Mas as horas eram todas boas. Eram as horas dadas pelo sol e pela lua, quando não havia névoas. Quando havia, ou quando chovia muito, que Deus a dava, não fazia diferença. Um dia nascia depois de outro dia e o mesmo acontecia com as noites. Eram sempre alternados. Também havia as horas dadas pela barriga. Essas eram as horas piores, com fome.

Notícias quase não havia em Talhas, nem era preciso. Quando alguém morria tocava o sino. Tocava de maneira diferente consoante o morto era homem ou era mulher. Se o morto era de outra terra, a notícia lá chegava e logo se espalhava.

Era assim o mundo. O mundo estava todinho ali na minha escola, no saber da senhora professora e no mapa dependurado por um fio numa parede da sala de aula ao pé do quadro. Um dia calhou cair com o ponteiro a forçar o Mondego a passar pela terra dos doutores. “Meninos, poucos podem ser doutores, mas têm que estudar todos muito para serem homens”, dizia a senhora professora, nós todos em silêncio. Também lá estava na parede um retrato. Era dum governador, que a gente ali na terra não conhecia bem, que a gente não precisava. Bastava o senhor regedor. As festas eram sempre no verão, o Natal era a seguir à consoada e a Páscoa o senhor Padre dizia, logo a seguir ao Domingo de Ramos. Os ramos eram raminhos de oliveira e era em latim a missa aos domingos e nos dias-santos. Ao entrar na igreja, os homens tiravam o chapéu dos domingos e dias-santos. Benziam-se à entrada com a água benta da pia. As mulheres ficavam na parte de trás da igreja.

Água era a das fontes, que era fresca mas pouca no verão, e não se podia gastar muita água para lavar as casas para a festa. E também ficava longe e os cântaros pesavam nos quadris. As necessidades eram feitas na loja dos animais e no campo, tudo muito natural. Era bom o campo, com vinhas e oliveiras. As pitas andavam em liberdade na rua. Quando era o tempo, havia os figos, as alfaces, os pepinos, os feijões, etc. Foi a minha professora que me ensinou a usar o “etc.”. Ensinava-nos muito coisa a senhora professora. Também tinha uma régua. A mão era certinha. Erros ninguém tinha.

Gostei muito da minha escola e da minha professora. Ensinou-me a ler, a contar e a escrever. As contas e os problemas eram muito difíceis. E ensinou-me também a aprender. Tive sorte com a minha escola e com a minha professora. Por acaso eram duas professoras. Gostei das duas. Lembro-me delas.

Um dia quis ter uma escola igual à minha. Hoje vendem as escolas.

Hoje já não há meninos nem meninas, mesmo todos juntos a brincar juntinhos aos crescidinhos. Nem escolas. Há outras réguas. Também não há gente. Há lixo. Dizem que é da cidade. Tanto campo que havia! Ah, lembro-me também que a senhora professora dizia que havia uma província toda planinha que era o celeiro de Portugal, cheiinha de trigo. Mas dizia a senhora professora também que lá havia fome. Isso eu nunca entendi bem. Mas ela sabia.

Parece que agora quase tudinho mudou. Do Portugal do mapa só vejo um risco grosso junto ao mar. Sem barcos. Ou com outros barcos. Desapareceu quase todinho. Deve ser da minha vista já cansada. É assim a vida.

Só vejo uma coisa que se mantém: o mundo, esse, continua dependurado por um fio. Por outro fio. Cairá?


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

terça-feira, 28 de abril de 2015

O casal



O casal


Nós somos o amor do tempo da idade do ferro,
Aqui no silêncio pleno em amor de casal arfando,
Aqui no escuro puro com os braços se abraçando,
Até este tempo de início de tempo de desenterro.

Nós somos os avós insuspeitos do amor de Inês
Que nunca o tempo, um qualquer tempo, desfez!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Metade de lágrima



Metade de lágrima


Comovido pela ternura da tua doce mensagem
E pela negrura de oposta imagem,
Ofereço-te como flor
Metade de uma lágrima
Meada de prazer e dor:
A metade sem sal,
A parte doce;
Só a metade sem sal,
Como se flor fosse!

Ofereço-te como flor
Essa metade toda com doçura;
Eu fico com a metade de toda a agrura!


J. Rodrigues Dias, Poiesis, vol. XIX, p. 78, Editorial Minerva, 2010.

domingo, 26 de abril de 2015

Acordar



Acordar

  
Deixaste o campo abandonado,
Onde bebeste do cálice da Vida
E comeste do Pão com amor semeado.
Deixaste a Luz do Sol, das estrelas, da Lua,
Com seus naturais encantos e mistérios
Em dias límpidos e noites de sonhos livres
Sem imaginar viver um dia sem o ar da liberdade.

Foste. Livre ou obrigado, foste!

Encontraste-te em cidade sem identidade, perdido,
Em cidade sem sítio onde começa nem acaba.
Procuraste, atarantado, o norte que não descortinaste.
No que te parecia ser o raiar de um novo dia,
Sem saberes por vezes se sonhavas ou deliravas,
Procuraste o nascer do Sol que não encontraste.


Cansado, prostrado, suado, ao fim de cada duro e longo dia,
Procuraste o pôr-do-sol que antes, tranquilo, tanto admiraste!
Agora, enraivecido, em nenhum dia o pôr-do-sol acontecia.
Aquele pôr-do-sol, com que o sonho ainda hoje te adormece,
No findar de cada dia, deleitado, jamais encontraste.
Encontraste espessos mantos sem saberes de quê,
Nem porquê, e que culpa tu tinhas, que mal praticaste,
Envolvendo-te o corpo, cobrindo o universo,
Enevoando-te o pensar do já perturbado pensamento.
Lembras-te, com intensidade ou apenas só vagamente,
Daquela luz tépida da noite, ora difusa ora intensa,
Em noite de luar, com sombras de nuvens vaporosas 
Viajando livres com o vento, soltas no doce luar.

Acorrentado, lembras-te livre em mundos transparentes,
Em noites claras de luar e de estrelas em campos sem findar.
Com suores, olhas a luz dos tiros rasgando noites sem luar
E estremeces no aclarar das noites pelo brutal incendiar.

É hora de acordar!
É a hora de voltar!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.