segunda-feira, 29 de junho de 2015

Tempos



Tempos


Avalanches de torpedos, de medos…
Avalanches de impostos, de desgostos…

Tempos passados, drogados…
Tempos de pios votados, de ímpios constatados…
Tempos de primavera floridos, de inverno frios sentidos…
Tempos idos de ter, vindos de perder…
Tempos de fartura aclamada, de negrura proclamada…
Tempos de sinais sentidos, de sentidos adormecidos…
Tempos de falências avisadas, de cabeças perturbadas …
Tempos de esperança sonhados, de desesperança amaldiçoados…
Tempos chegados, chorados…


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 104 pp, 2011, pág. 76.

domingo, 28 de junho de 2015

Fractal



Fractal


O mundo é um fractal, uma flor
Repetida em multicolores e fraternas flores.

Com estranhos atractores,
A borboleta e o passarinho
Continuarão a bater a asa, a voar,
Em qualquer lado, em qualquer lugar,
E tempestades incertas poderão rebentar
Em caos do outro lado do mar.

Com estranhos detractores,
O réptil e o passarão
Continuarão a bater o pé, a pisar,
Em qualquer lado, em qualquer lugar,
E tempestades certas irão rebentar
Em caos do outro lado de todo o mar…

Complicado este mundo de complexidade
Em dinâmica não linear de neo-liberdade…


José Rodrigues Dias, Traçados sobre nós, Chiado Editora, 2011.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Grécia


Grécia

A gente grita e se grita é de dor
e de revolta,
seja a revolta qual for
e a forma do grito
e a face da dor.

É dor viva e é viva a revolta
que a gente agora liberta em grito
ou que em silêncios soluçados tem envolta!
Eu aqui grito pelos homens de voz pisada
que cantaram em nascentes a sabedoria
e pelos rios e mares poesia
na palavra livre declamada
em democracia!


José Rodrigues Dias (2012-02-13),
in Tempo Mágico, Coletânea de Poesia e Texto Poético da Lusofonia
Sinapis Editores, 2015.

domingo, 14 de junho de 2015

Vida





Vida



Nasci de uma gota como um rio
Vindo do interior sagrado da vida.
Gota a gota, pelos mistérios,
Fiz-me garoto como ribeiro cristalino
Cantarolando nas pedras do caminho.
Pedra a pedra, fiz-me homem
Como um rio digno de ser rio.
À volta, ao sol, a imensidão da terra;
Em noites de lua cheia, o céu, suspenso,
Contido na quase quietude das águas…

Rio pleno a falar com o infinito do mar,
Onde vai morrer e outra vida nascer!


José Rodrigues Dias, Évora, 2011-06-15

in IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, 2011.

sábado, 6 de junho de 2015

Este silêncio que se desprende


Mosteiro da Batalha



Este silêncio que se desprende


Este silêncio que se desprende
da interioridade
de luz suave
em que se guarda o tempo...

O mistério devagar se apreende
da palavra 
que se trabalha...

Nos fala
este silêncio
nos cala!


José Rodrigues Dias, 2015-01-20

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Saramago



Saramago


No dia seguinte ninguém morreu, disseste,
Livro abrindo;
Morte em intermitência…
Hoje, disseram que morreste,
Notícias abrindo;
Morte em permanência…

Agora, José, que morreste,
(Morreste?)
Que outro mar passaste,
Como que a caminho de outra Lanzarote,
Diz, José, há vida em morte
Como há morte em vida sem sorte?
Ou sem norte?
Há intermitências de vida em morte?
Há dor e amor?
Há Criador?

Morto vivo, renasceste depois de morto.
Hoje, morto?
Morto, manter-te-ás vivo, morto!


J. Rodrigues Dias, Poiesis, Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XIX,  Editorial Minerva, 2010.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Fonte


Fonte gótica - Ourém


Fonte


Anda,
sobe os degraus
refresca nesta água as mãos
a face de sulcos salgados
molha os lábios secos

não digas nada…

Bebe um pouco
senta-te neste banco
limpo
feito de branco
polido…

Bebe um pouco mais
mais um pouco
sossega
não digas nada
o tempo tudo sara…


José Rodrigues Dias, in Tempo Mágico, Sinapis Editores, 2015.

domingo, 31 de maio de 2015

Margarida, distraída



Margarida, distraída


Um dia, precavida, disseste-me,
Por tão distraído dizeres o teu ser ser:
Se algum dia, passando, passar sem te falar
Estou passando, perdida, olhando, sem te olhar!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Servos


Servos



Conta-se que havia um senhor que tinha muitos servos e que nas suas terras havia trabalho e pão. Mas um dia começou o senhor a empobrecer. Ano após ano, cada vez mais pobre, não importa aqui como o senhor empobrecia, já não sabia o senhor o que fazer com os servos, que o tempo, conta-se, era de muita secura. Outros senhores davam-lhe conselhos, o senhor até os seguia, mas cada dia se via mais pobre… E o senhor, que diziam ser um homem de bem, já de longa idade, olhava, pensativo e triste, os seus servos na secura da terra. Que haveriam de comer, com tanta secura…

Os campos à volta eram já quase só de terra batida naquela aridez crescente, isso via bem o senhor, e os servos sem pão e sem trabalho da secura sofriam… Um dia, olhando os servos já quase espalmados, disseram certos senhores de fora ao senhor para cortar mais no pão dos seus servos, ele que já contrariado tinha antes cortado. Mas que haveria o senhor de fazer, ele que não tinha pão e que já só o recebia daqueles senhores de fora a quem já tanto agora devia…

Um dia, falando o senhor no seu jeito aos servos, já quase sem dignidade na postura, o senhor disse-lhes, com pena, é verdade, que ia cortar mais no pão. Que poderiam dizer os servos e ele se o pão era daqueles senhores de fora e os senhores assim queriam… E o senhor cortou, cortou mais, que tinha que assim cortar, dizia a si mesmo, olhando triste os servos, para a si mesmo se desculpar.

Entretanto, nas terras à volta, a secura dos tempos ia aumentando e os homens de fora que tinham o pão iam apertando o senhor que cada dia mais lhes devia.

E o pão do senhor aos servos foi assim diminuindo, o senhor mais pobre, mais triste, cada dia mais pobre, pior os servos, as dívidas do senhor maiores àqueles senhores de fora…

Um dia faltou ao senhor um servo. Homem bom, procurou-o. Encontrou-o morto.
Noutro dia, faltaram-lhe dois.
Depois, mais tarde, outros servos…
Há quem conte, sem se saber bem como, que os servos se revoltaram…
Mais tarde, conta-se, os senhores de fora encontraram o senhor morto e ficaram com o que sobrou…


José Rodrigues Dias, 2012-01-29

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sobreiros



Sobreiros


Gostaria que os homens fossem como os sobreiros,
Nas agruras resistentes, sempre sóbrios, em solos ardentes.
Gostaria que os homens ao quarto de século fossem jovens adultos
Como os sobreiros, com a cortiça virgem tirada dos troncos
Pela primeira vez descortiçados por mestres tiradores
Sem machados a cortarem as raízes e a seiva do crescimento.
Gostaria que os homens nos sobreiros, então, se olhassem
E no espelho do céu se repensassem no seu tronco nú,
Com a casca rugosa superficial tirada, reduzidos à sua essência,
À seiva que lhes dá a vida pelas raízes na secura da terra conquistada.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros,
Em nova etapa, com a força retemperada e, nove anos passados,
De novo descascados por hábeis mestres descortiçadores,
Com precisão no corte para de novo não os magoar no seu ser
Nem os ofender no essencial do seu viver e crescer.
Gostaria, então, que os homens olhassem de novo os sobreiros,
Maiores, continuando sóbrios no seu porte, verdadeiros,
E sentissem como leve continua a ser a cortiça secundeira
Que vento fraco matinal de quase aragem leva ligeira.
De tronco nú, gostaria que os homens neles de novo se mirassem
E em imagem de futuro com eles se reiniciassem
E de novo, em nova etapa, se fortificassem.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros
E que um dia, depois, nove anos depois, vissem como teria
Finalmente, então, qualidade a cortiça amadia.
E de novo em tronco nú, despojados da sua superficialidade,
Reduzidos à sua essência, em nova etapa iniciada,
Com mais porte e mais seiva, maiores, verdadeiros,
Gostaria que os homens olhassem agora os adultos sobreiros,
Imponentes, agarrados mais ao solo, ainda mais sóbrios.
Gostaria, assim, que os homens fossem como os sobreiros,
Crescendo, dando-se ao cuidar de mestres, aos outros se dando,
Olhando-se no espelho do céu, almejando o brilho das estrelas,
Libertando-se do superficial, o essencial preservando,
Como os sobreiros, imponentes no ser do tempo,
Olhando do seu alto a pequenez dos pequeninos chaparros
E o abocanhar sôfrego dos porquinhos.
Gostaria, então, que os homens fossem como os sobreiros
E que vissem como é até leve a cortiça amadia
Que um vento mais forte como colorido trapo superficial
Para um longe escuro leva para sempre,
Num qualquer dia!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011, pp 69-71.