quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O mundo na minha escola primária


Escola, Talhas. 


O mundo na minha escola primária


Eu gostava muito da porta da minha escola primária: era de cantaria e redonda em cima. Era uma escola só para meninos; havia outra escola só para meninas. Havia muitos meninos e muitas meninas. Alguns andavam descalços. Não havia electricidade na terra e não havia televisão. Telefone havia. Lembro-me do telefone número 4. Havia poucos rádios e eram grandes, da gente rica. Trabalhavam a pilhas. Quando acabavam as pilhas ficavam sem saber as horas certas. Mas as horas eram todas boas. Eram as horas dadas pelo sol e pela lua, quando não havia névoas. Quando havia, ou quando chovia muito, que Deus a dava, não fazia diferença. Um dia nascia depois de outro dia e o mesmo acontecia com as noites. Eram sempre alternados. Também havia as horas dadas pela barriga. Essas eram as horas piores, com fome.

Notícias quase não havia em Talhas, nem era preciso. Quando alguém morria tocava o sino. Tocava de maneira diferente consoante o morto era homem ou era mulher. Se o morto era de outra terra, a notícia lá chegava e logo se espalhava.

Era assim o mundo. O mundo estava todinho ali na minha escola, no saber da senhora professora e no mapa dependurado por um fio numa parede da sala de aula ao pé do quadro. Um dia calhou cair com o ponteiro a forçar o Mondego a passar pela terra dos doutores. “Meninos, poucos podem ser doutores, mas têm que estudar todos muito para serem homens”, dizia a senhora professora, nós todos em silêncio. Também lá estava na parede um retrato. Era dum governador, que a gente ali na terra não conhecia bem, que a gente não precisava. Bastava o senhor regedor. As festas eram sempre no verão, o Natal era a seguir à consoada e a Páscoa o senhor Padre dizia, logo a seguir ao Domingo de Ramos. Os ramos eram raminhos de oliveira e era em latim a missa aos domingos e nos dias-santos. Ao entrar na igreja, os homens tiravam o chapéu dos domingos e dias-santos. Benziam-se à entrada com a água benta da pia. As mulheres ficavam na parte de trás da igreja.

Água era a das fontes, que era fresca mas pouca no verão, e não se podia gastar muita água para lavar as casas para a festa. E também ficava longe e os cântaros pesavam nos quadris. As necessidades eram feitas na loja dos animais e no campo, tudo muito natural. Era bom o campo, com vinhas e oliveiras. As pitas andavam em liberdade na rua. Quando era o tempo, havia os figos, as alfaces, os pepinos, os feijões, etc. Foi a minha professora que me ensinou a usar o “etc.”. Ensinava-nos muita coisa a senhora professora. Também tinha uma régua. A mão era certinha. Erros ninguém tinha.

Gostei muito da minha escola e da minha professora. Ensinou-me a ler, a contar e a escrever. As contas e os problemas eram muito difíceis. E ensinou-me também a aprender. Tive sorte com a minha escola e com a minha professora. Por acaso eram duas professoras. Gostei das duas. Lembro-me delas.

Um dia quis ter uma escola igual à minha. Hoje vendem as escolas.

Hoje já não há meninos nem meninas, mesmo todos juntos a brincar juntinhos aos crescidinhos. Nem escolas. Há outras réguas. Também não há gente. Há lixo. Dizem que é da cidade. Tanto campo que havia! Ah, lembro-me também que a senhora professora dizia que havia uma província toda planinha que era o celeiro de Portugal, cheiinha de trigo. Mas dizia a senhora professora também que lá havia fome. Isso eu nunca entendi bem. Mas ela sabia.

Parece que agora quase tudinho mudou. Do Portugal do mapa só vejo um risco grosso junto ao mar. Sem barcos. Ou com outros barcos. Desapareceu quase todinho. Deve ser da minha vista já cansada. É assim a vida.

Só vejo uma coisa que se mantém: o mundo, esse, continua dependurado por um fio. Por outro fio. Cairá?


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

sábado, 19 de setembro de 2015

O colchão de ondas...


Setembro, 2015.


O colchão de ondas...


Pelo carreiro abaixo
o sol pelo mar adentro,
o colchão de ondas...


José Rodrigues Dias, 2015-9-19

domingo, 6 de setembro de 2015

De dentro da terra emergindo


Julho, 2015, Évora



De dentro da terra emergindo


De dentro da terra emergindo 
em paz, o caminho em luz,
mão na mão, amor os unindo...


José Rodrigues Dias, 2105-08-11

sábado, 18 de julho de 2015

Turbilhão


Julho, 2015



Turbilhão


Criaturas, gente, 
areia em turbilhão:
não é feia
nem negra
nem indolente,
é de sombras cheia,
quase tragédia grega,
triste ilusão...


José Rodrigues Dias, 2105-07-11

quinta-feira, 16 de julho de 2015

100.000 visitas ao blog...



100.000 visitas ao blog...


Ontem o blog atingiu as 100.000 visitas.
Há um contador no canto inferior esquerdo,
bem ao fundo, se quiser ver.
Começou em 10 de Novembro de 2011.

Com as características que tem,
sinto-me honrado.

Agradeço muito a(s) sua(s) visita(s) e a(s) leitura(s).


José Rodrigues Dias, 2015-07-16

terça-feira, 14 de julho de 2015

Pitágoras


Pitágoras, filósofo e matemático grego.


Pitágoras


Sobre o futuro incerto deste à beira-mar caminhar
Ando perguntando com atrevida insistência a Pitágoras,
Mestre em Geometria, em gnose, em cultivado silêncio,
O que se está passando com este luso tortuoso andar.

Vem-me respondendo com paciência de sábio,
Dizendo-me por sinais:
Ouvis pouco,
Entendeis menos,
Falais demais!

Com reverência, vou tentando argumentar:
Mestre, mas nós aprendemos, nós sabemos,
Olha, até o teu teorema do triângulo conhecemos;
Como não haveremos, então, de assim falar?

Sempre por sinais,
Sinto que me pergunta em silêncio:
Se tu não ouves,
Distraído e em tantos ruídos envolvido,
Como podes tu o profundo aprender,
Como podeis vós todos ter assim o conhecer,
Como podeis vós sem o verdadeiro saber,
E tão convencidos, tantos assim tanto falar?

Por sinais,
Sempre por sinais
Que alguns não consigo decifrar,
Diz-me para pouco falar,
Para muito o bem ouvir
E fundo outros sinais sentir.
Diz-me para trabalhar e trabalhar o pensar!

Continuo a ouvi-lo em silêncio,
A aprender, a pensar, a trabalhar…


José Rodrigues Dias, Traçados sobre nós, Chiado Editora, 2011.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Grécia


Ilha de Hydra, Grécia, 1990.


Grécia

A gente grita e se grita é de dor
e de revolta,
seja a revolta qual for
e a forma do grito
e a face da dor.

É dor viva e é viva a revolta
que a gente agora liberta em grito
ou que em silêncios soluçados tem envolta!
Eu aqui grito pelos homens de voz pisada
que cantaram em nascentes a sabedoria
e pelos rios e mares poesia
na palavra livre declamada
em democracia!


José Rodrigues Dias, in Tempo Mágico, Coletânea de Poesia e Texto Poético da Lusofonia
Sinapis Editores, 2015.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Ainda a Grécia (Wisdom for the problems of today)...







Ainda a Grécia 
(Wisdom for the problems of today)...

... e o congresso mundial da IFORS 
(International Federation of Operational Research Societies), 
aqui com a capa dos "Abstracts" e outros elementos da organização...

Atenas, Grécia, 25-29/06/1990.

Significativo, hoje, o tema do congresso:

Wisdom for the problems of today

Sagesse envers les problèmes actuels

Tive o privilégio de ser o Presidente (Chair)
de uma sessão sobre Fiabilidade (Reliability).

Na imagem a pág. 121 com os dois primeiros trabalhos dessa sessão...

Foi bom!

Gostei da Grécia.

Gostei dos gregos...


José Rodrigues Dias, 1015-07-03

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Lembrando a Grécia...


Em Atenas, Junho de 1990.


Lembrando a Grécia...


IFORS’ 90 – 12th Triennial Conference 
on Operations Research.

Congresso Mundial da
International Federation of Operational Research Societies

 Atenas, Grécia, 25-29/06/1990.

Presidente de Mesa 
de uma Sessão de Trabalho.


José Rodrigues Dias, 2015-07-02