quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Bosão de Higgs, a partícula de deus e do diabo



(A propósito de outro Prémio Nobel de Física, 2013)


Bosão de Higgs, a partícula de deus e do diabo



Tu, que és muito feminina,
quase mulher,
bela, altiva, fugidia,
o homem esbaforido atrás de ti
pelas montanhas alpinas escondida
em jogo de gato e rato
de enamorados,
enguia,

tu, assim muito feminina,
capa de revista,
a senhora do ano…,
partícula de deus
costela
feiticeira do homem,

buraco grande negro enorme
e aquele vácuo,
um vácuo em catástrofe 
do diabo,

um nada muito feminino
escondido
conferindo massa e volume e contornos
e talvez uma certa harmonia
ao coração e a tudo,
fugindo,

mas num dia de stress muito alto
talvez a instabilidade
e o colapso
no tempo e no espaço
do homem inteiro
perseguindo em todos os infinitos
o além,

como louco, loucamente,

por subtis veredas
de luz
e sombras

que ora são de salvação efémera
em noite de exaltação de mestre
ora de total destruição, perpétua,

de deus…,
oh partícula
do diabo!,

paixão do homem, 
maçã de Adão…

2014-09-10

José Rodrigues Dias,  Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 2016.
 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Vê, Tomé!... (Vê, Einstein!)



(A propósito do Prémio Nobel de Física, 2017)


Vê, Tomé!...
(Vê, Einstein!)


Entretecendo mil ideias,
tecendo o espaço e o tempo,
o tolo tudo concebendo...

Bastas ideias muito loucas,
postulados e outras coisas mais
como de gradientes e rotacionais,
orelhas um pouco moucas,

viajando de Newton para umas ondas gravitacionais
como as de uma criança atirando pedras a um lago
deslocando umas plumas leves dum pato sossegado,

mas em outras dimensões
e a coisa com outra dimensão,
buracos negros, buracões,

onde a luz se perto passasse
se dobrasse,
caísse
e adormecesse...,

só vendo, como Tomé
(Como?... A luz ali anoitecia?...),
eis a humana conclusão...

Antenas no espaço e no tempo
orientadas como dedos espetados
e eis as plumas em movimento!

Vê, Tomé!...


José Rodrigues Dias, 2016-02-12

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Caminho





Caminho


Na Filosofia,
Na Psicologia,
Na análise critica
Por Mestres cedo ensinada,
Bem assimilada,
Encontrei o prazer da reflexão,
O eu questionando:
Estando eu à janela,
Poderei eu observar
Na rua o eu a passar?
Foi por aí que comecei,
Divagando!

Foi por aí, pela interrogação,
Que jovem me iniciei.

Na Engenharia,
Na Matemática,
Na Informática,
Ao sol e com a lua
Estudando,
Encontrei velhos problemas
E deram-me sabidas soluções;
Depois, com deleite investigando,
Criticamente analisando
Velhos e novos problemas,
Novas soluções encontrei,
Mesmo soluções certas não existindo,
Apenas certas aproximações inferindo.

Foi por aqui que adulto continuei.
Com a Filosofia,
Com as Ciências,
Vivendo a vida,
O Ser intuindo,
É agora na Poesia
Que sinto encontrar,
Curiosamente,
Finalmente,
As perguntas sem resposta
Do Início e do Fim,
Do Mundo e da Vida
A iniciar e a findar,
As perguntas essenciais
Sem resposta receber,
Sem resposta fornecer,
Por não haver!
Eis os antigos Mistérios
Perenes a permanecer!

É na Poesia
Que as perguntas
Essenciais,
Simples,
Vitais,
Ficam sem resposta!

É na Poesia!

Ou talvez não seja:
Talvez a Poesia seja
A síntese sublime do Ser
De todas as perguntas
E de todas as respostas
De cada um ser e de se ser!
Talvez a Poesia
Seja
A síntese do Ser!

Este é o caminho!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Diz-me o caminho…




Diz-me o caminho… 


Estou perdido,
diz-me o caminho, por onde é,
não vês que estou tão perdido?!…
Ontem eu sabia onde estava,
para onde ia, o que me esperava,
os caminhos, os carreiros,
as luas,
conhecia os deuses…
Não vês, agora não sei o que aconteceu,
o que me adormeceu de ontem para hoje
que aqui estou tão perdido e só,
só com os perdidos como eu,

entre novos deuses que não sei quem são
e como assim da noite
sombrios e distantes vieram da escuridão…
Estou perdido, sem luz,
não vês?!…

Diz-me tu o caminho,
estou com medo, por onde devo ir,
por onde faça sentido…

2012-02-01


José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar
pp 170-171, Ed. Forinfor, 2016.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Árvores




(Hoje, a propósito do Dia Mundial da Conservação da Natureza).


Árvores


Estas são palavras escritas em folhas
De árvores que te pedi emprestadas,
Por novas serem ainda as árvores
Por mim plantadas.

Um dia, Poeta, a tua poesia verei
Em muitas folhas das árvores
Crescidas que te deixarei.

Então, ao ver-te,
Lá onde estiver,
Um doce sorriso sentirei
E em aragem de folhas
Em manhã primaveril
Te enviarei!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Miguel




Miguel

(Ter trabalho é ter riqueza)


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Lembrando o Beato Salu, o Luís


Luís

Lembrando o Beato Salu, o Luís
(que reencontrei há poucos dias)


Salut, Salu!


Não sei de onde vieste e por que deixaste
Os caminhos por onde novo e outro andaste,
Se outro diferente foste noutros idos dias!
Sei que em caminhos que em Évora alisaste
Comigo sempre a andar longe e perto te cruzaste
Com um sorrido e certo “Olá, senhor Dias”!

Não sei quando o nome eu to disse
Ou como o nome tu certo o soubeste!
Do teu, no teu andar longe e perto,
Nunca o nome tu mo disseste,
Nunca do teu apelido me falaste,
Sempre Salu ficou incerto.

Não sei de onde vieste e por que deixaste
Os caminhos por onde novo e outro andaste,
Se outro diferente foste noutros idos dias!
Sei que pelos apertados carreiros da vida 
Em que se caminha da decisão não partilhaste.
Sabedoria a tua, que desta vida tu já sabias
E outras, muitas outras, cabeças não!

Não sei de onde vieste
E se outro diferente foste.
Sei que vais ficar, que já ficaste
Nas pedras polidas desta Cidade
Junto das outras Pedras vivas já sem idade!

Salut, Salu!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

sábado, 15 de julho de 2017

Dalém e daquém-mar




Dalém e daquém-mar


Triste, fico a meditar,
chegam tristes as notícias
dalém e daquém-mar...

Que coisa esta,
que gente ainda somos,
que nos resta?!...

Em cada fala se fala de outra coisa,
chamas, armas sem tempo, vil o metal, inocentes, culpados,
tempo de uma coisa em cada loisa...

Que coisa,
que coisa resta?
Que coisa!


José Rodrigues Dias, 2017-07-13

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Xila


Imagem da Net.
A propósito da Revolução Francesa (hoje, 14 de Julho), 
do meu segundo livro.


Xila


Paris em Maio,
Revolução enfurecida levada impensada
De rua em praça e de praça em rua,
Tão dura e ingénua, tão pura e nua!

De andaime em andaime trepada, em bâtiment,
Mãe franzina, rija, exilada,
Mãe de criança em creche guardada,
Bandeira de sangue deixada no alto, posição bem marcada,
Bandeira por mãe franzina e rija em bâtiment içada,
Em Paris em Maio, bem no alto e bem desfraldada!

Com a terna criança em creche ao fundo,
A força imparável de novo futuro mundo
Em bandeira de sangue jorrado de esperança,
Em amanhecer em dia de fantasia e confiança!

Mares de multidões sempre a rugir,
Sem parar, sem pensar, sem ouvir,
Com marcas de selva de grupo a agir!

Companheiro sorvido em multidões em revoltados mares,
Quase só, sem quase em cama amar,
Com dispersos, loucos e gemidos amares,
Em andares com pouco dormir por muito andar,
Com pesadelos de tortura em mistura com sorriso liberto
De criança nascida de Homem Novo em outros doces ares!

Novos senhores do Mundo, em Maio, Companheiros sonhadores,
Estudantes que ensinam e trabalhadores que aprendem
Em Sorbonnes fechadas em Quartiers Latin em renascidas alvoradas.

Gritos em Nanterre, em bidonvilles, noutros, em outros lugares.

Marx, Lenine e Trotsky na ponta de línguas convictas,
Puras ou adulteradas, como armas usadas bem afiadas.

Em fuga de rua ou praça,
Pedras arrancadas em massa,
Rápidas balas arremessadas.

Organizações perdidas,
Desfeitas e refeitas ao sabor de cada revoltado mar,
Perdidas em ondas incontroladas,
Em movimentos de águas inesperadas,
Com controleiros e infiltrados desfeitos em nada,
Em cada onda de cada alterado mar!

Velhos sonhadores,
Companheiros,
Novos senhores,
Sonhadores!

Xila, voltavas?
Voltava, voltava!
Se voltava, Companheiros!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.