domingo, 3 de dezembro de 2017

A Lua, o Sol, tu e a chuva




A Lua, o Sol, tu e a chuva


Deita-se o Sol
a poente, a nascente 
ergue-se a Lua...

Lua de ventre tão cheio
que de enigmas se foi enchendo,
de mistério agora cheio...

De um ramo de uma antiga oliveira
onde com o tempo devagar vou subindo
pergunto-lhe quando traz ela chuva...

De encolher seus ombros,
dos mistérios o seu gesto imperceptível,
senti que nem ela sabia...

E, então, ela naquele enigma doce ali tão perto,
pergunto-lhe se o Sol, seu dual companheiro, saberia.
Diz-me, olhando, que já nem ele sabia ao certo...

Olhos nos olhos: Então, Lua!...
Responde ao meu rosto com o seu:
Olha-te, talvez seja culpa tua...


José Rodrigues Dias, 2017-12-03

sábado, 2 de dezembro de 2017

Árvore da sabedoria




Árvore da sabedoria
 

Lenta aumenta, crescendo, a árvore da sabedoria,
talvez uma antiga oliveira já bem anciã dos princípios do tempo,
tronco rugoso, a pele gretada da vida de cada dia...

Ei-la sempre aqui junto de nós,
tranquila, sábia decerto, sábia tanto que nem sabemos,
mas tão sóbria aquela sua voz...

Tocá-la e subir pelo seu tronco em liberdade,
devagar, conversando com ela, mesmo com palavras,
mas sem egoísmo nem pressa nem ansiedade...

Pelos seus ramos divagando
cada ramo se vai mostrando aos iniciados
e na luz sorrindo vai falando...

Uns bagos de azeitona
no ramo certo maturados para um fio de ouro
lá vão surgindo à tona...

E se, por acaso, escondido encontrares um ninho
lá entre os seus ramos altos, em plumas envolto,
deixa-o, discreto, é o lugar sagrado do passarinho...


José Rodrigues Dias, 2017-12-02


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Profano e sagrado




Profano e sagrado


Fundo, azul o céu
do Sol
sem nenhum véu...

Dia feriado profano...
Um sino ecoa no branco do campanário, branco,
a lembrar o sagrado...


José Rodrigues Dias, 2017-12-01

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Critica


 
(A propósito do Dia Mundial do Professor)


Critica


Não, não escrevi no título “Crítica”, o que sempre gosto de fazer, olhos nos olhos, letras certas no sujeito, que assim mo ensinou o Mestre que mais recordo e mais a vida me marcou: o de Filosofia. Ele formava, ensinando a perguntar sempre. Por quê? Ou porquê? Sempre perguntando! Era um Mestre. Então adolescente, nunca lhe disse isto. Seria um atrevimento para um aprendiz. Hoje, já ontem, gostaria muito que isto ele soubesse, onde quer que esteja, talvez recreando-se depois do trabalho justo e perfeito.

Assim esse Mestre me formou e assim me formei. Talvez por isso, curiosamente, optei pela objectividade dos circuitos e dos números. Ou melhor, pela crítica da objectividade do quantitativo. Aí, apareceu o talvez, em mistura do indefinível e do subjectivo! O provável! Aqui, a relatividade das palavras e da sua posição, da sua paragem e da sua continuação. Ontem, a explosão feita da incerteza da posição! Einstein, 1905. Hoje, a inclusão e a exclusão. O preto e o branco. A síntese. Aqui, agora, as leis que temos. Em todo o lado, e já ontem, as leis como as temos. As leis que, aqui incertas, não legislam certo.

Quando, pela primeira vez, olho um aprendiz, aprendiz como eu, que nem sempre há muitos, que quase todos somos logo mestres, digo-lhe: critica! Quando penso que seja a última vez, repito-lhe: critica!

A crítica séria não é pão hoje. Mas amanhã só haverá pão se hoje houver crítica. Sério, critica, então. Teremos amanhã pão!

Sabes, o rei vai nu! Mesmo nu, não te parece?


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Bosão de Higgs, a partícula de deus e do diabo



(A propósito de outro Prémio Nobel de Física, 2013)


Bosão de Higgs, a partícula de deus e do diabo



Tu, que és muito feminina,
quase mulher,
bela, altiva, fugidia,
o homem esbaforido atrás de ti
pelas montanhas alpinas escondida
em jogo de gato e rato
de enamorados,
enguia,

tu, assim muito feminina,
capa de revista,
a senhora do ano…,
partícula de deus
costela
feiticeira do homem,

buraco grande negro enorme
e aquele vácuo,
um vácuo em catástrofe 
do diabo,

um nada muito feminino
escondido
conferindo massa e volume e contornos
e talvez uma certa harmonia
ao coração e a tudo,
fugindo,

mas num dia de stress muito alto
talvez a instabilidade
e o colapso
no tempo e no espaço
do homem inteiro
perseguindo em todos os infinitos
o além,

como louco, loucamente,

por subtis veredas
de luz
e sombras

que ora são de salvação efémera
em noite de exaltação de mestre
ora de total destruição, perpétua,

de deus…,
oh partícula
do diabo!,

paixão do homem, 
maçã de Adão…

2014-09-10

José Rodrigues Dias,  Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 2016.
 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Vê, Tomé!... (Vê, Einstein!)



(A propósito do Prémio Nobel de Física, 2017)


Vê, Tomé!...
(Vê, Einstein!)


Entretecendo mil ideias,
tecendo o espaço e o tempo,
o tolo tudo concebendo...

Bastas ideias muito loucas,
postulados e outras coisas mais
como de gradientes e rotacionais,
orelhas um pouco moucas,

viajando de Newton para umas ondas gravitacionais
como as de uma criança atirando pedras a um lago
deslocando umas plumas leves dum pato sossegado,

mas em outras dimensões
e a coisa com outra dimensão,
buracos negros, buracões,

onde a luz se perto passasse
se dobrasse,
caísse
e adormecesse...,

só vendo, como Tomé
(Como?... A luz ali anoitecia?...),
eis a humana conclusão...

Antenas no espaço e no tempo
orientadas como dedos espetados
e eis as plumas em movimento!

Vê, Tomé!...


José Rodrigues Dias, 2016-02-12

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Caminho





Caminho


Na Filosofia,
Na Psicologia,
Na análise critica
Por Mestres cedo ensinada,
Bem assimilada,
Encontrei o prazer da reflexão,
O eu questionando:
Estando eu à janela,
Poderei eu observar
Na rua o eu a passar?
Foi por aí que comecei,
Divagando!

Foi por aí, pela interrogação,
Que jovem me iniciei.

Na Engenharia,
Na Matemática,
Na Informática,
Ao sol e com a lua
Estudando,
Encontrei velhos problemas
E deram-me sabidas soluções;
Depois, com deleite investigando,
Criticamente analisando
Velhos e novos problemas,
Novas soluções encontrei,
Mesmo soluções certas não existindo,
Apenas certas aproximações inferindo.

Foi por aqui que adulto continuei.
Com a Filosofia,
Com as Ciências,
Vivendo a vida,
O Ser intuindo,
É agora na Poesia
Que sinto encontrar,
Curiosamente,
Finalmente,
As perguntas sem resposta
Do Início e do Fim,
Do Mundo e da Vida
A iniciar e a findar,
As perguntas essenciais
Sem resposta receber,
Sem resposta fornecer,
Por não haver!
Eis os antigos Mistérios
Perenes a permanecer!

É na Poesia
Que as perguntas
Essenciais,
Simples,
Vitais,
Ficam sem resposta!

É na Poesia!

Ou talvez não seja:
Talvez a Poesia seja
A síntese sublime do Ser
De todas as perguntas
E de todas as respostas
De cada um ser e de se ser!
Talvez a Poesia
Seja
A síntese do Ser!

Este é o caminho!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Diz-me o caminho…




Diz-me o caminho… 


Estou perdido,
diz-me o caminho, por onde é,
não vês que estou tão perdido?!…
Ontem eu sabia onde estava,
para onde ia, o que me esperava,
os caminhos, os carreiros,
as luas,
conhecia os deuses…
Não vês, agora não sei o que aconteceu,
o que me adormeceu de ontem para hoje
que aqui estou tão perdido e só,
só com os perdidos como eu,

entre novos deuses que não sei quem são
e como assim da noite
sombrios e distantes vieram da escuridão…
Estou perdido, sem luz,
não vês?!…

Diz-me tu o caminho,
estou com medo, por onde devo ir,
por onde faça sentido…

2012-02-01


José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar
pp 170-171, Ed. Forinfor, 2016.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Árvores




(Hoje, a propósito do Dia Mundial da Conservação da Natureza).


Árvores


Estas são palavras escritas em folhas
De árvores que te pedi emprestadas,
Por novas serem ainda as árvores
Por mim plantadas.

Um dia, Poeta, a tua poesia verei
Em muitas folhas das árvores
Crescidas que te deixarei.

Então, ao ver-te,
Lá onde estiver,
Um doce sorriso sentirei
E em aragem de folhas
Em manhã primaveril
Te enviarei!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Miguel




Miguel

(Ter trabalho é ter riqueza)


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.