quarta-feira, 12 de junho de 2019

Na Senhora do Caminho




Na Senhora do Caminho


Da pia a água que lava,
sem mácula o branco, sagrado,
Luz de vela que alumia…

Palavras e sinais,
até palmas quase profanas, rituais de iniciação
de novo caminho…

Na Senhora do Caminho,
fora da capela, a manhã tépida, límpida, suave,
eis a Vida que é caminho…

De partilha
a Vida
no caminho…


José Rodrigues Dias, 2019-06-12

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Olhar o céu




Olhar o céu


Visto do alto
o céu
é mais baixo…

Sente o segredo:
subir a escada, ainda que lentamente,
degrau a degrau…

Mesmo que empinada,
mui apertada em caracol, outros passando,
alto o degrau, arfando…


José Rodrigues Dias, 2019-06-07

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Ângulo recto




Ângulo recto


Pego numa simples pedrinha,
uma pedra qualquer
colhida ali mesmo da terra,
e prendo-a a um qualquer fio
que enfio na boca do poço
e por entre os meus dedos
deixo o fio escorregar incerto
de um para outro lado a oscilar…

Agita-se a água deitada ao acordar
em sobressalto
no choque inesperado e grita,
grita
do centro para fora a ondular…

Espero,
o tempo está ali todo, infinito,
o tempo todo do mundo…

Observo no meu tempo.
Lava a água a pedra suja da terra,
talvez uma simples pedrinha...,
enquanto a água a pedra vai polindo
imperceptível ou discreta
em suaves ondas
como em continuadas rondas
de demorada negociação…
Depois, a água a si própria se lava
da sujidade da pedra deixada,
assentando-a suavemente no chão,
naturalmente, sem humana mão…
Até mesmo as arestas agrestes
da própria pedra da terra
para o fundo cairão…


Observo, entretanto,
que o movimento vai parando…

No fim, uma linha vertical,
um fio-de-prumo
aprumando o meu olhar do cimo ao fundo,
e uma superfície horizontal,
um nível,
nivelando as rugas e os desníveis do mundo…

E um ângulo recto,
recto em todas as direcções e sentidos,
bem esquadrado em divina proporção,
em rectidão e harmonia
como um dia será neste nosso chão…


2012-06-06


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016) - Livro um, 1/10 (Janeiro a Junho de 2012), Ed. Forinfor, 2018, 280 pp.


* * * 

Jrd, 2019-06-06

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O poema




O poema


Planto árvores,
fresca
colho a sombra...

Da sombra
faço
um poema...

Poema,
cada folha
o canta...


2017-06-05


* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas em tercetos simétricos, diarísticos, Livro II (Abril a Junho, 2017), Ed. Forinfor, 144 pp, 2018.

* * * 

Jrd, 2019-06-05

terça-feira, 4 de junho de 2019

Em paz




Em paz


Marés, 
adamastores,
ventos...

Tombando,
sempre indo, caindo,
levantando…

Do altar
maior o alcance
do olhar...

Do céu,
quase sentido
dentro...

As palavras
em paz
são caladas...


2017-06-04


* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas em tercetos simétricos, diarísticos, Livro II (Abril a Junho, 2017), Ed. Forinfor, 144 pp, 2018.

* * * 

Jrd, 2019-06-04

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A outra face





A outra face


Densa, mulher densa que te olhas
como se fosse num espelho em nevoeiro,
que a tua outra face intensa olhas
e ela de frente igual te olha
em resposta
e na mesma dúvida te interroga
como um perdido em templo de silêncio
sem local nem tempo
e tu,
sem resposta,
a olhas de volta a todo o momento
numa peregrinação solitária de ir e vir
como o fazer e o desfazer de Penélope
que me parece daqui sem fim,
diluído já mesmo o início
do teu porquê…

Porém,
agora que vos olho melhor,
de mais longe,
que observo mais longe
o denso perene das coisas
no seu centro mais fulcral,
deixando o pormenor do momento,
o mar sem ondas,
tudo me parece claro
no meio difuso do pensamento:
no meio está claramente
o cálice da incerta procura
do vosso Santo Graal,

é isso mesmo, agora certo o sei,
é o cálice da vossa procura
do Santo Graal
que se esconde em nevoeiro,

o que parecia espelho é disfarce
que a noite de Penélope esconde…


2014-01-25


* * * 

in José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.

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Jrd, 2019-06-03

domingo, 2 de junho de 2019

Suores




Suores


Todo se derrete em suores
o dia, de manhã à noite, noite adentro,
de afogueados anoiteceres...


José Rodrigues Dias, 2019-06-02

sábado, 1 de junho de 2019

Crianças irmãs




Crianças irmãs


Crianças irmãs de olhar claro,
sorriso aberto ao Sol da manhã, límpido,
como flores viçosas de romãs…

O sorriso límpido,
fraterno, que não se manche de sombras
indo pelo caminho...


José Rodrigues Dias, 2019-06-01

domingo, 24 de março de 2019

Miguel



Miguel


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Senhoras do Ó


Catedral de Évora 
(imagem da net)


Senhoras do Ó


O Sol da tarde enche todo o céu
mas dentro é outra a Luz.
Lou Reed deixa vazio na cidade.
O órgão enche todo o silêncio.
A Senhora tem o ventre cheio
e a mão do coração toda aberta sobre ele,
maiores parecendo os seus finos dedos.

Quase a seus pés, 
na nave central, um pouco a oriente,
a senhora, sentada, põe a mesma mão
sobre o seu ventre já em ó grande
e o olha
como a um início de sorriso
e o acaricia
ora em movimentos lentos
com a mão como a da Senhora toda aberta
ora, parando por vezes,
apenas com a ponta dos seus dedos
ligeiramente encurvados, docemente,
como se acariciasse dentro um cabelo
ainda pequenino e frágil…

O órgão enche o grandioso templo
e aquela mão do coração todo o tempo
cobre de pura ternura o pequeno templo
gerado em forma de um ovo e de um ó,
poema sagrado aquele momento
de enternecimento,
profana é qualquer palavra…


José Rodrigues Dias, 2013-10-27