sábado, 15 de junho de 2019

Lembranças antigas


Casa das Quintas, Quintas das Quebradas, Mogadouro.


Lembranças antigas


A um muro novo se encostando
descansa pelo tempo adentro uma velha charrua
que de ferrugem se vai pintando…

Lembranças de parelhas jungidas
que o seu pão iam ganhando, o homem estafado,
em suor com a aguilhada atiçadas…

Do chão para a boca
quantas as voltas e os trabalhos suados
para se comer o pão…


José Rodrigues Dias, 2019-06-15

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Puio, eu e o Douro




Puio, eu e o Douro


Lá em baixo, bem fundo,
nos pedregulhos sem um sinal macio de terra
onde nem a erva medra,

esguio corres
como serpente se dobrando, enrolando, seguindo
por carreiros,

uns carreiros que caminhos não são,
nem de gente, nem de ovelhas
nem mesmo do saltar das cabras são…

Mas não são os pedregulhos
que te impedem, que te impediram, de seguir, vencendo,
nesse teu tão áspero caminho…

Mas olhaste a gente
nascida presa de largueza, dos montes, de Trás-os-Montes,
com ela aprendeste…

Se há quem pense que foi a gente
que aprendeu contigo escavando o duro fraguedo do pão
abrindo os carreiros para um mar,

não, que não, esses que se desenganem,
tu sabes, eu sei, nós dos caminhos de pedras sabemos,
tu connosco é que depressa aprendeste…

...

Penso agora em silêncio comigo:
eu, sentindo-me hoje das pedras e dos mares agradecido,
eu é que terei aprendido contigo…


José Rodrigues Dias, 2019-06-13

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A pedra polida (Recantos do Nordeste)


Peça do escultor Manuel Barroco 
(Casa das Quintas, Quintas das Quebradas, Mogadouro).


A pedra polida
(Recantos do Nordeste)


A pedra polida
em recantos de adornos floridos
da pedra bruta…


José Rodrigues Dias, 2019-06-13

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Na Senhora do Caminho




Na Senhora do Caminho


Da pia a água que lava,
sem mácula o branco, sagrado,
Luz de vela que alumia…

Palavras e sinais,
até palmas quase profanas, rituais de iniciação
de novo caminho…

Na Senhora do Caminho,
fora da capela, a manhã tépida, límpida, suave,
eis a Vida que é caminho…

De partilha
a Vida
no caminho…


José Rodrigues Dias, 2019-06-12

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Olhar o céu




Olhar o céu


Visto do alto
o céu
é mais baixo…

Sente o segredo:
subir a escada, ainda que lentamente,
degrau a degrau…

Mesmo que empinada,
mui apertada em caracol, outros passando,
alto o degrau, arfando…


José Rodrigues Dias, 2019-06-07

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Ângulo recto




Ângulo recto


Pego numa simples pedrinha,
uma pedra qualquer
colhida ali mesmo da terra,
e prendo-a a um qualquer fio
que enfio na boca do poço
e por entre os meus dedos
deixo o fio escorregar incerto
de um para outro lado a oscilar…

Agita-se a água deitada ao acordar
em sobressalto
no choque inesperado e grita,
grita
do centro para fora a ondular…

Espero,
o tempo está ali todo, infinito,
o tempo todo do mundo…

Observo no meu tempo.
Lava a água a pedra suja da terra,
talvez uma simples pedrinha...,
enquanto a água a pedra vai polindo
imperceptível ou discreta
em suaves ondas
como em continuadas rondas
de demorada negociação…
Depois, a água a si própria se lava
da sujidade da pedra deixada,
assentando-a suavemente no chão,
naturalmente, sem humana mão…
Até mesmo as arestas agrestes
da própria pedra da terra
para o fundo cairão…


Observo, entretanto,
que o movimento vai parando…

No fim, uma linha vertical,
um fio-de-prumo
aprumando o meu olhar do cimo ao fundo,
e uma superfície horizontal,
um nível,
nivelando as rugas e os desníveis do mundo…

E um ângulo recto,
recto em todas as direcções e sentidos,
bem esquadrado em divina proporção,
em rectidão e harmonia
como um dia será neste nosso chão…


2012-06-06


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016) - Livro um, 1/10 (Janeiro a Junho de 2012), Ed. Forinfor, 2018, 280 pp.


* * * 

Jrd, 2019-06-06

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O poema




O poema


Planto árvores,
fresca
colho a sombra...

Da sombra
faço
um poema...

Poema,
cada folha
o canta...


2017-06-05


* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas em tercetos simétricos, diarísticos, Livro II (Abril a Junho, 2017), Ed. Forinfor, 144 pp, 2018.

* * * 

Jrd, 2019-06-05

terça-feira, 4 de junho de 2019

Em paz




Em paz


Marés, 
adamastores,
ventos...

Tombando,
sempre indo, caindo,
levantando…

Do altar
maior o alcance
do olhar...

Do céu,
quase sentido
dentro...

As palavras
em paz
são caladas...


2017-06-04


* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas em tercetos simétricos, diarísticos, Livro II (Abril a Junho, 2017), Ed. Forinfor, 144 pp, 2018.

* * * 

Jrd, 2019-06-04

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A outra face





A outra face


Densa, mulher densa que te olhas
como se fosse num espelho em nevoeiro,
que a tua outra face intensa olhas
e ela de frente igual te olha
em resposta
e na mesma dúvida te interroga
como um perdido em templo de silêncio
sem local nem tempo
e tu,
sem resposta,
a olhas de volta a todo o momento
numa peregrinação solitária de ir e vir
como o fazer e o desfazer de Penélope
que me parece daqui sem fim,
diluído já mesmo o início
do teu porquê…

Porém,
agora que vos olho melhor,
de mais longe,
que observo mais longe
o denso perene das coisas
no seu centro mais fulcral,
deixando o pormenor do momento,
o mar sem ondas,
tudo me parece claro
no meio difuso do pensamento:
no meio está claramente
o cálice da incerta procura
do vosso Santo Graal,

é isso mesmo, agora certo o sei,
é o cálice da vossa procura
do Santo Graal
que se esconde em nevoeiro,

o que parecia espelho é disfarce
que a noite de Penélope esconde…


2014-01-25


* * * 

in José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.

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Jrd, 2019-06-03

domingo, 2 de junho de 2019

Suores




Suores


Todo se derrete em suores
o dia, de manhã à noite, noite adentro,
de afogueados anoiteceres...


José Rodrigues Dias, 2019-06-02