quarta-feira, 10 de julho de 2019

Pelo meu rio




Pelo meu rio



Pelo meu rio
entre a beleza dos números
e a leveza das palavras
navego…

Todo o tempo
levo
comigo o pensamento
semeando esperanças e dúvidas,
colhendo pequenos botões escondidos de flores
e cestos grandes de dúvidas nascidas…

Quem este privilégio tem
tendo assim espinhos e sorrisos de amores
num arco-íris de imagens
como as deste meu rio
e de suas margens?
Quem? 

Por isso sorrio
e outra vez me espanto
neste raro encanto
do meu rio!


2014-02-12


* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.

* * * 


Jrd, 2019-07-10

terça-feira, 9 de julho de 2019

Rios correndo




Rios correndo


Observo em ti crescendo
o rio
que de mim vai correndo…

Emudecem as palavras,
sem palavras, até no olhar caladas de humedecidas,
outro é o cintilar do rio…

E feito tu rio, vai sempre correndo,
correndo puro sempre, cristalino, tranquilo correndo
mesmo se eu no leito já morrendo…


José Rodrigues Dias, 2019-07-08/09

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Tu, lá no cimo da Catedral




Tu, lá no cimo da Catedral


No cimo da catedral,
tu, garoto, sentado da subida em caracol chegado,
ali o cimo do mundo,

um ramo de árvore com uma semente,
tu, pensativo, concentrado,
e na outra mão feito de papel um avião,

um olho para fora,
vendo, semicerrado o olhar, a sonhar,
outro para dentro,

sonhando,
o real e o imaginário, perto e longe, semente e avião,
já voando…

Sonha,
o cimo é o ponto certo de olhar longe
e voar…

Numa mão o futuro
feito de sementes e de sonhos, à Luz e ao Sol, germinando,
na outra pão e fruto…


José Rodrigues Dias, 2019-07-08

domingo, 7 de julho de 2019

Entre a luz e o silêncio




Entre a luz e o silêncio


Entra suave
a luz nos claustros do templo,
sai o silêncio…

Sem o tempo definido,
o ser por ali vagando, presente e ausente,
entre a luz e o silêncio…


José Rodrigues Dias, 2019-07-07

sábado, 6 de julho de 2019

Criador e criação




Criador e criação


Venho falando pouco…
Ouço mais meus passos
que maduramente interrogo
em silêncios longos de tons facetados
emergentes de cada rebento no seu tempo
de tudo o que agora é e vai sendo
e que por flores se renova
e frutifica
em mistérios de vida
só ao de leve perceptíveis
em certos momentos de luz…

Indizíveis que são
Criador e criação,
indissociáveis que somos
como arquitecto e construção…


2013-04-21

* * * 

in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, Ed. Forinfor, 278 pp, 2019.

* * *

Jrd, 2019-07-06

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os símbolos




Os símbolos


Era eu o silêncio…
Era o outro que eu ouvia…
Como podia eu falar se ainda não sabia?
É certo que conhecia já muitas palavras,
as minúsculas todas, as maiúsculas,
números, fórmulas,
símbolos gregos,
até os de vazio e de infinito...
Muitas coisas, diria um homem…
Mas, então, eu ainda não conhecia
aquela dimensão do outro saber
de aprender e ver por dentro
as coisas
e o sentido da palavra
como se entendia
na escola de Pitágoras…

2013-02-03

* * * 

in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, Ed. Forinfor, 278 pp, 2019.

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Jrd, 2019-07-05

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O peso das pedras




O peso das pedras


O peso das pedras
pelas mãos sábias de mestres erguidas
sedimenta teu chão…

E do chão firme,
ainda que por uma só fresta,
se ergue o olhar…

De tamanho peso
no simbolismo da construção
quanta libertação…


José Rodrigues Dias, 2019-07-04

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Coisas de eclipses




Coisas de eclipses


O nosso mar
eclipsou o Sol durante toda a noite
ali no poente…

De cada flor
só o brilho à luz das estrelas e à luz dos homens
e o seu odor…

Dos movimentos
tempos, alternando, intermitentes,
de luz e de trevas…


José Rodrigues Dias, 2019-07-03

terça-feira, 2 de julho de 2019

Flores de cardos




Flores de cardos


Não são de Maio rosas nem de Abril cravos
nem são de Junho espigas joaninas de colheita de pão,
são neste chão seco de Julho flores de cardos…


José Rodrigues Dias, 2019-07-02

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Parando


Jornal Diário do Sul, 2019-07-01


Parando 


Já antes tinhas dito
que agora na tua idade
já pouco esperavas de ti
e do mundo
cheio de frios e compridos números,
de números austeros
sem quase gente dentro,
mundo de solidão,
dramas e olás distantes,
e de tantas apregoadas cores sem vida,
mortas,
como mortas, 
que te magoam já o olhar
e o pensamento
e apertam o coração de qualquer homem
do campo
e até da cidade,
quanto mais o teu!...

Agora dizes quase friamente e distante
que o mundo vai assim continuar
e que tu como estás
estás bem,
e que assim vais parar,
parando…

Ouvindo-te, sinto um nó
que me aperta
como se a morte aí viesse…


2012-02-26


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016) - Livro um, 1/10 (Janeiro a Junho de 2012), Ed. Forinfor, 2018, 280 pp.


* * * 

Jrd, 2019-07-01