terça-feira, 16 de julho de 2019

Lua luz noite dia




Lua luz noite dia


Lua pequena tão grande
Lua longe tão perto
Lua minha
fraterna
Lua tua
Lua luz noite dia
Lua mar lua redonda
Lua terna tão materna
Lua assim tão distante
inteira e mulher
amor amante…

Por isso, decerto foi por isso
que o homem foi conhecer-te
pelos céus disparado, louco,

e ainda que só por um breve instante
ter-te
mesmo que a cambalear, periclitante,

e, por ser o homem um fraco,
a todo o mundo dizer, estandarte na mão,
que tu, oh Lua, que tu és sua…

Oh gentes,
oh Lua,
que ilusão!…

Eu, encostado neste meu naco de terra
ouvindo as rãs cantando à cidade, interrogando-me,
olhar-te-ei, só, o tempo todo que puder…

2014-08-10


in José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão
Ed. Forinfor, 152 pp, 2017.


* * *   

José Rodrigues Dias, 2019-07-16


segunda-feira, 15 de julho de 2019

O menino e o mar




O menino e o mar 


Menino pequeno
crescido
a olhar longe
sentado
sobre o mar,
o que vês?
O que de lá vem,
o que para lá vai que tu vês
que assim te põe a pensar
como se já fosses um sábio
sobre o tempo debruçado,
menino,
que antevês? 

Irás um dia tu?
Voltarás?
Encontrarás pedras no caminho das viagens?
Guardá-las-ás como o Poeta
para o seu castelo de imagens
de quase odisseia?

E a luz,
como é a luz que vês?
Como a água
pura
que o novo cria
ou
outro recria?


2013-10-10

* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.

* * * 


Jrd, 2019-07-15

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Sem palavras




Sem palavras


Uma flor de... abóbora...
Que palavras?...
Poema ao rés-do-chão...


José Rodrigues Dias, 2019-07-12


quinta-feira, 11 de julho de 2019

A sesta do gato




A sesta do gato


Comido e bebido o gato,
lustroso, de boa gente, encalorado, o Sol se derretendo,
vai fazer uma boa sesta…

O céu,
os pássaros calados,
sereno…

A gente
toda
ausente…


José Rodrigues Dias, 2019-07-11

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Pelo meu rio




Pelo meu rio



Pelo meu rio
entre a beleza dos números
e a leveza das palavras
navego…

Todo o tempo
levo
comigo o pensamento
semeando esperanças e dúvidas,
colhendo pequenos botões escondidos de flores
e cestos grandes de dúvidas nascidas…

Quem este privilégio tem
tendo assim espinhos e sorrisos de amores
num arco-íris de imagens
como as deste meu rio
e de suas margens?
Quem? 

Por isso sorrio
e outra vez me espanto
neste raro encanto
do meu rio!


2014-02-12


* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.

* * * 


Jrd, 2019-07-10

terça-feira, 9 de julho de 2019

Rios correndo




Rios correndo


Observo em ti crescendo
o rio
que de mim vai correndo…

Emudecem as palavras,
sem palavras, até no olhar caladas de humedecidas,
outro é o cintilar do rio…

E feito tu rio, vai sempre correndo,
correndo puro sempre, cristalino, tranquilo correndo
mesmo se eu no leito já morrendo…


José Rodrigues Dias, 2019-07-08/09

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Tu, lá no cimo da Catedral




Tu, lá no cimo da Catedral


No cimo da catedral,
tu, garoto, sentado da subida em caracol chegado,
ali o cimo do mundo,

um ramo de árvore com uma semente,
tu, pensativo, concentrado,
e na outra mão feito de papel um avião,

um olho para fora,
vendo, semicerrado o olhar, a sonhar,
outro para dentro,

sonhando,
o real e o imaginário, perto e longe, semente e avião,
já voando…

Sonha,
o cimo é o ponto certo de olhar longe
e voar…

Numa mão o futuro
feito de sementes e de sonhos, à Luz e ao Sol, germinando,
na outra pão e fruto…


José Rodrigues Dias, 2019-07-08

domingo, 7 de julho de 2019

Entre a luz e o silêncio




Entre a luz e o silêncio


Entra suave
a luz nos claustros do templo,
sai o silêncio…

Sem o tempo definido,
o ser por ali vagando, presente e ausente,
entre a luz e o silêncio…


José Rodrigues Dias, 2019-07-07

sábado, 6 de julho de 2019

Criador e criação




Criador e criação


Venho falando pouco…
Ouço mais meus passos
que maduramente interrogo
em silêncios longos de tons facetados
emergentes de cada rebento no seu tempo
de tudo o que agora é e vai sendo
e que por flores se renova
e frutifica
em mistérios de vida
só ao de leve perceptíveis
em certos momentos de luz…

Indizíveis que são
Criador e criação,
indissociáveis que somos
como arquitecto e construção…


2013-04-21

* * * 

in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, Ed. Forinfor, 278 pp, 2019.

* * *

Jrd, 2019-07-06

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os símbolos




Os símbolos


Era eu o silêncio…
Era o outro que eu ouvia…
Como podia eu falar se ainda não sabia?
É certo que conhecia já muitas palavras,
as minúsculas todas, as maiúsculas,
números, fórmulas,
símbolos gregos,
até os de vazio e de infinito...
Muitas coisas, diria um homem…
Mas, então, eu ainda não conhecia
aquela dimensão do outro saber
de aprender e ver por dentro
as coisas
e o sentido da palavra
como se entendia
na escola de Pitágoras…

2013-02-03

* * * 

in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, Ed. Forinfor, 278 pp, 2019.

* * *

Jrd, 2019-07-05