quinta-feira, 25 de julho de 2019
domingo, 24 de março de 2019
Miguel
Miguel
Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.
O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.
A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.
O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.
Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.
O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.
Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!
Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:
Ter trabalho é ter riqueza.
José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Senhoras do Ó
Catedral de Évora
(imagem da net)
Senhoras do Ó
O Sol da tarde enche todo o céu
mas dentro é outra a Luz.
Lou Reed deixa vazio na cidade.
O órgão enche todo o silêncio.
A Senhora tem o ventre cheio
e a mão do coração toda aberta sobre ele,
maiores parecendo os seus finos dedos.
Quase a seus pés,
na nave central, um pouco a oriente,
a senhora, sentada, põe a mesma mão
sobre o seu ventre já em ó grande
e o olha
como a um início de sorriso
e o acaricia
ora em movimentos lentos
com a mão como a da Senhora toda aberta
ora, parando por vezes,
apenas com a ponta dos seus dedos
ligeiramente encurvados, docemente,
como se acariciasse dentro um cabelo
ainda pequenino e frágil…
O órgão enche o grandioso templo
e aquela mão do coração todo o tempo
cobre de pura ternura o pequeno templo
gerado em forma de um ovo e de um ó,
poema sagrado aquele momento
de enternecimento,
profana é qualquer palavra…
José Rodrigues Dias, 2013-10-27
domingo, 21 de outubro de 2018
Temporais
(Primeiro poema)
Temporais
Fui à cidade,
olhei os homens:
Àquela hora da manhã,
e já não era cedo,
pareceu-me pouca a gente
e com olhares de medo…
Pareceu-me alguma doente,
outra muito sombria
como a chuva que já caía,
temporais
de um novo dia
de um novo ano
amedrontando o corpo
e a mente…
2012-01-02
* * *
José Rodrigues Dias, 2012-10-21
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Sonho
Do segundo livro de Poesia publicado (2011),
hoje que dizem ser o Dia Mundial do Sonho...
Com uma gravação (fraca) que fiz, no Youtube...
Se ouvir, talvez possa acompanhar seguindo o poema transcrito abaixo...
Sonho
Amanhã talvez mudes, Amiga!
Mas hoje não deixes que te mudem,
Que te mudem o sonho em Abril
florido…
O sonho que agora sonhas inebriada
Como em sono de menina quase
acordada…
Não, não deixes!
Sonha, sonha, sonha… Sempre!
Enquanto o mundo te deixar,
Fica assim o tempo que puderes a
sonhar
E alimenta assim a alavanca de
sonho meu
Mesmo sendo de tons diferentes do
teu…
Quando para outro lado do sonho
passares,
Se passares, ou se te passarem,
Se por outros caminhos então
andares,
Imagino que sentirás pena deste teu
sonho ter acabado,
Se em ti o belo e o puro tiverem
tristemente em deserto secado…
Sim, Amiga, é provável que também
em ti
Este sonho acabe, que se esfume em
nada,
Ou em quase nada…
Só tu, então, o saberás!
Precavida, guarda sempre uma réstia
do teu sonho,
Da tua aurora que dela te irás
recordar
Em madrugada de frio acordada…
Guarda bem uma réstia dessa luz,
Em teu secreto tesouro, só teu,
Um raio só que dessa luz seja,
Desta tua aurora em tons de sol a
chegar…
Ficará como um teu porto ainda de
partidas
Mesmo que só já de sombrios sonhos
em estreitas
Caminhadas em águas já poluídas e
agitadas…
Sabes, Amiga, não haverá tempo belo
como o do
Sonho jovem e puro acordado a
pensar tudo mudar,
Mesmo nada mudando,
Mudando o mundo…
Olha, Amiga, é ainda hoje
A luz dos meus sonhos que me vai
encaminhando…
Sonha, Amiga…
(2010-09-06)
José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Digital, máquina apenas
Digital,
feita de zeros e uns,
do que é e não é,
luz e trevas…
Apenas isso,
máquina apenas,
luz e trevas
plenas…
Como poderia entender
um talvez,
uma sombra,
uma lágrima nascida
retida?
Ou umas gotículas de água
num botão de rosa
pela manhã,
uns tons de salmão,
brincando
como crianças
na aragem?
José Rodrigues Dias, 2012-06-30
domingo, 1 de abril de 2018
Páscoa
Páscoa
A Luz irrompe das trevas,
da terra funda
que foi túmulo,
porque a Luz é mais forte
que a morte
e o que a morte inunda…
A Luz rompe a pedra
que a cobre,
irrompe em novo dia
e se eleva…
O pássaro que na noite jazia
no jardim sob um manto de
folhas
pressente a Luz
pelo despertar da manhã,
acorda o Sol
e canta a Primavera
e a harmonia!
E canta, canta,
canta
para todos nós!
Passagem a outro tempo
de recriação,
como Luz
em ovo
que se abre
em movimento
(de Alfa para Ómega),
sem sombras os olhares,
os olhos límpidos
de milagres
como a Luz…
2014-04-20
José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016.
sábado, 31 de março de 2018
Sabbatum Sanctum
Sabbatum Sanctum
Dia de espera,
espera
de esperança
de vida
de túmulo nascida…
Quem espera
alcança…
Dia da Senhora da Solidão,
filho no chão,
irmão,
tempo de solidão…
Por que tanto se desespera,
tanta guerra,
irmão?
Tempo de espera,
de solidão...
2014-04-19
José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016
sexta-feira, 30 de março de 2018
Sexta-Feira Santa
Sexta-Feira Santa
Crucificado,
traído,
Cristo,
hoje morto…
A morte,
momento de passagem,
três dias,
Páscoa,
uma imagem...
A vida,
todo o outro tempo…
Aqui, noutro império,
crucificados,
traídos,
mutilados,
sem quase próprios pecados,
durante quanto tempo
a passagem?
2014-04-18
José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016.
quinta-feira, 29 de março de 2018
Quinta-Feira Santa
Quinta-Feira Santa
Chegou a noite, cansado,
grande já o dia, Sol alto e grande,
trabalho variado, queimado,
meados de Abril…
Morreu Gabriel García Márquez,
dia de solidão,
Cem Anos de Solidão…
Jorge Amado, do mesmo lado do mar,
já tinha morrido…
Cristo morre amanhã
traído,
ceia hoje com os discípulos
em partilha:
tomai e comei…,
bebei…,
o meu corpo…,
o meu sangue…,
em memória de mim…
Entretanto, longe, lá muito longe,
é descoberto talvez um gémeo,
ou talvez um vago primo,
desta Terra que dura pisamos,
pó e barro,
água e pedras,
quase do mesmo tamanho,
chamaram-lhe Kepler,
Kepler qualquer coisa,
pode ter nascido planeta vivo…
(Da vida, quem sabe o quê?)
Morreu hoje Gabriel García Márquez…
Cristo morre amanhã, Sexta-Feira Santa.
Ressuscita ao terceiro dia,
no dia de Páscoa,
Primavera…
2014-04-17
José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Edição Forinfor, 2016
José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Edição Forinfor, 2016
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