sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Do céu ao chão




Do céu ao chão


Repara, deixa de olhar tanto
o céu, é no chão
que se derrama tanto pranto...

Olha o chão,
deita a semente, o fruto da flor sobe,
sobe ao céu...


José Rodrigues Dias, 2018-09-20

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Obrigado pela ternura




Obrigado pela ternura


Regos, rasgos,
profundos no meu tronco de velha oliveira,
fendas fundas...

Chuvas, sóis, ventos,
os tempos desurdindo no seu tempo lento
em seus movimentos...

Olha, Amigo, sofrida tanta agrura,
que a Terra em mim esqueça a guerra,
Luz e Paz e obrigado pela ternura...


José Rodrigues Dias, 2018-09-13

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Aquela Luz de bagos de azeitona




Aquela Luz de bagos de azeitona


Devagar, caindo cada dia,
os bagos de azeitona
vão aprendendo a ser Luz...

Aquela Luz de candeia
que iluminava, trémula, tão trémula ela que era,
minhas primeiras letras...

E como esquecer
essa coisa simples, mas tão funda, linda, essa Luz
pilar de minha vila...

Talvez mesmo por isso
que plante oliveiras, as vá plantando,
e as olhe ao cair do Sol...

Ao cair do Sol,
a Luz, caindo o dia,
ilumina a noite...


José Rodrigues Dias, 2018-09-12

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Dedicatória


Dedicatória

José Rodrigues Dias, Cadernos Diários de Poesia, Inverno (2018, Janeiro a Março), 118 pp,
Ed. Forinfor, Julho / 2019.


domingo, 24 de março de 2019

Miguel



Miguel


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Senhoras do Ó


Catedral de Évora 
(imagem da net)


Senhoras do Ó


O Sol da tarde enche todo o céu
mas dentro é outra a Luz.
Lou Reed deixa vazio na cidade.
O órgão enche todo o silêncio.
A Senhora tem o ventre cheio
e a mão do coração toda aberta sobre ele,
maiores parecendo os seus finos dedos.

Quase a seus pés, 
na nave central, um pouco a oriente,
a senhora, sentada, põe a mesma mão
sobre o seu ventre já em ó grande
e o olha
como a um início de sorriso
e o acaricia
ora em movimentos lentos
com a mão como a da Senhora toda aberta
ora, parando por vezes,
apenas com a ponta dos seus dedos
ligeiramente encurvados, docemente,
como se acariciasse dentro um cabelo
ainda pequenino e frágil…

O órgão enche o grandioso templo
e aquela mão do coração todo o tempo
cobre de pura ternura o pequeno templo
gerado em forma de um ovo e de um ó,
poema sagrado aquele momento
de enternecimento,
profana é qualquer palavra…


José Rodrigues Dias, 2013-10-27

domingo, 21 de outubro de 2018

Temporais


(Primeiro poema)


Temporais

Fui à cidade,
olhei os homens:

Àquela hora da manhã,
e já não era cedo,
pareceu-me pouca a gente
e com olhares de medo…

Pareceu-me alguma doente,
outra muito sombria
como a chuva que já caía,
temporais
de um novo dia
de um novo ano
amedrontando o corpo
e a mente…

2012-01-02

* * * 

José Rodrigues Dias, 2012-10-21

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Sonho


Do segundo livro de Poesia publicado (2011), 
hoje que dizem ser o Dia Mundial do Sonho...

Com uma gravação (fraca) que fiz, no Youtube...
Se ouvir,  talvez possa acompanhar seguindo o poema transcrito abaixo...





Sonho


Amanhã talvez mudes, Amiga!
Mas hoje não deixes que te mudem,
Que te mudem o sonho em Abril florido…
O sonho que agora sonhas inebriada
Como em sono de menina quase acordada…
Não, não deixes!
Sonha, sonha, sonha… Sempre!

Enquanto o mundo te deixar,
Fica assim o tempo que puderes a sonhar
E alimenta assim a alavanca de sonho meu
Mesmo sendo de tons diferentes do teu…
Quando para outro lado do sonho passares,
Se passares, ou se te passarem,
Se por outros caminhos então andares,
Imagino que sentirás pena deste teu sonho ter acabado,
Se em ti o belo e o puro tiverem tristemente em deserto secado…

Sim, Amiga, é provável que também em ti
Este sonho acabe, que se esfume em nada,
Ou em quase nada…
Só tu, então, o saberás!

Precavida, guarda sempre uma réstia do teu sonho,
Da tua aurora que dela te irás recordar
Em madrugada de frio acordada…
Guarda bem uma réstia dessa luz,
Em teu secreto tesouro, só teu,
Um raio só que dessa luz seja,
Desta tua aurora em tons de sol a chegar…
Ficará como um teu porto ainda de partidas
Mesmo que só já de sombrios sonhos em estreitas
Caminhadas em águas já poluídas e agitadas…

Sabes, Amiga, não haverá tempo belo como o do
Sonho jovem e puro acordado a pensar tudo mudar,
Mesmo nada mudando,
Mudando o mundo…

Olha, Amiga, é ainda hoje
A luz dos meus sonhos que me vai encaminhando…

Sonha, Amiga…

(2010-09-06)


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Digital, máquina apenas



 
Digital, máquina apenas


Digital,

feita de zeros e uns,
do que é e não é,
luz e trevas…
 

Apenas isso,
máquina apenas,
luz e trevas
plenas…

Como poderia entender
um talvez,
uma sombra,
uma lágrima nascida
retida?

Ou umas gotículas de água
num botão de rosa
pela manhã,

uns tons de salmão,

brincando
como crianças
na aragem?


José Rodrigues Dias, 2012-06-30


domingo, 1 de abril de 2018

Páscoa



Páscoa


A Luz irrompe das trevas,
da terra funda
que foi túmulo,
porque a Luz é mais forte
que a morte
e o que a morte inunda…

A Luz rompe a pedra
que a cobre,
irrompe em novo dia
e se eleva…

O pássaro que na noite jazia
no jardim sob um manto de folhas
pressente a Luz
pelo despertar da manhã,
acorda o Sol
e canta a Primavera
e a harmonia!

E canta, canta,
canta
para todos nós!

Passagem a outro tempo
de recriação,

como Luz
em ovo
que se abre
em movimento

(de Alfa para Ómega),

sem sombras os olhares,
os olhos límpidos
de milagres
como a Luz…

2014-04-20


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016.