domingo, 3 de novembro de 2019

Olhar triste




Olhar triste


Preso, olhar triste de cão
como, talvez, o de um homem
vagueando livre sem pão...


José Rodrigues Dias, 2019-11-03

sábado, 2 de novembro de 2019

Defuntos-mortos


Lembrando...


Defuntos-mortos


Todos um dia defuntos são neste dia dos defuntos.
Há defuntos que, mortos, nunca mais vivos são;
Há outros que, mortos, em vivos hoje vivos estão;
E há outros que, defuntos, nunca mortos ficarão!

Da vida de uns, quantos…, nada, nada restou
Que, negra, a morte negra tudo em pó queimou;
Outros, muitos, bem vivos, em vivos hoje estão;
Bem poucos, os outros, que a vida não deixou,
Nunca, fraca, a impotente morte daqui os levou!


in José Rodrigues Dias, Traçados sobre nós
Chiado Editora, 2011.


Jrd, 2019-11-02


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O poema supremo


Sala dos Actos, Universidade de Évora
(hoje, 2019-11-01, Dia da Universidade).



O poema supremo
(olhando a Sala dos Actos da Universidade de Évora)


Longos os caminhos,
corredores, degraus, de pedra trabalhada a sabedoria,
saberes indo subindo...

Claustros de reflexão,
silêncios, ruídos do tempo, passos dados,
alargada a meditação...

Ao fundo a planície…
E numa aragem fresca, tua, a palavra refrescada
a viajar pelo mundo...

Eis o eterno movimento
do poema supremo, nele tu e eu,
e sempre em construção...


José Rodrigues Dias, 2019-11-01

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Fosse a chave de um paiol




Fosse a chave de um paiol


Balouça em ramo seco, quebradiço,
lá bem no cimo da árvore, ali no jardim,
aquela chave que brilha à luz do Sol...

E digo cá para mim:
fosse a chave de um paiol cheio, cheio de armas,
que ninguém lá iria...


José Rodrigues Dias, 2018-10-02

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Do céu ao chão




Do céu ao chão


Repara, deixa de olhar tanto
o céu, é no chão
que se derrama tanto pranto...

Olha o chão,
deita a semente, o fruto da flor sobe,
sobe ao céu...


José Rodrigues Dias, 2018-09-20

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Obrigado pela ternura




Obrigado pela ternura


Regos, rasgos,
profundos no meu tronco de velha oliveira,
fendas fundas...

Chuvas, sóis, ventos,
os tempos desurdindo no seu tempo lento
em seus movimentos...

Olha, Amigo, sofrida tanta agrura,
que a Terra em mim esqueça a guerra,
Luz e Paz e obrigado pela ternura...


José Rodrigues Dias, 2018-09-13

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Aquela Luz de bagos de azeitona




Aquela Luz de bagos de azeitona


Devagar, caindo cada dia,
os bagos de azeitona
vão aprendendo a ser Luz...

Aquela Luz de candeia
que iluminava, trémula, tão trémula ela que era,
minhas primeiras letras...

E como esquecer
essa coisa simples, mas tão funda, linda, essa Luz
pilar de minha vila...

Talvez mesmo por isso
que plante oliveiras, as vá plantando,
e as olhe ao cair do Sol...

Ao cair do Sol,
a Luz, caindo o dia,
ilumina a noite...


José Rodrigues Dias, 2018-09-12

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Dedicatória


Dedicatória

José Rodrigues Dias, Cadernos Diários de Poesia, Inverno (2018, Janeiro a Março), 118 pp,
Ed. Forinfor, Julho / 2019.


domingo, 24 de março de 2019

Miguel



Miguel


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Senhoras do Ó


Catedral de Évora 
(imagem da net)


Senhoras do Ó


O Sol da tarde enche todo o céu
mas dentro é outra a Luz.
Lou Reed deixa vazio na cidade.
O órgão enche todo o silêncio.
A Senhora tem o ventre cheio
e a mão do coração toda aberta sobre ele,
maiores parecendo os seus finos dedos.

Quase a seus pés, 
na nave central, um pouco a oriente,
a senhora, sentada, põe a mesma mão
sobre o seu ventre já em ó grande
e o olha
como a um início de sorriso
e o acaricia
ora em movimentos lentos
com a mão como a da Senhora toda aberta
ora, parando por vezes,
apenas com a ponta dos seus dedos
ligeiramente encurvados, docemente,
como se acariciasse dentro um cabelo
ainda pequenino e frágil…

O órgão enche o grandioso templo
e aquela mão do coração todo o tempo
cobre de pura ternura o pequeno templo
gerado em forma de um ovo e de um ó,
poema sagrado aquele momento
de enternecimento,
profana é qualquer palavra…


José Rodrigues Dias, 2013-10-27