sábado, 21 de abril de 2018

Abril




Abril


Das águas de Abril escuras
nascem puras flores brancas.
Olá, diz a papoila vermelha...


José Rodrigues Dias, 2018-04-21

sexta-feira, 20 de abril de 2018

De outro o caminho seria




De outro o caminho seria


Ir às cavalitas fácil seria
mas o caminho o mesmo encanto não teria,
de outro o caminho seria...

Excepto
se o outro
escravo...


José Rodrigues Dias, 2018-04-20

quinta-feira, 19 de abril de 2018

A Primavera nascendo do chão




A Primavera nascendo do chão


Braços carregados de flores
debruçados sobre o chão
como se em ritual de oração...

Braços em ramos curvos, não são rosas,
não sei o que são, são brancas e são um montão,
são como a Primavera nascendo do chão...


José Rodrigues Dias, 2018-04-19

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Parede da caverna de Platão




Parede da caverna de Platão


Como se na parede da caverna de Platão,
na superfície tranquila da água o reflexo, no outro lado,
do brilho do Sol, nuvens e rastos de avião...


José Rodrigues Dias, 2018-04-16

terça-feira, 17 de abril de 2018

Talvez seja um beijo




Talvez seja um beijo


Talvez seja um beijo,
talvez um abraço, talvez um olhar,
talvez seja só desejo...


José Rodrigues Dias, 2018-04-13

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Dos figos e dos melros




Dos figos e dos melros


Lampos, estão os figos a crescer
a uma janela do castelo.
Que bico de melro se irá derreter?


José Rodrigues Dias, 2018-04-13

domingo, 15 de abril de 2018

Bola, bomba e flor





Bola, bomba e flor


Não sei o que lá se passa,
se morta uma flor já renasce 
ou uma bomba outro mata...

Não sei que coisa lá se passa
naquele mundo de miséria e guerra.
Hoje, aqui é só bola que salta...

Aqui, só a bola salta:
no golo o pontapé certeiro
ou bola que ressalta?

De flores, de bombas,
de guerra, da guerra verdadeira,
que interessa à malta?


José Rodrigues Dias, 2018-04-15

sábado, 14 de abril de 2018

As armas e as flores




As armas e as flores


Uma qualquer arma
a palavra cala
se sua garganta mata...

De vergonha
e de medo as flores
entristecem...


José Rodrigues Dias, 2018-04-14

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Veneza, esquinas de água




Veneza, esquinas de água


Quadradas as esquinas de água,
portas do rico casario abertas para os canais
e barcos a caminhar sem mágoa...


José Rodrigues Dias, 2018-04-13

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Os peixes, os homens e o chumbo




Os peixes, os homens e o chumbo


Peixes, olhai de olhos bem abertos
que os mares deste mundo
estão repletos de laços encobertos...

Estrondos com dores vindos do céu, ouvi!,
montes de plásticos parecendo fontes de pão, olhai!,
horrores negros escondidos no mar, senti!... 

Então, cuidado,
céus, terras e mares
feitos chumbo!


José Rodrigues Dias, 2018-04-12

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Mescla de mosaicos a vida




Mescla de mosaicos a vida


Mescla de mosaicos a vida,
uns feitos de luz,
outros de uma treva havida...

Pintados de mel,
da vida sarapintados,
pintados de fel...


José Rodrigues Dias, 2018-04-11

terça-feira, 10 de abril de 2018

As flores e as gentes




As flores e as gentes


Apesar de sombras e chuva
as flores convivem bem no mesmo canteiro
mantendo correcta a postura...

Os homens, nós, as gentes,
que vejo eu em cada palmo de terra?
Muitos traços de dementes...


José Rodrigues Dias, 2018-04-10

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Negros por entre lodos




Negros por entre lodos


Em águas de fundos
por entre lodos escondem-se da luz
como noites escuras...

Cores de negros,
resguardados
os seus segredos...


José Rodrigues Dias, 2018-04-09

domingo, 8 de abril de 2018

Transparências




Transparências


As águas límpidas,
os peixes
coloridos e limpos...


José Rodrigues Dias, 2018-04-08

sábado, 7 de abril de 2018

Não, não é a bela Torre de Pisa




Não, não é a bela Torre de Pisa


Não, não é a bela Torre de Pisa,
mas do chão que em Veneza se move
é também uma torre que desliza...

Como acontece a um homem
quando o chão devagar, de mansinho,
debaixo de seus pés se move...

Devagarinho,
deixa de ser o porte direito
mui certinho...

E, mui devagar,
pode até o direito porte
um dia desabar...


José Rodrigues Dias, 2018-04-07

sexta-feira, 6 de abril de 2018

De sombra os horizontes




De sombra os horizontes


Se de sombra os horizontes,
mesmo largas as janelas, pouco se vislumbra,
mesmo do cimo dos montes...


José Rodrigues Dias, 2018-04-06

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A dura pedra e a doce flor




A dura pedra e a doce flor


Não houvesse a dura pedra
e o mesmo encanto, cantando, não era
o de uma doce flor na terra...


José Rodrigues Dias, 2018-04-05

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sábia a pedra




Sábia a pedra 


Em arco a porta de outro tempo,
à volta pedras caídas, ervas, oliveiras em abandono,
soltando em silêncio seu lamento...

Em seu lamento
o arco resistindo, sábia a pedra,
à chuva e vento...


José Rodrigues Dias, 2018-04-04

terça-feira, 3 de abril de 2018

É este Alentejo




É este Alentejo


Olhai, são ondas de verdes
entremeadas de montes de branco,
é esta Primavera que vedes...     

É este Alentejo
pintado fresco cada ano
desta esperança...

O Sol subindo
pelo andar do tempo
a vai diluindo...

É positivo
o declive da Vida
e negativo...

Esperança,
Vida em ondas
sinusoidais...


José Rodrigues Dias, 2018-04-03

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Tempo de Páscoa




Tempo de Páscoa


Deixei por uns dias as palavras trabalhadas,
de outros caminhos poemas novos ficaram sem lavra,
e receio agora que estejam comigo zangadas...

Como em quase tudo,
tenho medo que da inacção as palavras
me deixem aqui mudo...

Oxalá que seja como em determinadas flores,
canteiro de Primavera ao ar livre, tempo de Páscoa,
ao fim de alguns dias colhem-se outros odores...


José Rodrigues Dias, 2018-04-02

domingo, 1 de abril de 2018

Páscoa



Páscoa


A Luz irrompe das trevas,
da terra funda
que foi túmulo,
porque a Luz é mais forte
que a morte
e o que a morte inunda…

A Luz rompe a pedra
que a cobre,
irrompe em novo dia
e se eleva…

O pássaro que na noite jazia
no jardim sob um manto de folhas
pressente a Luz
pelo despertar da manhã,
acorda o Sol
e canta a Primavera
e a harmonia!

E canta, canta,
canta
para todos nós!

Passagem a outro tempo
de recriação,

como Luz
em ovo
que se abre
em movimento

(de Alfa para Ómega),

sem sombras os olhares,
os olhos límpidos
de milagres
como a Luz…

2014-04-20


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016.

sábado, 31 de março de 2018

Sabbatum Sanctum



Sabbatum Sanctum


Dia de espera,
espera
de esperança
de vida
de túmulo nascida…

Quem espera
alcança…

Dia da Senhora da Solidão,
filho no chão,
irmão,
tempo de solidão…

Por que tanto se desespera,
tanta guerra,
irmão?

Tempo de espera,
de solidão...

2014-04-19


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016

sexta-feira, 30 de março de 2018

Sexta-Feira Santa




Sexta-Feira Santa

 
Crucificado,
traído,
Cristo,
hoje morto…

A morte,
momento de passagem,
três dias,
Páscoa,
uma imagem...

A vida,
todo o outro tempo…

Aqui, noutro império,
crucificados,
traídos,
mutilados,
sem quase próprios pecados,
durante quanto tempo
a passagem?


2014-04-18


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quinta-Feira Santa


 


Quinta-Feira Santa


Chegou a noite, cansado,
grande já o dia, Sol alto e grande,
trabalho variado, queimado,
meados de Abril…

Morreu Gabriel García Márquez,
dia de solidão,
Cem Anos de Solidão

Jorge Amado, do mesmo lado do mar,
já tinha morrido…

Cristo morre amanhã
traído,
ceia hoje com os discípulos
em partilha:

 tomai e comei…,
bebei…,

o meu corpo…,
o meu sangue…,

em memória de mim…

 Entretanto, longe, lá muito longe,
é descoberto talvez um gémeo,
ou talvez um vago primo,
desta Terra que dura pisamos,
pó e barro,
água e pedras,
quase do mesmo tamanho,
chamaram-lhe Kepler,
Kepler qualquer coisa,
pode ter nascido planeta vivo…

(Da vida, quem sabe o quê?)

Morreu hoje Gabriel García Márquez…

Cristo morre amanhã, Sexta-Feira Santa.
Ressuscita ao terceiro dia,
no dia de Páscoa,
Primavera…

2014-04-17


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Edição Forinfor, 2016

quarta-feira, 28 de março de 2018

Ponte dos Suspiros




Ponte dos Suspiros 


Do Palácio dos Doges
para o outro lado do canal passo,
é a Ponte dos Suspiros...

Ali na ponte paro
e pelas grossas grades olho,
em baixo gôndolas...

Imagino dos condenados
os suspiros na ponte
a caminho de frias grades...

Desço às celas,
cubículos sem luz, aperreados,
o destino e fim...

Um frio húmido
do canal, do canal aberto
um vento gélido...

Tusso, tusso, 
talvez seja de uma tosse entranhada nas paredes,
volto a tossir...

Subo gelado,
subo apressado,
subo a tossir...

Não me ponho a julgar 
os condenados, sou ali visitante,
só me ponho a magicar...

Ao regressar
pela Ponte dos Suspiros
fico a pensar...

E dentro sinto
mais que os suspiros
gritos de morte...

De um lado,
a grandeza dos salões, a miséria dos cubículos
lá no outro...


José Rodrigues Dias, 2018-03-28

terça-feira, 27 de março de 2018

Como se fosse um poema




Como se fosse um poema


Gosto, com diferentes tons, de uma mistura de flores
emergindo de um canteiro ao sabor da luz e da sombra dos dias, 
umas de sementes lançadas e outras nascidas bravias...

Olho-as como se fosse um poema singelo,
como um arranjo de palavras ao sabor do colorido da vida,
umas induzidas e outras de per si nascidas...


José Rodrigues Dias, 2018-03-27

segunda-feira, 26 de março de 2018

Dimensões profundas, densas de cores



Dimensões profundas, densas de cores


Sim, estive onde esteve Galileo Galilei,
lá bem no alto, na praça de São Marcos, em Veneza,
sim, sentindo o novo mundo da ciência...

E agora aqui estou nesta planura,
as flores, sim, as simples flores, simples,
brotando naturais na sua candura...

Em silêncio, ponto de reflexão,
sinto a dimensão profunda, densa de cores,
de uma flor ou de uma equação...


José Rodrigues Dias, 2018-03-26

domingo, 25 de março de 2018

Papoila singela




Papoila singela

 
É a Primavera de manhã.
Alegre, uma papoila entre flores
dança na aragem da tarde...

Uma papoila singela
traz no seu garrido balouçar
de volta a Primavera...


José Rodrigues Dias, 2018-03-25

sábado, 24 de março de 2018

Galileo Galilei





Galileo Galilei


Lá bem no cimo, aos senhores daquele mundo,
Galileo Galilei no seu telescópio, lá no campanário de Veneza,
demonstrava as maravilhas de um novo mundo...

Do cimo, degraus subidos,
para os homens, para o Homem,
outra é a vista e a largueza...

Mas há homens
que da pequenez, pequenez de tudo,
pouco enxergam...

Velhas ideias
cortam logo bem rente
novas ideias...

Daquele mel em Veneza,
Galileo Galilei, por mais alto ainda subir,
provou o fel em Florença...


José Rodrigues Dias, 2018-03-24

segunda-feira, 19 de março de 2018

O enredo em silêncio




O enredo em silêncio


Nas ruas
o som cinzento
da chuva...

Ontem,
abertas de azul
no céu...

Cá dentro
o enredo em silêncio
da palavra... 

Dentro
de cada coisa, palavra a palavra,
poema...


José Rodrigues Dias, 2018-03-17

domingo, 18 de março de 2018

O encanto e o descanso




O encanto e o descanso


Nos olhos do passeante o encanto,
oh!, o arco em ogiva entre as margens da rua estreita,
nas costas das paredes o descanso...


José Rodrigues Dias, 2018-03-18

sábado, 17 de março de 2018

Oh!, o chão mosaico da fraternidade




Oh!, o chão mosaico da fraternidade


Por balas e por bombas, pelo mal, os corpos tombados,
mortos, eram mães, crianças, eram gente, gente como nós!,
e corpos vivem mortos por mãos violentados, e violados...

A liberdade cai então morta
mas de imediato revive e do chão se levanta
na gente que logo se revolta...

E as raízes pela terra 
se espalham, livres as crianças florescem,
até haver nova guerra...

Bem e mal, mal e bem,
drama a guerra sem fim, abéis e cains
mal e bem, bem e mal...

Branco e negro, negro e branco,
oh!, o chão mosaico da fraternidade,
negro e branco, branco e negro...


José Rodrigues Dias, 2018-03-16