sábado, 29 de fevereiro de 2020

O canhão no Sítio da Nazaré




O canhão no Sítio da Nazaré


Tu me afrontas,
do alto me provocas
como cão
sem dono nem tino
que dia e noite
me ladra,
ladra...

Eu sou este mar,
uma terra de imensa paz
onde um homem se refaz
e se vem banhar...

Mas tu do alto me afrontas
e em certos dias
como santo
em desespero
neste pensamento
disperso
em ondas de muita espuma
navegando o tempo
me perco...

E quando o grande vaso
de água se enche e extravasa
da tua permanente provocação
sobre ti em arco disparo
o meu canhão
que em mim guardo
de estranho olhar
então,

mas ainda assim, olha, repara,
isso é amor,
porque é uma imensa diversão
o que o homem além aguarda,
não é furor,
isto é ícone duma velha paixão...

2015-01-21

In José Rodrigues Dias, Avistamentos de mares, Segunda viagem (Trilogia), Ed. Forinfor, 228 pp, 2020.

Jrd, 2020-02-29

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Garoto, inocente




Garoto, inocente


Garoto que inocente
morres de sangue assim puro
pelo pecado da gente,

vestido te trouxe o mar
e à beira-mar deitado te deixou,
a consciência a te olhar,

e tu, sem sequer acusar,
calado, rosto para baixo, a olhar
esse outro lado do mar!...

2015-09-03


In José Rodrigues Dias, Avistamentos de mares, Segunda viagem (Trilogia), Ed. Forinfor, 228 pp, 2020.


Jrd, 2020-02-28

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Dedicatória




Para



os que, esperando,
sentindo no olhar as ondas do mar longe,
sempre alcançam!


In
José Rodrigues Dias, Avistamentos de mares, Segunda viagem (Trilogia), Ed. Forinfor, 228 pp, 2020.


Jrd, 2020-02-27

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Segunda viagem



Segundo livro da trilogia.

Décimo quinto livro de Poesia.


* 131 poemas de 2014 a 2016, incluindo a palavra "mar" 
   ou uma sua derivada directa.

* 228 páginas.


Jrd, 2020-02-26

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Cais




Cais


Gosto de passar por este cais:
descanso,
deito os olhos no leito do mar
e os pensamentos deixo-os a ondular;
adormeço por vezes
e por vezes embarco sem rumo,
o mar me leva e o mar me traz
e se escuro me leva claro me faz;
e tem este mar outro jeito de amar
com outra luz…

Livre, gosto de retornar
a este cais
que me seduz…

2012-01-12


In José Rodrigues Dias, Avistamentos de mares, Primeira viagem (Trilogia), Ed. Forinfor, 216 pp, 2019.

* * * 

Jrd, 2020-02-25

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Butelo de poesia




Butelo de poesia


Prato
com o butelo,
farto…

Falo só do butelo,
nem sequer das casulas falo
para não falar aqui, agora, de outras coisas
e de outras estações do ano…

O butelo…
Prosaicamente falando, ossos aproveitados
divinamente condimentados naqueles molhos
daquele tempo lá longe, longe, de menino,
já longe, hoje ressuscitados…
Ossos com uns restos de carne,
restos de carne em ossos de porco
em Inverno morto
para o pão do ano inteiro
não ser tão seco e duro, de pobre,

tão seco,
duro,
de pobre…

O butelo…

Sabor, odor, magia
de tempos antigos de sobrevivência
de homens e mulheres de singela sabedoria
burilada em rituais
de lume e fumo
e morte e vida
noite e dia
quase informais,

sem mestres de cerimónia
que mestres, mestres mesmo, ali,
talvez só a morte e a vida…

Lembro-me tão bem daquelas noites
à luz triste de uma candeia
cheia de sombras e de fantasia
quando vinha uma Lua cheia
e ela entre névoas logo se escondia…

O butelo…

Lembro-me do espeto rojo de ferro
furando quase brutalmente o butelo
e o pequeno buraco logo pingando…

Um dreno, como hoje a gente diria,
que o calor e o fumo
do lume que pacientemente ardia

cada um a seu jeito o desinfectaria,
o calor e o fumo, e aquela ancestral sabedoria,
e melhor o butelo então se curaria,
  
cada pinga caindo, caindo,
caindo sem pressa, a gente não fugia,
que o tempo ali não urgia…

No butelo também a poesia
ainda que triste
daqueles invernos de chuva

e de gelos e de neves,
os pardais perdidos, pastores de frio encolhidos,
sinais ainda de fome…

Ruas das ribeiradas,
de lama
e estrume da palha,

a palha que enxugava os caminhos
e com o estrume depois se adubava a terra,
era uma vida na possível harmonia,

harmonia que grande era a miséria
e da gente teria de ser todo o invento
para o seu pequeno, sóbrio, sustento…

E a maioria daquela gente não conhecia
nem uma só letra de escola
e quão bem, olhos fechados, escrevia e lia

a sua vida e pão
com aquela magia
em cada Inverno,

de ar, água e fogo
os rituais,
de sabedoria a luz…

Densa, em cada butelo
aquela singela, e límpida…, poesia
dos homens e mulheres…

2013-03-08

in José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão
Ed. Forinfor, 152 pp, 2017.

* * *   

José Rodrigues Dias, 2020-02-22

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Multiplicação do pão




Multiplicação do pão


Repito-me hoje
nos actos,
repito os passos:

Mando as ervas daninhas 
aos gambozinos e às urtigas 
remexendo fundo a terra,

na terra ponho uma mão de estrume
e repito, repito,
repito o acto de remexer bem a terra,

abro bem alinhados os sulcos,
como eu gosto, com um segmento de recta,
abrindo certos os meus versos.

Pego na semente de batata
como ela própria olhando me diz
seja ora inteira ora cortada,

e alinho-a nos sulcos direitos
deitada de costas e, então, tapo-a, quente a mão,
nos lençóis de terra passada...

Depois e em silêncio,
como se ofício em templo sagrado,
como uma sentença:

Sossegai e dormi um pouco agora
e tranquila vos seja a noite, leve e macia a terra...
Agora vos deixo, vou-me embora...

Mas ao abrirdes os olhinhos
em pequenos assomos de rebentos
cá estarei que logo voltarei...

A fome e a sede,
não as temais, deixai lá,
delas vos livrarei...

Das maleitas,
eu, eu próprio, eu
vos limparei...

E, por fim, um sorriso nos olhos,
por fim voltarei e juntos nos iremos,
sacos de nós cheios aos molhos...

2017-01-24


in José Rodrigues Dias, Da semente, Ed. Forinfor, 254 pp, 2018.


* * * 

Jrd, 2020-02-21

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

As minhas videiras




As minhas videiras


Podo as videiras mas sem saber bem,
aprendiz de cada coisa como saberia?,
mas sei como a mão a cepa acaricia
e assim sempre nos entendemos bem…

Podo agora as minhas videiras,
sei que incerto será o porvir do tempo
e se a cesta terei de uvas cheia…

Muitas serão dos pássaros
que isso eu sei de outros anos,
e até cães as virão comer…

Podo agora as minhas videiras
(é o gosto pela vida a renascer,
nas uvas frescas vê-las crescer),
apesar desse chorar de videiras,

longas suas lágrimas,
o seu sangue, a sua seiva, a dor,
dos cortes a escorrer…

2012-02-20


in José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão
Ed. Forinfor, 152 pp, 2017.


* * *   

José Rodrigues Dias, 2020-02-20


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Elementos e lembranças de garoto




Elementos e lembranças de garoto



Quando eu era garoto, naquele tempo,
quando andava na escola primária
que era a primeira
onde se aprendiam as letras todas e muitas palavras
e os algarismos e os números, incluindo os romanos,
e as tabuadas decoradas e as contas certinhas
com que se resolviam os problemas difíceis
de áreas de terrenos e de volumes
e do custo das coisas
(apesar de por ali ser pouco o dinheiro que havia)
e se aprendia muita história e muita geografia
e muitas outras coisas
para além de muito passo da vida da gente 
pelo mundo dentro e fora
que muita gente dali nunca viveria
como nunca andaria de comboio
nem de longe olharia o mar,
mesmo que fosse com muito cuidado
(havia um Adamastor, dizia-se,
sem saber o que seria)
e menos esperança havia de algum dia
a gente agarrar o mar
(como seria o encanto do diabo
daquele malvado mar
que a uns homens matava
e a outros elevava a heróis,
faróis em ruas e praças de cidades
em acções de graças de outros homens?...),

naquele tempo, dizia eu,
garoto nordestino sem mar,
de uma terra em que o inverno vinha cedo
e sempre andava por ali olhando a gente
e cedo se acendia a lareira e a candeia de luz fraca
(sim, foi daí que veio o meu fascínio pela luz
docemente incendiado pela chama do pensamento)
e se ouvia ao lume a fala dos homens mais velhos,
sérios,
(e estou agora a lembrar-me
dos seus velhos sapatos molhados)
a falar de cartas de chamada para o Brasil
(creio que era chamada aquela palavra usada
mas não percebia quem de lá chamava),
e eu não sabia onde era o Brasil e o que lá haveria,
talvez fosse apenas um fim-do-mundo
ou talvez um paraíso sem pecado
porque não se ouvia que quem fosse
um dia depois de lá viesse
(foi para o Brasil…, era só o que se dizia
e era depois aquele silêncio que ficava,
os olhos baixos fitando o lume,
mexendo talvez nas brasas
para aquecer a alma que arrefecia…),

naquele tempo, dizia eu,
voltando à minha escola primária
de entrada de respeito em cantaria,
a primeira de todas onde a gente
se faz gente ou não se faz,
naquele tempo,
uma redacção à luz da candeia
que a senhora Professora pedia
sobre os elementos da vida
podia muito bem ser assim
em letra muito certinha,
sim,
como cedo se aprendia:

“Os elementos:

Os elementos essenciais (ou fundamentais) da nossa vida aqui são os seguintes: a terra, as vacas, o arado e os homens.
A terra é muito nossa amiga porque nos dá o pão e o resto, mas precisa de ser trabalhada e às vezes custa muito. Custa mais no Inverno e no Verão quando faz muito frio ou muito calor.
Há também os bois e os machos ou as mulas e também os burros. Burros há por aqui muitos. Os burros zurram muito!
Há também a charrua onde se põe a relha para lavrar a terra.
Ainda há o carro das vacas ou de outros animais para levar as coisas como, por exemplo, o trigo segado no Verão e a lenha para o lume no Inverno.
O céu às vezes está muito escuro e chove muito.
Há também trovoadas muito grandes. A gente tem medo e reza a Santa Bárbara. Eu tenho medo das trovoadas! Já tem morrido gente!
Quando não chove durante muito tempo, o senhor Padre e a gente toda fazem uma novena na aldeia. Lembro-me de uma.
Os homens levam merenda quando vão para o campo porque o trabalho dá fome e é preciso comer para não morrer.
À noite, quando os homens chegam, as mulheres já têm o caldo feito e a gente come depois de acomodar os animais que também precisam de comer.
Eu gosto muito da terra porque nos dá tudo o que a gente aqui precisa!”.

Nordestes que o mar
e a terra ligaram,

terra e mar,
gostos que ficaram,

nordestes,
que nos fizestes!...

2014-01-30


In José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar,
Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.


* * *

Jrd, 2020-02-19


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Tempos




Tempos


Ser tempo de Inverno
e ser feito por este tempo
tempo  de  Primavera….

Tempo de amanho da terra…
Tempo agora do Sol em queda…
Tempo de Poesia em espera…  

2017-02-18


in  José Rodrigues Dias, Poemas em tercetos simétricos, diarísticos (Janeiro a Março, 2017), Ed. Forinfor, 132 pp, 2017.

* * *

Jrd, 2020-02-18

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Aqueduto das Águas Livres




Aqueduto das Águas Livres


Quanto suor escorrido,
aprendizes trabalhando a pedra, pedra sobre pedra,
e quanto braço sofrido…

Quanto traçado
de mestres em pranchas trabalhadas
de arquitectura…

Lá de longe
escorrendo em declive certo
a água pura…

Para de sede
na cidade maior do reino
não se morrer…


José Rodrigues Dias, 2020-02-16