segunda-feira, 29 de julho de 2019

Cumo quien bai de camino




Cumo quien bai de camino

(Para Amadeu Ferreira, olhando, lembrando-o agora aqui, que, como Fracisco Niebro, traduziu este poema para Mirandês).


Olhando perdido as estrelas de duas terras,
de onde vim e onde há tanto estou,
sem saber já de onde sou,
fraca a vista,
pouca a luz,
cansado já de noites de penumbras
e do que parecendo ser não é,
nem mesmo se querendo,
sentado assim pequeno
na planície enorme
que baixo parece até o céu,
só agora tarde te descobri…

E tu aí,
pelos caminhos,
Cumo quien bai de camino

De desencontro o meu caminho,
minha a escolha
e a culpa,
se culpa,
tu aí…

Mas procurei,
que sempre
um homem procura
e a sombra não perdura,
firme como a rocha
de que um dia da terra brotei…

Encontrei em ti a vida
como gosto dela, colorida,
traçado o caminho
de caminhos
em sons e tons
de rocha cinzelada, polida…

 Cumo quien bai de camino


2012-06-18


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016) - Livro um, 1/10 (Janeiro a Junho de 2012), Ed. Forinfor, 2018, 280 pp.

* * * 

Jrd, 2019-07-29

domingo, 28 de julho de 2019

Fraternas




Fraternas


As romãs
em abóbada azul de Domingo crescendo
fraternas…

Sentindo,
em sonho, nelas,
o mundo…


José Rodrigues Dias, 2019-07-28

sábado, 27 de julho de 2019

Do tempo e dos homens




Do tempo e dos homens


De tão abrasado,
intenso que fora, talvez cansado de suores, o Sol
hoje adormeceu…

Em leve moinha vindo
a chuva
acaricia a terra de fogo…

Um homem, olhando:
é pouco, na terra ainda o fumo,
mas melhor que nada…

E um outro, além:
pena,
a praia hoje foi-se… 
  
Paro, olho os homens:
sei dos cansaços, de suores, sei da terra, sei do mar,
não sei como os julgar…

Lembro o homem
em Ortega y Gasset
e as circunstâncias…


José Rodrigues Dias, 2019-07-27

sexta-feira, 26 de julho de 2019

A argola, o burro e o homem




A argola, o burro e o homem


Deixa-me aqui à grossa argola preso,
dócil pensa consigo o burro, já cansado do homem,
mas o homem é que devia estar preso...


De pé, mirando põe-se a magicar,
lembrando cenas deste e de outros do passado,
que o homem é que não é de fiar...

Na argola ali preso
à porta da casa, o homem livre,
e o burro tão dócil…

2018-01-03


in José Rodrigues Dias, Cadernos Diários de Poesia, Inverno (2018, Janeiro a Março), 118 pp, Ed. Forinfor, Julho / 2019.


Jrd, 2019-07-26

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Dedicatória


Dedicatória

José Rodrigues Dias, Cadernos Diários de Poesia, Inverno (2018, Janeiro a Março), 118 pp,
Ed. Forinfor, Julho / 2019.


sábado, 20 de julho de 2019

Cadernos Diários de Poesia - Inverno



O décimo segundo livro de Poesia, o segundo deste ano, acabado de publicar.



Cadernos Diários de Poesia - Inverno


118 páginas,  86 poemas.

260 tercetos simétricos.

2018, de Janeiro a Março.


Jrd, 2019-07-20

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Desassossego



Chegou agora novo livro, décimo segundo…
Olhando-se, interrogando-se, eu quieto, calado, olhando,
da caminhada repousa um pouco, aloirando…

E amanhã,
ousando, atrevido indo, inteiro se dará
ao mundo…

Sempre um livro
de ser livre
me desassossega…


José Rodrigues Dias, 2019-07-19

Da flor de cebola e do mistério




Da flor de cebola e do mistério


Eleva-se direita
buscando a luz iniciadora do Sol
a flor de cebola…

Filetes, anteras, pólen,
insectos e ventos em caminhos de perpetuação,
óvulos de reprodução…

Mui pequenina, metemo-la na terra, olha agora,
demos-lhe de comer, acarinhámo-la, demos-lhe de beber,
e com o destino interiorizado pôs-se a caminhar…

A caminhar
sempre ainda que lentamente
tempo afora…

Na flor de cebola
essa beleza e essa força sábia da Luz, vê tu,
cheia de mistério…


José Rodrigues Dias, 2019-07-19

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Paz


Mandela, que hoje faria 101 anos.


Paz

(lembrando Mandela)


Gostaria que um dia se dissesse

que os tons da pele dos homens
são iguais nos seus corações
e que neles secasse a inútil fonte

de um mar salgado de milhões
de lágrimas choradas de divisões.

Gostaria que um dia se dissesse
que houvesse paz e que a paz
livre nos corações se fizesse.

Gostaria que um dia se dissesse
que era uma lembrança a guerra
dos tempos da primitiva Terra.


José Rodrigues Dias, 2011-07-18


* * * 

José Rodrigues Dias, 2019-07-18


quarta-feira, 17 de julho de 2019

Nunca




Nunca


Em areia seca, com sóis e ventos com sal,
de um cacto rasteiro uma flor com tanto encanto
que de minha mão não seria obra, nunca…


José Rodrigues Dias, 2019-07-17

terça-feira, 16 de julho de 2019

Lua luz noite dia




Lua luz noite dia


Lua pequena tão grande
Lua longe tão perto
Lua minha
fraterna
Lua tua
Lua luz noite dia
Lua mar lua redonda
Lua terna tão materna
Lua assim tão distante
inteira e mulher
amor amante…

Por isso, decerto foi por isso
que o homem foi conhecer-te
pelos céus disparado, louco,

e ainda que só por um breve instante
ter-te
mesmo que a cambalear, periclitante,

e, por ser o homem um fraco,
a todo o mundo dizer, estandarte na mão,
que tu, oh Lua, que tu és sua…

Oh gentes,
oh Lua,
que ilusão!…

Eu, encostado neste meu naco de terra
ouvindo as rãs cantando à cidade, interrogando-me,
olhar-te-ei, só, o tempo todo que puder…

2014-08-10


in José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão
Ed. Forinfor, 152 pp, 2017.


* * *   

José Rodrigues Dias, 2019-07-16


segunda-feira, 15 de julho de 2019

O menino e o mar




O menino e o mar 


Menino pequeno
crescido
a olhar longe
sentado
sobre o mar,
o que vês?
O que de lá vem,
o que para lá vai que tu vês
que assim te põe a pensar
como se já fosses um sábio
sobre o tempo debruçado,
menino,
que antevês? 

Irás um dia tu?
Voltarás?
Encontrarás pedras no caminho das viagens?
Guardá-las-ás como o Poeta
para o seu castelo de imagens
de quase odisseia?

E a luz,
como é a luz que vês?
Como a água
pura
que o novo cria
ou
outro recria?


2013-10-10

* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.

* * * 


Jrd, 2019-07-15

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Sem palavras




Sem palavras


Uma flor de... abóbora...
Que palavras?...
Poema ao rés-do-chão...


José Rodrigues Dias, 2019-07-12


quinta-feira, 11 de julho de 2019

A sesta do gato




A sesta do gato


Comido e bebido o gato,
lustroso, de boa gente, encalorado, o Sol se derretendo,
vai fazer uma boa sesta…

O céu,
os pássaros calados,
sereno…

A gente
toda
ausente…


José Rodrigues Dias, 2019-07-11

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Pelo meu rio




Pelo meu rio



Pelo meu rio
entre a beleza dos números
e a leveza das palavras
navego…

Todo o tempo
levo
comigo o pensamento
semeando esperanças e dúvidas,
colhendo pequenos botões escondidos de flores
e cestos grandes de dúvidas nascidas…

Quem este privilégio tem
tendo assim espinhos e sorrisos de amores
num arco-íris de imagens
como as deste meu rio
e de suas margens?
Quem? 

Por isso sorrio
e outra vez me espanto
neste raro encanto
do meu rio!


2014-02-12


* * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016.

* * * 


Jrd, 2019-07-10

terça-feira, 9 de julho de 2019

Rios correndo




Rios correndo


Observo em ti crescendo
o rio
que de mim vai correndo…

Emudecem as palavras,
sem palavras, até no olhar caladas de humedecidas,
outro é o cintilar do rio…

E feito tu rio, vai sempre correndo,
correndo puro sempre, cristalino, tranquilo correndo
mesmo se eu no leito já morrendo…


José Rodrigues Dias, 2019-07-08/09

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Tu, lá no cimo da Catedral




Tu, lá no cimo da Catedral


No cimo da catedral,
tu, garoto, sentado da subida em caracol chegado,
ali o cimo do mundo,

um ramo de árvore com uma semente,
tu, pensativo, concentrado,
e na outra mão feito de papel um avião,

um olho para fora,
vendo, semicerrado o olhar, a sonhar,
outro para dentro,

sonhando,
o real e o imaginário, perto e longe, semente e avião,
já voando…

Sonha,
o cimo é o ponto certo de olhar longe
e voar…

Numa mão o futuro
feito de sementes e de sonhos, à Luz e ao Sol, germinando,
na outra pão e fruto…


José Rodrigues Dias, 2019-07-08

domingo, 7 de julho de 2019

Entre a luz e o silêncio




Entre a luz e o silêncio


Entra suave
a luz nos claustros do templo,
sai o silêncio…

Sem o tempo definido,
o ser por ali vagando, presente e ausente,
entre a luz e o silêncio…


José Rodrigues Dias, 2019-07-07

sábado, 6 de julho de 2019

Criador e criação




Criador e criação


Venho falando pouco…
Ouço mais meus passos
que maduramente interrogo
em silêncios longos de tons facetados
emergentes de cada rebento no seu tempo
de tudo o que agora é e vai sendo
e que por flores se renova
e frutifica
em mistérios de vida
só ao de leve perceptíveis
em certos momentos de luz…

Indizíveis que são
Criador e criação,
indissociáveis que somos
como arquitecto e construção…


2013-04-21

* * * 

in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, Ed. Forinfor, 278 pp, 2019.

* * *

Jrd, 2019-07-06