quarta-feira, 8 de julho de 2020

Sol a nascer




Sol a nascer


Almoçámos todos,
o céu estava luminoso,
passeámos pelo tempo à beira de mares
até que a brisa mais fresca nos recolheu.
Fraternos, ceámos alguns como em última ceia
sob uma penumbra oscilante de quase luz
com falas entrecortadas de omissões,
com posições reafirmadas
e com veementes negações
em momentos de cristalina verdade.
A fronteira estava agora ali,
tinha a forma de um sim ou de um não,
a altura que parecia pequena
de três letras apenas…

Era de noite,
sentimos sombras,
do escuro tivemos medo
e ficámos,

baixando os olhos
dissemos que não…

Não fomos…
Não indo
não vimos a madrugada,
a Luz
no Sol a nascer…

2012-01-31


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In José Rodrigues Dias, Avistamentos de mares, Primeira viagem (Trilogia), 216 pp, 2019.

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Jrd, 2020-07-08

terça-feira, 7 de julho de 2020

Também por ti




Também por ti


Por ti me fiz barco,
de ti parti,
ergui velas,
por longe naveguei…

Voltei sempre ao teu manto doce
ao rugir de cada tempestade
e sempre que muito salgado o ar fosse
e grande a saudade…

Pintei desta vida telas
que por mares deixei…

Um barco novo
para o regresso construí lá num porto longe
e também por ti…

2012-07-12

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-07-07

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O caminho é em ti!




O caminho é em ti!


Entra, eu te abro a porta,
o templo é de silêncio,
esta luz de sul te amorna,

senta-te,
deixa que o momento
te eleve,

e leve
doce
e leve,

deixa os sentidos,
descansa,
o caminho é em ti!

2015-08-10

in Fiat Lux (no ano da Luz), 90 pp, 2015.


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Jrd, 2020-07-06

domingo, 5 de julho de 2020

Cientista, ele espera (Olhando Peter Higgs)


Peter Higgs, Professor Emérito  da Universidade de Edimburgo, Prémio Nobel da Física em 2013.
(Este poema escrito em 2012).


Cientista, ele espera
(Olhando Peter Higgs)


Ele espera…
Da esperança
ele espera…

Tem o tempo do mundo,
a luz da manhã, do sonho,
do Sol ao pôr-se…
Porquê?
E se…
À Lua, espera à noite, que ele espera…
Apeadeiro com bucha no caminho
em que se refresca e espera…
Viu sem em concreto ver,
num rabisco de papel,
numa fórmula,
num número…

Por essa fórmula
ou por esse número
tem que assim ser
aquela coisa,
pois se…

Porquê?
Poema…

Ele espera…

2012-07-05

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), Ed. Forinfor, 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-07-05

sábado, 4 de julho de 2020

Teus olhos assim tão tristes





Teus olhos assim tão tristes

  
Teus olhos assim tão tristes
imaginando, do medo,
a fome de amanhã,
de um amanhã
perto…,

que a fome de hoje ainda tu a enganas
nas demoras da respiração suspensa
até ao dia de receberes,
tu ainda recebes,
menos, sim, menos,
mas tu ainda recebes…

Que vão indo os teus filhos,
tu tens filhos,

os meus filhos, dizes tu para ti
baixinho,

e a casa que também ela vá indo,
porque sem filhos e sem casa
tu não és,

que vão indo
e tu ficas…

Ficas tu
com os teus olhos assim tão tristes
temendo a fome de amanhã,
essa fome dentro de ti
como eu também a sinto,
talvez uma outra fome,
dentro de mim…

2012-09-14

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), Ed. Forinfor, 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-07-04

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Regresso a casa




Regresso a casa


Matemático,
números e fórmulas,
gráficos e traços
de rigor,
porquê?

Informático,
números e códigos de linguagens
em programas encadeados,
processadores e placas,
porquê?

Poeta,
palavras e versos,
imagens concretas e difusas com laços
alargando fronteiras,
porquê?

Regressas à noite a casa
com traços,
linguagens
e laços,

sem fronteiras,
quase cansado,
disperso, louco.

Onde é a tua casa?

2012-10-17

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), Ed. Forinfor, 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-07-03

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Luzes de outro marear




Luzes de outro marear


Quando muita é a poeira
que ensombra a caminhada
e a própria liberdade,
mesmo que leve aragem a leve
mas que enreda
o que raiz é
e perene,
fixo o olhar
quer em troncos sólidos,
mesmo que já desfolhados
mas agarrados ao chão,
quer em bustos
de homens levantados
no campo
e na cidade,
luzes
de outro marear…

2012-10-08

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), Ed. Forinfor, 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-07-02

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Mulher da noite




Mulher da noite


A cidade passa indiferente por ti,
És agora mais uma no corredor frio da noite,
Às vezes já do próprio dia na incerteza de cada noite,
E homens de olhar perdido no andar cinzento
Tomam-te como se tomassem um castelo,
Mas não é a ti que tomam os homens…
Eu sei que tu apagas a luz, a tua luz,
E escondes o coração na penumbra do leito
E assim o teu castelo fica a salvo,
Que isso a vida logo to ensinou…
Aliás, nem serão homens
Os que te tomam,
Serão apenas corpos, pedaços de corpos
Que no teu corpo entre gemidos e talvez risos,
Ou talvez choros,
(Choros que tu,
Acendendo a luz por momentos,
Sossegas então em colo e peito de mulher),
Os que te tomam serão, digo eu,
Os que querem esconder-se
Dos infortúnios dos combates dos homens
Na transitória ilusão de vitória…

Depois, mulher da noite,
Depois tu voltas a acender a luz
E já não és corpo, serás filha, serás mãe,
És mulher entre gente talvez vendida da cidade…

José Rodrigues Dias



in Antologia de Poesia Contemporânea, Entre o sono e o sonho, vol. III, Chiado Editora, 2012.

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Jrd, 2020-07-01

terça-feira, 30 de junho de 2020

O Livro dois do Diário Poético (2012 - 2016)




Notas do Autor


O segundo volume, este Livro dois, do Diário Poético que o autor decidiu publicar, por semestres,  contemplando o período de 2012 a 2016, inclusive, num total de dez volumes.

O Livro um, publicado em 2018, é constituído por um conjunto de 154 poemas, sendo o décimo livro de Poesia do autor.

Este Livro dois é composto por 156 poemas, um número praticamente igual ao do Livro um, apresentados também por ordem cronológica.

Entre estes dois primeiros volumes deste Diário Poético (2012-2016), foram publicados sete outros livros, uns de índole diarística, iniciando séries, outros organizados por temas. Assim, por publicar, muitos outros livros.

Neste volume, como no anterior, há poemas que já haviam sido publicados em outros livros. Deles se dá conta através de um índice referenciando a respectiva obra onde primeiro viram a luz.

O contexto deste Livro dois é de um tempo difícil, de crise política e económica graves, quer a nível nacional, quer internacional. Muitos poemas disso dão conta.

Curiosamente, é publicado num tempo também deveras crítico, num contexto de pandemia avassaladora, por via do Covid-19. O último poema (Outro futuro), que o autor decidiu colocar na contracapa, poderia ser pensado e escrito, em termos genéricos, nos dias de hoje.

Muitos dos poemas, aqui revistos, foram sendo publicados no blog de Poesia do autor Traçados sobre nós, iniciado em 10 de Novembro de 2011.

Os poemas que já haviam aparecido em outros livros não foram aqui modificados (salvo, eventualmente, algum pequeno pormenor).

Tal como em todos os outros livros publicados, exceptuando os dois primeiros, de 2010 e de 2011, é do autor todo o trabalho, excepto o acto de impressão. Assim, todas as falhas são da sua responsabilidade. Se algum mérito houver, é fruto da vida, dos caminhos pelo autor percorridos. Juiz, o Leitor o dirá.

Este Livro dois é o quarto livro publicado em 2020. Gostaria o autor de publicar bastantes mais, fruto da sua escrita diarística, estando já globalmente organizados.

Seria, neste ano de 2020, como que uma simbólica comemoração dos dez anos de actividade literária publicada, o primeiro livro de 2010, depois de uma vida dedicada a fórmulas e números, a computadores (hardware e software), ao ensino e à investigação, com traços nestas áreas reconhecidos nacional e internacionalmente.


José Rodrigues Dias, 2020-06-14


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Jrd, 2020-06-30

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Pôr-do-sol




Pôr-do-sol


Se o Sol fosse a medida de todas as coisas,
Como um ser nada seria o homem na praia em pôr-do-sol…
Como o Sol diria que a mulher seria igual ao homem
E igual seria a criança brincando na praia aos relógios de Sol…
Se o Sol os três diferentes olhasse, como ele assim escolheria
A criança brincando pura ao Sol sem o pensar em sombra…

Mas não!
O homem diz-se a medida de todas as coisas…
Das coisas que são, enquanto são,
Das coisas que não são, enquanto não são…

E há homens, pequeninos homens, inebriados que estão
Por um simples raiar dourado efémero do Sol,
Que pensam que são uma medida maior
Que a medida dos outros homens…
Oh Sol, que pequeninos homens que eles são
Assim em ser nada ao te ver assim neste pôr-do-sol…


 J. Rodrigues Dias


in Poiesis, Ed. Minerva, 2010.

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Jrd, 2020-06-29