segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Infante

 


Infante

 


Levanta-se do promontório o Infante

sobre todo o mar…

 

O que podia ser

 

(meros, belos sonhos,

novas gentes e fartas terras,

longe, lá muito longe, do outro lado,

escritos com lágrimas e caravelas

os caminhos traçados em ondas

partindo de uma nesga de terra

ouvindo o mar a cantar,

e a chorar,

o homem de olhar grande

e indómita a gente),

 

o que podia ser

foi,

foi para sempre!

 

2012-03-25


* * * 
In José Rodrigues Dias, Avistamentos de mares, Primeira viagem (Trilogia), 216 pp, 2019.

* * * 

Jrd, 2020-08-10


domingo, 9 de agosto de 2020

Olhar de flor




Olhar de flor

 


Sombras de nuvens de algodão.

De Verão, a tarde quente.

Branca, a flor ergue o seu olhar!

 

Pétalas como lábios

ressequidos molhados,

o olhar mui cândido!

 


José Rodrigues Dias, 2020-08-09


sábado, 8 de agosto de 2020

Dói o peito

 

 

 Dói o peito


Dói o peito,

a chama consome,

pouco feito...


Arde um País,

exausto o bombeiro,

arde uma raiz...


A lágrima escorre

em silêncio,

o fogo não morre...


2017-07-26


in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, 278 pp, 2019.


* * *

Jrd, 2020-08-08

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Eu, carrinho de linhas, e tu, ipad…



Eu, carrinho de linhas, e tu, ipad

 

 

Eu, carrinho de linhas,

e tu, ipad

E, eu to digo, outra geração já lá se perfila

no caminho que se segue…

 

O mesmo homem

a nascer

e a morrer

(cabeça tão insegura

que de tão frágil tanto se curva

e tomba

e só pelo que faz perdura…)

e tão diversos os materiais

e a construção dos caminhos

e aqueles sinais de fumo das fogueiras

de tempos antigos de guerra e paz

e agora todos estes sinais

de comunicação

 

que já não se faz

com o andar das rodas dentadinhas

e tão certinhas

como eu as fazia

nos meus carrinhos de linhas

de elástico e de sabão

que subiam qualquer ladeira

com a força da torção que ia

até onde ia a imaginação…

 

Era eu  assim,

um pequenino menino aprendiz

em construção…

 

Porém, os mesmos eram os sonhos

cristalinos e puros

da criança que eu então era

e que estavam naquele carrinho de linhas

e os sonhos que estão no teu ipad

 

E as mesmas são as bolinhas

de sabão

fazendo-se e desfazendo-se

em arco-íris

no mesmo enlevado olhar

de meninos

a sonhar

num dia como este de verão…

 

Tu num caminho em construção,

eu, olhando, saboreando o tempo

em maturada e pura deleitação…

 

2013-08-05


in José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão, 152 pp, 2017.


* * *   

José Rodrigues Dias, 2020-08-07

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Hiroshima num dia assim




Hiroshima num dia assim


(A incluir, brevemente, no vigésimo livro de Poesia)

 

 

Hiroshima num dia assim

morreu...

Violentamente sobre ela se abateu

uma tal tempestade

sem tempo nem palavras para a nomear

e um enorme cogumelo logo cresceu

que nasceu brutalmente de uma fórmula bela

tão ingénua e singela

feita ali tão diabólica por uma guerra

que sua intrinsecamente não era…

Mas sua foi e foi para sempre

e destruiu tudo quanto Hiroshima era

e depois noutro dia o que era Nagasaki…

 

Ficou um deserto de fantasmas em quarteirões,

não de areias reluzentes à luz

nem de um qualquer sinal de verde de um oásis…

 

Ficou só um deserto sem fim

de cinzas tão cinzentas

quanto frias trevas

com cheiro a tanta e a tanta morte

naquele calor de inferno

num dia assim…

 

E tu, fórmula bela,

quão bela, oh Einstein!,

tão elegante quanto potente e singela,

redime-te hoje,

em cada dia assim,

em cada dia,

numa enorme explosão

de um milhão bem acrescido de abraços

crescido

deste meu sentido abraço!

 

2013-08-06



José Rodrigues Dias, 2020-08-06



quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Pai




Pai 


Quando me perguntava, Pai,
o que dizia a canção que no rádio ouvia,
eu pensava,
naquela nossa terra e tempo,
que me perguntava
pelas palavras da tradução
que eu numa terra longe aprendia
com os calos de cada sua mão,

mas ontem,
só ontem, Pai,
naquele silêncio de sala cheia, liberto,
ouvindo cada canção
eu pensei, lá longe, que talvez não,
que talvez o senhor se referisse
ao que estava dentro, ao poema,
àquela poesia que se desprendia
sem palavras,

porque a poesia é de todos,
é livre, concreta e difusa,
e mesmo sem palavras flui,

e flui livre
como lágrimas inesperadas,
meu Pai!...

2013-10-26


in José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão, 152 pp, 2017.


* * *   

José Rodrigues Dias, 2020-08-05


terça-feira, 4 de agosto de 2020

Regresso ao silêncio





Regresso ao silêncio


Sento-me agora aprumado atrás,
norte ou sul, o lado da luz agora tanto faz,
e ouço cada vez mais calado
como já quase um ancião à tardinha
em pequeno morro olhando o vale
quase só consigo falando
(tão inúteis tantas palavras…),
interrogando as luzes, a Luz,
Deus de vez em quando
e quando o Sol se põe
(digo quase ancião por o seu saber não ter,
nem o poderia ainda ter,
pois se nem idade
nem aquele seu cabelo branco
e tão pequenino ainda o morro atrás)…
  
Antes, no início e mesmo depois,
não falava, era o silêncio, era eu nada,
que falar não podia por ainda não saber
(e um homem tantas vezes pensa que sabe,
tanto homem que pensa saber e não sabe…),
antes, repito, calado e tanto por entender,
palavras e sinais de outras vidas e vias
de que eu ainda não sabia nem via,
apenas dúvidas e interrogações
que então em sombras sentia…

Regresso agora ao silêncio
que de outro lado me ensina
e com ele reaprendo
e me purifico,
ouvindo-o…

2013-01-24

in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, 278 pp, 2019.


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Jrd, 2020-08-04

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

De sonho me fiz canção





De sonho me fiz canção


Quis subir as escadas da Cidade
gradeada
e subir não pude
de tão fechada
e cerrado que estava o País…

Então, de sonho fiz minha força
e uma canção de madrugada soprei
e vento livre eu me fiz
e da grade rija apertada
os nós desfiz
em nada
e entrei…

Dentro da Cidade,
na raiz
soltei a liberdade
e o País…

2012-09-19

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-08-03

sexta-feira, 31 de julho de 2020

O belo




O belo


Olha o simples:
nele, desnudado, sem enfeites, puro,
o belo profundo…

2020-02-13

in José Rodrigues Dias, Poemas confinados (2020, Janeiro a Abril), 148 pp, 2020.


Jrd, 2020-07-31


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Niebro, zimbro


Amadeu Ferreira, Fracisco Niebro,
Homem notável (1950/07/29 - 2015/03/01).
(Imagem da Net).


Niebro, zimbro 


Homem, rijo que nem zimbro antigo
em solo ardente ou em gelo ao vento,

origem de tanto caminho
de tanto e diverso destino,

inteiro
é
de pé,

mesmo se de lágrimas
e de silêncios
e noite em certos dias…

Mas se num instante o pé se perde
e do todo vai ficando apenas parte
e depois um aparentemente nada,
o homem, matéria, pequeno parte,

mas indo ainda assim de caminho,
embora outro o caminho, indo sem ir,
indo sem vir, e quase devagarinho…,

e na  mão fica aparentemente um  nada
mas o tempo sábio pelos ventos perfuma
todos esses caminhos e destinos da arada
onde o Homem inteiro é e não se esfuma…

Sim, niebro tu te fizeste de um nada,
os caminhos de fragas em tua arada…

2015-03-01



in José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão, 152 pp, 2017.



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José Rodrigues Dias, 2020-07-30