quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Outro futuro

 


Votos para todos de um Feliz Ano Novo!

 

Outro futuro


Fim de ano

de meses longos,

longo ano,

sofrido, austero,

nós e os outros…,

sombras, tanto tombo,

fugidia a luz…


Espero porvir duro

de um povo

mas o sonho é noutro barco embarcado

em mar livre sem limite do passado

e num porto colorido de futuro

com farol de luz sapiente

de nobre gente,

novo!


2012-12-31


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-31


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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Semeador de vida

 


Lua desta noite, quase luar de Janeiro. 
Votos de um Feliz Ano Novo.


Semeador de vida


Se eu te disser

que hoje semeei 

uma coisa na terra

quase vital mas tão banal 

que receio até nomeá-la

com medo, oh deuses!,

que alguma musa se ofenda

(batata, é o que é…),

tu não acreditas,

eu sei,


porque só um louco acreditaria

que eu,

aprendiz de poeta,

semeador de palavras,

tal coisa eu semearia

e logo neste tempo

assim tão cedo,

tão fora do tempo,

mas se eu hoje te digo isto,

neste findar de ano,

é porque, apesar de tudo, de tudo mesmo,

a esperança de ver (re)nascer e ser vida e viver

em tempo de marés tão adversas

e salgadas como estas

e de ser gente sobrevivente

ainda vive em mim

nesta terra

mesmo até ao fim,


e se eu assim to digo,

não acreditas?…


2013-12-30


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro quatro, 4/10 (Julho a Dezembro de 2013), 276 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-30


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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Debaixo da ponte

 



Debaixo da ponte


Ninguém sobre a ponte se demora,

margens de mundos por cima liga,

mas quem debaixo da ponte mora

sente um mundo que ali se desliga!


2014-12-29


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro seis, 6/10 (Julho a Dezembro de 2014), 188 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-29


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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Doutor

 

(O último poema do livro e do ano de 2015 e, por isso, 

aparecendo na contracapa, em excerto).


Doutor


Fina camisa limpa,

barba aparada, cabelo farto grisalho,

tempo sem idade,


com os óculos olhando, pensando,

cachimbo na mão, o porte subido, 

braço erguido, manga arregaçada


(Tens já uns óculos como um doutor,

não sei se falando sério ou apenas para me consolar,

disse, eu garoto, então o director!)


o olhar dirigido para lá,

meio escondido,

fugindo talvez ele de cá...


Um homem pelo olhar se desvia,

quem sabe de uma lágrima que escorre

ou de um sorriso que se esconde,


quem sabe da morte de um amor,

de um hábito, de um porte, de um monge,

que diz o olhar de óculos, doutor?...


(Menos eu agora vendo,

mantendo daquele tempo os óculos,

bem maiores eles sendo!).


E quantos anos o senhor tem, 

caro Doutor,

de que longos caminhos vem?


Olhando um homem pela posição,

cachimbo nobre na mão ou dentes de pobre diabo,

vendo sua cara ver-se-á o coração?


Aquele olhar de Mona Lisa

de onde vem, de onde veio, artista, mestre,

que o meu olhar paralisa?!...


2015-12-28


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro oito, 8/10 (Julho a Dezembro de 2015), 298 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-28


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domingo, 27 de dezembro de 2020

Notícias do dia

 


Hoje, a vacina como notícia do dia!


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Notícias do dia

(Poema escrito neste dia, em 2015, publicado no último livro, há dias)


Uma luz que entra, a sala limpa, o ar denso,

uma cadeira, um homem sentado, talvez o chefe,

de pé, outro, talvez empregado, porte tenso...


A claridade sobre o jornal do dia,

traços no chão de luz e sombras,

no ar o peso carregado da notícia...


Parece séria,

que coisa

aquela seria!...


De lado e de pé o de negro, sem gravata, 

debruçado sobre as letras da página aberta;

lerá ele, lerá tudo, ou verá só as imagens?


E serão imagens daquela terra,

desgraças, algum objecto voador não identificado,

uma morte, fria a nova guerra?

Talvez seja um prenúncio de Miss Mundo,

talvez um olhar vespertino nordestino,

um assunto do dia mas não, não profundo,


mas nos rostos absortos

quase a legenda:

Gente, como foi possível?


Se o Pai fosse hoje aqui vivo

o que ele deste tempo diria,

se nós assim, o que pensaria?


Que coisas no correr do tempo!

Que outras coisas por aí virão,

que voltas no mundo se darão!...


Virão decerto outros coronéis,

Jorge Amado, jangadas de pedra, fotografia, poesia,

também outros jagunços fiéis...


2015-12-27


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro oito, 8/10 (Julho a Dezembro de 2015), 298 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-27


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sábado, 26 de dezembro de 2020

Procura

 



Procura


Procuro

laços por fazer

de palavras deixadas,

pedaços de palavras,

letras rapadas

como pobre

de braços desabraçados a mexer

nos caixotes da rua 

cheios

de laços coloridos desfeitos,

restos varridos 

da ceia

da Noite de Consoada…


Procuro

também gotas por beber

de fontes 

por nascer

que hei-de ver…


2012-12-26


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-26


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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Fio de Luz

 


Votos de continuação de Boas Festas.


Fio de Luz


Sorriso de criança,

fio de Luz

de pura esperança…


2013-12-25


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro quatro, 4/10 (Julho a Dezembro de 2013), 276 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-25


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Luz no Oriente

 


Votos renovados de Boas Festas e de Esperança


Luz no Oriente


Observo atento a Luz no Oriente, expectante,

Onde aparece uma Luz de Menino nascido,

Renascido pela força da Estrela Flamejante!

Saboreio nela a sabedoria dos que já partiram,

Sinto a beleza dos sorrisos que nos deixaram

E a ternura dos pequeninos que nos chegaram.


Volto a olhar em ti o simples, o puro e o belo

E fico em profunda Paz contigo, em puro elo,

E em mim fica o fluir do teu incontido sorrir,

Amor comungado em cadeia de união contigo,

Meu bom Irmão, meu sincero e bom Amigo!


(2010-12-24)


in José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, 106 pp, 2011.


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Jrd, 2020-12-24


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Do tempo, deste tempo...

 

Votos de Boas Festas, com saúde!


Do tempo, deste tempo...

(incluído neste último livro, escrito neste dia, em 2015)


Do tempo, deste tempo,

as areias arranham meus olhos, 

endurecem meus ouvidos as bombas,

a sensibilidade ferida me insensibiliza,

até o próprio pensamento se queda

na impossibilidade que paralisa

ao não avançar o sonho...


Como deveria, não chove,

e, sem chuva, que céu!, nem pura nem impura,

nada que o tempo renove...


Mas quem sabe como o tempo se move?!...

Talvez amanhã, lá pela meia-noite, pelo Natal,

uma chuva fresca nos aqueça, nos molhe!...


Solta, agora só esta palavra

e, já amanhado, este meu arado,

no chão é que o pão se lavra…


 2015-12-23


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro oito, 8/10 (Julho a Dezembro de 2015), 298 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-23


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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

10 anos de Poesia, 24 livros publicados

 


O novo livro


Notas do Autor

 

 

Este Livro oito inclui os poemas escritos ao longo do segundo semestre de 2015, o oitavo livro do Diário Poético que o autor decidiu publicar, por semestres,  contemplando o período de 2012 a 2016, inclusive, num total de dez volumes.

 

O Livro um, constituído por 154 poemas, foi publicado em 2018. Os outros sete, até ao momento, em 2020. O Livro dois inclui 156 poemas, o Livro três, 173, o Livro quatro,  179, o Livro cinco, 168, o Livro seis, 103, o Livro sete, 110, e este Livro oito inclui 244, todos os poemas apresentados por ordem cronológica, num total de 1.287 poemas nestes primeiros oito volumes. Em média, quase nove poemas em cada dez dias ao longo de quatro anos. Curiosamente, enquanto os dois semestres anteriores foram, em termos de número de poemas escritos, aqueles em que foi menor a produção poética, foi este oitavo aquele em que foi maior.

 

Este Livro oito é o vigésimo quarto livro de Poesia do autor (o primeiro em 2010, o segundo em 2011, o terceiro em 2015, dois em 2016, dois em 2017, três em 2018, quatro em 2019 e os restantes dez, com este, em 2020).

 

Dos 244 poemas que constituem este volume, 74 já antes haviam sido publicados, repartidos por cinco livros temáticos do autor, estando devidamente referenciados através de um índice.

 

Não se pretendeu introduzir nos poemas já publicados qualquer alteração, salvo algum pequeno pormenor.

 

Escritos há uns cinco anos, os poemas ainda não publicados em livro foram agora aqui revistos, não tendo sido, porém, alterados na sua essência, sofrendo apenas uma ou outra pequena modificação. Quis o autor mantê-los como nasceram, no seu próprio contexto. Por outro lado, não foi excluído, tal como nos livros anteriores desta e de outras séries, qualquer poema encontrado, ficando, assim, o olhar integral do autor no período respectivo. Contudo, é possível que algum poema, por não encontrado, tenha sido omitido.

 

Este é também  um livro  publicado em tempo da pandemia Covid-19, feroz em segunda vaga, com restrições de índole vária, individual e colectiva. Tempo de dureza negra, um tempo de confinamentos, de distanciamentos, de separações, de penas sentidas, abafadas, choradas… É neste contexto que a presença companheira do outro, lado a lado, dia a dia, assume um significado ainda mais especial, pretendendo a dedicatória disso dar testemunho e reconhecimento. Felizmente, uma luz acaba de acender-se em esperada vacina!

 

Diversos poemas foram sendo publicados no blog de Poesia do autor, Traçados sobre nós, iniciado em  10 de Novembro

de 2011 e que se mantém até hoje, dia a dia (contabilizando, nesta data, mais de 360.000 visitas), com uma janela aberta para o Facebook.

 

Exceptuando os dois primeiros livros, de 2010 e de 2011, é também do autor todo o trabalho de elaboração deste Livro oito, excepto o acto de impressão. Assim, todas as falhas são da sua responsabilidade. Se algum mérito houver, será fruto dos caminhos, diversos, alguns longos, pelo autor percorridos. Juiz, o leitor!

 

Este Livro oito é o décimo publicado em 2020, sendo o último deste ano. Gostaria o autor de ter publicado ainda outros, resultado da sua escrita diarística ao longo destes dez últimos anos, estando já globalmente organizados.

 

Seria, assim, neste ano de 2020, como que uma simbólica comemoração dos dez anos de actividade literária publicada em livro, o primeiro apresentado publicamente em 30 de Outubro de 2010, depois de uma vida dedicada a fórmulas e a números, a computadores (hardware e software), ao ensino e à investigação, com traços nestas áreas reconhecidos nacional e internacionalmente.

 

Com uma centena de trabalhos científicos publicados, em Portugal e no estrangeiro, com milhares e milhares de linhas de código de computadores escritas, com este Livro oito o número de poemas diferentes publicados (em livros) atinge já os 2.275.

 

De números deverá saber o autor, referindo, talvez por isso, tantos! Pela quantidade, e por assim cruamente a referir, que seja perdoado. Da qualidade dos poemas saberá o leitor.

 

 

José Rodrigues Dias, 2020-12-06


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Jrd, 2020-12-22


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Sobre o solstício, dois poemas

 


Uma Feliz Quadra Natalícia!


Sobre o solstício, dois poemas, um de 2012, o outro de 2014, escritos neste dia, publicados em livros de 2020. De que poema gostaria mais? 


1) Solstício, como um povo


Neste solstício

o Sol ir-se-á reerguer

noutro reinício…


Como 

um povo

novo…


2012-12-21


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), 238 pp, 2020.



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2) O Solstício do frio e o Natal



É o Sol caindo em moita de sombras

em solstício neste norte de frio

como um moribundo triste em leito

com sua cor de vida em dor se diluindo

e seu sangue espesso correndo lento

e seu olhar turvo,


é um Sol exangue

mas é como aquele homem

com uma cruz caindo

que ouvindo

uma palavra amiga

se diz

não,

mais não!,

e logo então no cair se queda

e sua cor de morte outra logo se faz

em renovação de sangue

em purificação

que decorre de livros antigos

e de novo o Sol em luz suave se eleva

mesmo que primeiro em movimento trémulo

como ancião já quase dormente

que sentindo o calor e a chama de lareira

e um gole de mezinha antiga bem quente

lhe dá uma outra força

e fôlego para uma nova partida,


assim este dormente Sol

exangue

nesta sua fragilidade aparente

em queda

como doente

e a grandeza da vida

que renascendo se eleva

mesmo se parecendo já perdida

em poente…


2014-12-21


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro seis, 6/10 (Julho a Dezembro de 2014), 188 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-21


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domingo, 20 de dezembro de 2020

Na procura de sinais

 



Na procura de sinais


Tacteias por veredas

sem saberes 

nem por onde

nem o que procuras…


Olhas o mestre de palavras poucas,

gestos por vezes largos,

silêncios longos,

contigo e longe

em enigmas,

que te vai deixando

ora um sinal quente, um café,

ora um frio, um arrepio,

ou um talvez,

um sábio talvez

de quem talvez não saiba…


E tu, 

perdido,

entre um raio inseguro de luz

e montes movediços de sombras,

entre lágrimas retidas 

e sorrisos contidos,


em beijos e abraços solidários

libertados,


tu,

sozinho, 

só,

tu procuras os sinais

do que procuras,

do que é,

talvez 

do que apenas possa ser

numa leve conjectura…


2012-12-20


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-20


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sábado, 19 de dezembro de 2020

Outono de um povo

 



Outono de um povo


Caem roxas as folhas

de seiva mitigada

como em adormecimento

de gente de um povo 

em outono.


Que tempo este,

que deuses,

que sol, 

que poente!…


Para quando o assomo

de nova Primavera 

de um enregelado povo?


2012-12-19


in José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), 106 pp, 2016.


Jrd, 2020-12-19


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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Senhoras do Ó

 


Senhoras do Ó


O Sol da tarde enche todo o céu

mas dentro é outra a Luz.

Lou Reed deixa vazio na cidade.

O órgão enche todo o silêncio.

A Senhora tem o ventre cheio

e a mão do coração toda aberta sobre ele,

maiores parecendo os seus finos dedos.


Quase a seus pés, 

na nave central, um pouco a oriente,

a senhora, sentada, põe a mesma mão

sobre o seu ventre já em ó grande

e o olha

como a um início de sorriso

e o acaricia

ora em movimentos lentos

com a mão como a da Senhora toda aberta

ora, parando por vezes,

apenas com a ponta dos seus dedos

ligeiramente encurvados, docemente,

como se acariciasse dentro um cabelo

ainda pequenino e frágil…


O órgão enche o grandioso templo

e aquela mão do coração todo o tempo

cobre de pura ternura o pequeno templo

gerado em forma de um ovo e de um ó,

poema sagrado aquele momento

de enternecimento,

profana é qualquer palavra…


2013-10-27


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro quatro, 4/10 (Julho a Dezembro de 2013), 276 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-18


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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Francisco (o Papa, em dia de aniversário)

 

(Hoje: 84 anos)


Francisco

(o Papa, em dia de aniversário)



Francisco,

sais à noite…


Uns vivem a rua bela,

tu velas

a rua deformada

doente

e quem vai morrendo nela…


2013-12-17


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro quatro, 4/10 (Julho a Dezembro de 2013), 276 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-17


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Templo

 



Templo


Deixo o chapéu à entrada,
coisa 
de tempo antigo.
Sento-me.
Sinto o silêncio suave
na semi-luz
que é luz mais forte
no oriente
do altar.
O profundo livre emerge
devagar,
imponente!

2012-12-16

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro dois, 2/10 (Julho a Dezembro de 2012), 238 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-16

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Campo largo e depois

 

(Continuando a publicar um dos poemas escritos neste dia, este em 2013, 

e já publicado, este em livro de 2020).



Campo largo e depois


Depois do campo largo

largo

que nem imaginas,


tu dentro de quatro paredes com uma janela estreita

à frente de outras janelas estreitas como a tua,

quem sabe se sombria a luz, de Inverno,

e tu, talvez, ouvindo sons roucos de pássaros presos

numa televisão falando por falar, sozinha,

como um sem-família durante o dia

em casa vazia,


(olha, dizem que o campo fora antes de trigo

quando o campo era trabalho e pão

e um ao outro dava a mão,

irmão),


depois do campo largo

largo

que nem imaginas,

onde sou súbdito e senhor,

volto agora a esta oficina

que feita de liberdade

é quase prisão,

libertado, fechado, libertado,

onde a palavra

é um ser presente, omnipresente,

que, ainda assim, vai amadurecendo

fermentando como o pão

mesmo sem o calor do Sol aberto

do campo largo

largo

que antes fora seara

ao Sol

aloirando

pão

na mão!...


2013-12-14


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro quatro, 4/10 (Julho a Dezembro de 2013), 276 pp, 2020.


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domingo, 13 de dezembro de 2020

O Luís e o Natal

 


(Escrito neste dia de Dezembro, há seis anos, publicado no penúltimo livro deste ano; a foto do Luís é do fim de de Outubro).


O Luís e o Natal



Habita o Luís a rua e a rua o habita,

assim coabitam, comum a sua mala

que é um móvel na rua, cama e sala…


Eu subi à cidade, meu relógio parara,

o tempo me iludindo já me enganava…


Subi a rua que se queixava,

na rua o Luís, o Beato Salu,

que habita a rua que é sua,

eu apenas por ali passava…


Passando, parei:

um sorriso seu todo se abrindo

e a mão aberta se dando,

eu largo sorrindo

logo lhe falei…


Luís, então?


Respondeu-me sorrindo com a mão,

nem sim, nem não, a mão abanando…


Que haveria ele de me dizer,

que haveria eu de lhe dizer?...


Cuide-se!, e então de novo caminhei,

o meu relógio antes se parara,

doce seu olhar mais me ficara,

ali mais fundo eu em mim o guardei…


Entretanto, vai chovendo na rua

e o vazio vai-se enchendo de frio

enquanto a luz já se vai esvaindo...


É tempo de Natal com este vazio

assim frio subindo, a noite na rua caindo,

o Luís pensando, ali me sorrindo…


2014-12-13


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro seis, 6/10 (Julho a Dezembro de 2014), 188 pp, 2020.



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sábado, 12 de dezembro de 2020

Abrindo o caminho

 


(Escrito neste dia de Dezembro, há sete anos, publicado em livro de 2020; foto, curiosa, de hoje).


Abrindo o caminho


Aprendiz sou

de ser,


sou quem tem de se fazer,

quem tenho que ser

a aprender

abrindo o caminho

descobrindo palavras

novas

e velhas em covas encobrindo!


À noite,

uma luz difusa

e o sabor de uma maçã,

talvez de uma romã,

não de paraíso,

do caminho…


2013-12-12


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro quatro, 4/10 (Julho a Dezembro de 2013), 276 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-12


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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Nadir, artista

 


Nadir, artista

(Escrito no dia em que faleceu Nadir Afonso)


Artista que parte,

tela que começa

para outro continuar

e assim se impeça

a arte

de parar…


2013-12-11

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro quatro, 4/10 (Julho a Dezembro de 2013), 276 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-11


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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Espiritualidades

 



Espiritualidades



Ergo os braços,

te abraço

e fazem-se laços,


de apertados laços

sentida se faz a paz,


a luz interior

suave 

adoça o ardor,


de finos laços

eu relaxo,

de suave a luz 

me refaço…


2014-12-10

in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016), Livro seis, 6/10 (Julho a Dezembro de 2014), 188 pp, 2020.


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Jrd, 2020-12-10


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Retirada

 


Retirada



Retirada da gente em carreiro

ao correr do mar,

carreiro mesmo de formigas

antigas

agora mantido,

formigas mesmo precavidas

no cesto do pão

à cabeça

e na mão,


o coração…,

quem poderá falar da razão de cada um

e do coração todo da gente

em carreiro de retirada

em tarde ou manhã da vida

quando em cada dia

é igual o dia todo

com todos os tons de cinzento

e apenas uma sombra clara de luz

assoma quase envergonhada

de um céu que se esconde…,


e os passos marcados

na areia

logo também eles desfigurados,

figuras instáveis

sem rostos

de grãos de areia fugidia

por entre os dedos

talvez frios de um suor de medos,

um quase nada

em tempo de tudo quase nada,

talvez sinais rasteiros de algum deserto

em caminho com um pequeno oásis perto

onde a alma ainda assim descanse

por fim

liberta

das folhas

de um outono…


2013-12-09


in José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, 178 pp, 2016.


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Jrd, 2020-12-09


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domingo, 6 de dezembro de 2020

Madiba

 


Nelson Mandela, falecido a 5 de Dezembro de 2013. 
Poema do dia seguinte.


Madiba


Hoje, no terreiro grande,

nesse misto de comoção e festa,

homens de olhares coloridos

te sentem e cantam

livre sem cor

com sorrisos

sem dor

de ti preso nascidos,


é o nosso canto

de encanto

libertando amor

durante a tua sesta,


é comoção

feita quase festa

de humana libertação…


2013-12-06


in José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, 178 pp, 2016.


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Jrd, 2020-12-06


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sábado, 5 de dezembro de 2020

O sentido do caminho

 



O sentido do caminho

 

 

Caminho,

chamo as palavras

sozinho,

 

assim perto as sinto

e melhor as entendo

e lhes pergunto

tu cá tu lá

como foi o início

e como será

o fim,

o destino,

o sentido do caminho…

 

2015-01-15

 

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Jrd, 2020-12-05


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O vigésimo terceiro livro...

 



O vigésimo terceiro livro...


Contracapa do vigésimo terceiro livro que acaba de ser publicado com a badana dos livros antes publicados.

O poema da contracapa, por critério definido, é o primeiro deste "Livro sete", o primeiro do ano, contendo os poemas escritos no primeiro semestre de 2015, continuando o "Diário Poético (2012-2016)".

Amanhã, a capa e a badana relativa ao autor.

As capas dos livros anteriores podem ser vistas no lado esquerdo do blog.


Jrd, 2020-12-03


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Sem caminho?

 

  

Sem caminho?

Fá-lo,

fica-te  feito

como este rego

que eu faço

para a água da chuva

não se perder

e ter destino

 

(tu não a sentes, pura,

na terra macia caindo?),

 

cada gota florindo

em seu tempo, todo o tempo,

num fruto maduro…

 

2015-01-02



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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O poema denso

 



O poema denso

(Escrito neste mês e dia, em 2013, em livro de 2019)


Não haveria tempo nem espaço

nesse instante por começar

de uma singularidade

com traços sem memória

e o poema, então, seria nada e tudo

em que o verbo disperso

seria coração uno

de um vermelho puro

num só ponto infinitamente denso

talvez de um enorme multiverso

contido numa fórmula ainda por descobrir

mas talvez muito simples

antes de se ter escrito o primeiro esboço de verso

deste nosso universo cheio de quase nada

que agora arrefece…


Acontece tudo logo no big bang

quando o poema denso

do buraco negro daquela noite etéreo se abriu

e no mar floriu

em versos de vapor de água leves

mas quase sempre muito breves

no tempo que agora cresce

sem quase prova de anti-matéria

e quase já sem matéria

que logo escorre da palma da mão

como pó fino de areia

ao entardecer

quando o Sol como Poeta vai à procura

dos cabelos da sua sereia

e com a ternura dos homens os acaricia

em momentos de pouca dura

e de nostalgia…


2013-12-02


in José Rodrigues Dias, Avistamentos de mares, Primeira viagem (Trilogia), 216 pp, 2019.


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Jrd, 2020-12-02


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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Olhando Túlio Espanca (e ouvindo Eduardo Lourenço com Florbela Espanca)

 

(Vista parcial dos claustros da Universidade de Évora)

Túlio Espanca, Doutor Honoris Causa (Universidade de Évora, 1990)
Eduardo Lourenço, Prémio Vergílio Ferreira (Universidade de Évora, 2001)



Olhando Túlio Espanca

(e ouvindo Eduardo Lourenço

com Florbela Espanca)


É fim de tarde, quase a noite,

tu olhando ainda pensativo, quase distante,

os claustros da velha universidade,

eu olhando-te…


(Ali ao lado, daqui a um pouquinho,

vai estar o Eduardo Lourenço e nós,

nós, os outros…).


É quase noitinha

mas o branco da cal ecoando pela planície

reflecte ainda tons emergentes da mesma luz

que te guia sempre na busca dos ocultos

para lá da pele difusa dos homens

e das paredes das coisas

dormentes...


Que venha de lá a noite

(digo eu, sozinho, olhando-te)

que a luz ainda assim não se irá,

as letras e as cores não morrerão

nem os números nem as fórmulas

nem em sentido nem em forma

e tu (eu sei) não te vais

(e o Eduardo Lourenço já aí vem…),

tu de rocha

como a tua Florbela,

fino mármore de Vila Viçosa e Estremoz…


(Sabes, ao lado, daqui a nada, na mesma sala,

está quase, quase…,

o Eduardo Lourenço e ela, e nós,

e o neo-realismo e a poesia

e outras coisas que o tempo

nestes momentos sempre nos traz

quando o pensamento se encontra pelos rios 

e pelos afluentes se perdendo…).


(Olha, o Eduardo Lourenço já chegou,

veio e cumprimentou-nos,

vem daí tu também…).


2015-01-30


in José Rodrigues Dias, Fiat Lux (no ano da Luz), 90 pp, 2015.


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Jrd, 2020-12-01


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