quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ninho num dia assim...




Ninho num dia assim...


Trabalho duro,
o Sol subindo, o céu limpo,
o suor em tanto minúsculo pingo
saindo de cada poro já sujo
que a sebe
não é propriamente um muro,
crescendo a sede...

Óculos sobre os óculos,
uns clarificando a visão
e outros ofuscando a luz
como prevenção,
fazendo bem
e mal
como qualquer remédio

(não leia a bula,
dizia,
dizia
não leia a bula...)

(e eu ora queria
ora não queria)...

Sem saber ao certo
onde mora aqui a virtude
entre o não ler
e o ler,

na sebe,

de espinhos, de pyracantha,
bolinhas vermelhas, laranjas,
de uma pequena flor branca,

bem no meio da sebe
bem lá dentro
um ninho
como cestinho de passarinhos
que à vida
um dia pelos céus se fizeram,

não, passarões não,
não eram,

eram passarinhos
como meninas e meninos lindos
então pequeninos...

Os passarinhos feitos homens onde andarão?
A esta sua casa voltaram?
Emigraram, sós? Casaram?
Filhos, netos? Com os netos, um dia voltarão?

Aqui, paro. Emoção!
Lembro-me da minha casa...
Sim, um dia, voltarão!


José Rodrigues Dias, 2016-08-23

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Ramos de louro e bagos de azeitona




Ramos de louro e bagos de azeitona


Acordar no campo
e ver ao fundo a cidade,
ramos de louro e bagos de azeitona...,
o trabalho e a liberdade,
olhar e ter encanto...


José Rodrigues Dias, 2016-08-22

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Louros





Louros


Uma bola,
com ela se ri
e se chora...

Os braços erguidos
na linha de meta
ou caídos, de gatas...

Chegadas de partidas,
louros de vitórias
nas cabeças erguidas...


José Rodrigues Dias, 2016-08-21

domingo, 21 de agosto de 2016

Calor de verão





Calor de verão 


Se o calor de verão
te oprime,
um dia descomprime
um frio
certo,
absoluto...

No equilíbrio da vida
antes este calor
mesmo que avassalador
a esse frio...

Então, deixa o tempo,
bebe um copo de água
mesmo sem sede
e mesmo a água não estando fresca
e guarda-te numa sombra,

uma sombra de figueira,
talvez tenha algum figo já maduro,
ou uma sombra de freixo
perto de um ribeiro
ou até de uma sombra de azinheira,
sereno o céu,
descoberto,
ela e tu ali sozinhos
cada um à sua maneira,

guarda-te na sombra
e olha o momento,
olhando-te...


José Rodrigues Dias, 2016-08-08

sábado, 20 de agosto de 2016

O sonho e o ser




O sonho e o ser


É de noite, já é muito noite,
retorno a casa, o caminho a pé,
a hora certa sempre incerta...

Desço a rua,
suave a descida, ninguém,
olho o sinal...

Direitinha, a seta principal
aponta para a Lua enorme, cheia,
em cima, bem para o meio...

Minguado, bem na perpendicular,
no lado direito, a minha rua,
o caminho de casa, o de sossegar...

Pergunto-me
o que quer insinuar o sinal,
olho-o, nada...

Olho para mim.
Aqui e além, sinto a noite.
Penso num fim.

Neste chamamento renovado da Lua,
as ruas da Lua ávidas sempre de nós,
sigo hoje, contudo, para a minha rua...


José Rodrigues Dias, 2016-08-19

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A formiga




A formiga


Olho o quadro
alinhavado de amarelos
em traços largos
como toalha de outro tempo
bordada 
sobre a mesa da sala:

por um lado,
à boca da cena,
do lado esquerdo,
numa das cinco pétalas
da flor de hibiscus,
elas, as pétalas, enormes
e que amarelas!,
uma formiga
como nódoa negra
sobre o belo
do pano puro colorido
da fotografia;

por outro,
outro o olhar,
minúsculo o ponto negro,
negro de minúsculo
e minúsculo de negro,
destacando o quadro todo,
impressionante,
dominador
como a antena em multipolo
lá bem no centro da flor,

linda que ela é!...,
amarela!...,
que linda!...,

salta a pergunta em silêncio:
como,
a formiga ali, negra,
como?


José Rodrigues Dias, 2016-08-14

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Uma concha




Uma concha


Metade de concha

(metade é como fractal,
a pergunta sempre me embaraça...,
é uma repetição, igual?),

a concha repousa 
sobre a relva doce de verão
bem acima do mar.

Que mão a fez,
de que ideia brotou,
como cresceu,

quanto tempo andou
e que caminho percorreu
até que aqui chegou?

Deleite do meu olhar,
que coisa, que construtor
assim a poderia criar?...

De tão bela, peça única,
aqui a guardo e preservo e exponho
para apreciação pública...

Fico a pensar no número de ouro,
erguendo os olhos, o olhar aqui e longe,
nessa divina razão já dos antigos...


José Rodrigues Dias, 2016-08-17

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sabor da maresia...




Sabor da maresia...


Uma porta que se fecha
ao pôr-do-sol no mar
e uma outra que se abre...

Depende de nós o dia,
o fruto de cada olhar
e o sabor da maresia...


José Rodrigues Dias, 2016-08-17

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A rola e o mar





A rola e o mar


Cedo canta a rola
no pinhal
enquanto o mar
se desenrola
em mantos de espuma
na fina língua de areia
onde docemente
se enleia
quase languidamente,
deambulante...


Deleites
e lengalengas
de vidas...


José Rodrigues Dias, 2016-08-16

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Os cães, os livros, a vida...





Os cães, os livros, a vida...


Correndo contra o fogo
salvou cada animal,
cada cão,

os seus livros não,
arderam com a casa
e nela a vida, sim,

a vida
de professor
olhando por fim,
tranquilo,
tranquilamente,
cada nascer
e cada pôr-do-sol...

Os seus livros não,
todos arderam,
ardeu sua vida, sim,

era cada seu livro
uma bucha
de pão...


José Rodrigues Dias, 2016-08-13