quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Cor de negro por todo o chão




Cor de negro por todo o chão


Cor de negro por todo o chão,
as árvores, tições altos de pé, ressequidos,
e os corpos, tombados, carvão... 

Parado o movimento, 
perdido o olhar vendo o que não quer ver,
o fim de tanto tempo...

E recomeçar 
como..., se no andar, já vergado, o tempo
é de terminar...


José Rodrigues Dias, 2017-10-17

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Nesta imagem do rio




Nesta imagem do rio


Nesta imagem do rio
a viagem,
o tempo em corrupio...

Livre, olhando, bordas do caminho
de pedras e de penhascos
que passos sulcam querendo macio...

E ao de leve na imagem do rio,
em reflexo da água que corre e nos traz e nos leva,
ei-la presente, eis a companhia...


José Rodrigues Dias, 2017-10-13

Árvores sem canto, o desencanto



Árvores sem canto, o desencanto



Pela Primavera nestas árvores
não se farão mais ninhos,
os pássaros gostam dos verdes...

Destas árvores pelo Outono
não cairão mais folhas
nem no Verão se verão frutos... 

Daqui em diante
do inferno nestas árvores será 
sempre inverno...

Nestas árvores
um incêndio, uma coisa louca, de loucos,
secou as seivas...

As próprias lágrimas
da gente de passo já lasso o incêndio
de dor funda as secou...

De todas estas árvores
nunca mais, nunca, jamais
haverá frescas sombras...

E árvores agora aqui para quê
se tanta gente, de negro, cor de morte, deixou de viver
como acontecera aos pássaros...

De um canto 
de pássaros em liberdade
o desencanto...


José Rodrigues Dias, 2017-10-17

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A chuva e a mãe-sorriso


Contracapa do livro:
Chão, da Terra ao Pão (2017)

* * * 

A chuva e a mãe-sorriso


Quando finalmente a chuva começa a cair
pela madrugada
no silêncio do bulício
é como se a sentisse
a acariciar levemente a terra seca do tempo
carente
humedecendo-a devagar,
pura e doce,
sem pressa,
continuadamente,
penetrando-a com o sentido do sagrado
para a fecundar
e ser outra vez mãe
e sorriso,
leite e pão,
regaço de rosas,
aberta a mão,
mãe-sorriso…

2013-09-26


* * *

José Rodrigues Dias, Chão, da Terra ao Pão, Ed. Forinfor, 2017.

* *  *

José Rodrigues Dias, 2017-10-17

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Homem, digamos assim





Homem, digamos assim


Olha tu límpido o azul aqui do céu,
tu que pareces ser racional, Homem, digamos assim,
e nele mil flores vivas cor de vinho...

E olha agora por todo o lado 
os vermelhos negros do fogo e do fumo, o negro negro
que tudo deixa tão desolado...

E imagina, então, a tranquilidade 
dos verdes do campo, fim de tarde, crianças brincando,
saboreando juntos a fraternidade...

Simples?
Sim,
simples!


José Rodrigues Dias, 2017-10-16

Bombeiro




Bombeiro

(Escrito em 2013, incluído agora neste último livro).


José Rodrigues Dias, 2017-10-16

domingo, 15 de outubro de 2017

Chão, da Terra ao Pão




* * *

Nota do Autor

 
Este é o sétimo livro de Poesia, os dois primeiros publicados em 2010 e 2011 (Braços Abraçados eTraçados Sobre Nós), o terceiro em 2015 (Fiat Lux (no ano da Luz)), o quarto e o quinto em 2016 (Tons e Sons de Primavera(s) e Poemas daquém e dalém-mar) e o sexto (Poemas em tercetos simétricos, diarísticos (Janeiro a Março, 2017)) em meados deste ano.

A Poesia surge em fase já tardia e até inesperada da vida, feita de muitas fórmulas, integrais e optimizações, de bits e bytes sem conta, integrados também  em longo contexto  empresarial criado, aqui presente, computadores feitos, desfeitos e depois refeitos, postos no seu caminho a andar, programados, para além de uma carreira universitária que culminou com a atribuição de um prémio internacional por trabalho científico publicado, em 2010, e com o título de Professor Emérito da Universidade de Évora, em 2011.

 Este é, acima de tudo, um livro de imagens e de ressonâncias vindas de um outro tempo, de um caminho andado, fora e dentro de mim, longo, lá de muito longe, um figo pelo caminho, trazendo, assim, também aqui, bem viva, a lembrança e a vida de meus Pais, a quem dedico o livro (a quem, associando-lhe o meu Filho, havia já dedicado a minha Tese de Doutoramento, em Ciências Matemáticas, em 1987).

O livro é constituído, entre outros possíveis, por um conjunto de oitenta poemas, por ordem cronológica, escritos entre Julho de 2011 e Março de 2015, em que a ideia de Chão, de Terra e de Pão, explícita ou implicitamente, estão presentes.

Muitos poemas passaram pelo blog de Poesia Traçados sobre nós, alimentado por mim diariamente desde fins de 2011, com referências no Facebook, sendo esta, porém, a primeira vez que são publicados em livro, tendo um ou outro agora sofrido pequenas alterações, quer no conteúdo, quer na forma.


José Rodrigues Dias, 2017-09-20

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José Rodrigues Dias, 2017-10-15

Elementos e lembranças de garoto



(A propósito, hoje, de uma notícia relativa à extrema seca, um poema do antepenúltimo livro, de 2016).

* * *

Elementos e lembranças de garoto


Quando eu era garoto, naquele tempo,
quando andava na escola primária
que era a primeira
onde se aprendiam as letras todas e muitas palavras
e os algarismos e os números, incluindo os romanos,
e as tabuadas decoradas e as contas certinhas
com que se resolviam os problemas difíceis
de áreas de terrenos e de volumes
e do custo das coisas
(apesar de por ali ser pouco o dinheiro que havia)
e se aprendia muita história e muita geografia
e muitas outras coisas
para além de muito passo da vida da gente 
pelo mundo dentro e fora
que muita gente dali nunca viveria
como nunca andaria de comboio
nem de longe olharia o mar,
mesmo que fosse com muito cuidado
(havia um Adamastor, dizia-se,
sem saber o que seria)
e menos esperança havia de algum dia
a gente agarrar o mar
(como seria o encanto do diabo
daquele malvado mar
que a uns homens matava
e a outros elevava a heróis,
faróis em ruas e praças de cidades
em acções de graças de outros homens?...),

naquele tempo, dizia eu,
garoto nordestino sem mar,
de uma terra em que o inverno vinha cedo
e sempre andava por ali olhando a gente
e cedo se acendia a lareira e a candeia de luz fraca
(sim, foi daí que veio o meu fascínio pela luz
docemente incendiado pela chama do pensamento)
e se ouvia ao lume a fala dos homens mais velhos,
sérios,
(e estou agora a lembrar-me
dos seus velhos sapatos molhados)
a falar de cartas de chamada para o Brasil
(creio que era chamada aquela palavra usada
mas não percebia quem de lá chamava),
e eu não sabia onde era o Brasil e o que lá haveria,
talvez fosse apenas um fim-do-mundo
ou talvez um paraíso sem pecado
porque não se ouvia que quem fosse
um dia depois de lá viesse
(foi para o Brasil…, era só o que se dizia
e era depois aquele silêncio que ficava,
os olhos baixos fitando o lume,
mexendo talvez nas brasas
para aquecer a alma que arrefecia…),

naquele tempo, dizia eu,
voltando à minha escola primária
de entrada de respeito em cantaria,
a primeira de todas onde a gente
se faz gente ou não se faz,
naquele tempo,
uma redacção à luz da candeia
que a senhora Professora pedia
sobre os elementos da vida
podia muito bem ser assim
em letra muito certinha,
sim,
como cedo se aprendia:

“Os elementos:

Os elementos essenciais (ou fundamentais) da nossa vida aqui são os seguintes: a terra, as vacas, o arado e os homens.
A terra é muito nossa amiga porque nos dá o pão e o resto, mas precisa de ser trabalhada e às vezes custa muito. Custa mais no Inverno e no Verão quando faz muito frio ou muito calor.
Há também os bois e os machos ou as mulas e também os burros. Burros há por aqui muitos. Os burros zurram muito!
Há também a charrua onde se põe a relha para lavrar a terra.
Ainda há o carro das vacas ou de outros animais para levar as coisas como, por exemplo, o trigo segado no Verão e a lenha para o lume no Inverno.
O céu às vezes está muito escuro e chove muito.
Há também trovoadas muito grandes. A gente tem medo e reza a Santa Bárbara. Eu tenho medo das trovoadas! Já tem morrido gente!
Quando não chove durante muito tempo, o senhor Padre e a gente toda fazem uma novena na aldeia. Lembro-me de uma.
Os homens levam merenda quando vão para o campo porque o trabalho dá fome e é preciso comer para não morrer.
À noite, quando os homens chegam, as mulheres já têm o caldo feito e a gente come depois de acomodar os animais que também precisam de comer.
Eu gosto muito da terra porque nos dá tudo o que a gente aqui precisa!”.

 Nordestes que o mar
e a terra ligaram,

terra e mar,
gostos que ficaram,

nordestes,
que nos fizestes!...

2014-01-30


(José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Ed. Forinfor, 178 pp, 2016).

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José Rodrigues Dias, 2017-10-15

sábado, 14 de outubro de 2017

Azul, azul fundo o céu




Azul, azul fundo o céu


Ontem, Sol de Verão,
fora de tempo, ressequida a terra, água fugida,
azul, azul fundo o céu...

Hoje, penitente, o Sol
em sombras
já entardece, outonece...


José Rodrigues Dias, 2017-10-14

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Chão, da Terra ao Pão




Chão, da Terra ao Pão


Publicado,
hoje, o sétimo livro 
de Poesia...


José Rodrigues Dias, 2017-10-13