quarta-feira, 26 de junho de 2019

Da Luz, do silêncio e do ser




Da Luz, do silêncio e do ser


Fina, coada pelos vitrais,
a Luz
irradia o ser de silêncios…

Sem um ruído,
o ser
sente-se outro…

Como a Luz,
o ser propaga-se em silêncio
para infinito…


José Rodrigues Dias, 2019-06-26

terça-feira, 25 de junho de 2019

Fronteiras




Fronteiras


Fronteiras,
onde vida e morte em disrupção
acontecem...

Fronteiras,
onde infernos e céus
se separam...

Fronteiras,
linhas pelos homens
semeadas...

Fronteiras,
onde se apagam e acendem luzes
derradeiras...

Fronteiras,
onde em lágrimas se prende ou liberta
um sorriso...


2017-06-25

 * * * 

in  José Rodrigues Dias, Poemas em tercetos simétricos, diarísticos, Livro II (Abril a Junho, 2017), Ed. Forinfor, 144 pp, 2018.


* * * 


Jrd, 2019-06-25

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Colheitas de São João




Colheitas de São João


Semeio tudo e tudo colho
que a terra toda se abre e se dá
sempre,
como boa companheira…

Semeio no tempo atitudes e palavras
mas o tempo muitas mas leva cedo
sem o tempo certo para germinar
como em secura de Verão
que a terra é também dura
e também é dor
e sem tino é a minha mão
em tantos gestos sem fulgor!

É assim que de estação em estação
amacio a ânsia das colheitas cheias
em tempo de fogueiras de São João!


2014-05-29


in José Rodrigues Dias, Da semente, Ed. Forinfor, 254 pp, 2018.


* * *


Jrd, 2019-06-24

domingo, 23 de junho de 2019

Da construção do Céu




Da construção do Céu


Eis de que se constroem casas e castelos e catedrais:
paredes, portas, janelas, telhados, torres… e mãos.
E o Céu, de que se constrói, como e de que materiais?


José Rodrigues Dias, 2019-06-23

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Solstício de Verão




Solstício de Verão


Dias há
em que o dia decresce
e fica pequenino, pequenino,
tão grande a noite e escura,
demorada a manhã,
longa a espera
do amanhã,
de um amanhã…

Outros dias há
em que o dia cresce, cresce,
e cada dia cresce
ainda mais
e mais…,
encosta acima,
mais arriba ainda,

o suor pingando,
pingando mais
e mais,

em voltas e voltas
a Terra e o Sol,

companheira por ali a Lua
ainda que esquiva
por vezes…

E nós… 

Num desses dias,
o cimo da montanha,
o máximo,
o topo,
a Luz plena!…

Hoje,
o topo
dos dias!

E nós?…


2012-06-21


* * * 


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016) - Livro um, 1/10 (Janeiro a Junho de 2012), Ed. Forinfor, 2018, 280 pp.


* * * 

Jrd, 2019-06-21

quinta-feira, 20 de junho de 2019

As fragas de Picote e as palavras




As fragas de Picote e as palavras


Caladas, paradas
perante o abismo das fragas, o rio ganhando fôlego,
todas as palavras…


José Rodrigues Dias, 2019-06-20

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Fonte, Portas de Moura




Fonte, Portas de Moura


Terra mais e mais ressecando,
nuvens esvoaçando leves sem pinga de água,
pombas bebericando na fonte…


José Rodrigues Dias, 2019-06-19

terça-feira, 18 de junho de 2019

Primavera triste




Primavera triste


A primavera chegou sem esperança trazer.
O fogo do desespero consome campos e fábricas,
Consome sociedades e nações,
Consome continentes,
Consome corações.
As falsificações aumentam
E aumentam as corrupções.
Punições, nada!
Que justiça, Senhor?!

Os despedimentos explodem
E matam as fomes.
Como é possível tudo isto acontecer
Sem nada se fazer?
Pergunto-me, sem resposta ter:
Como deixaram eles a tudo isto chegar,
Sem nada prever,
Sem nada vislumbrar,
Sem nada dizer,
Para cada um se precaver?

Ouso, contudo, responder-me
Que eles sabiam,
Eles sabiam,
Que eles pelo menos pressentiam,
Pois tinham que antever,
Que isso teria que ser seu dever e saber.
Infelizmente, nada:
Nem ver, nem dever, nem saber…
Nada!

Ouso ainda pensar
Que no seu conhecer,
Ou no seu pressentir,
Nada quiseram fazer
A não ser para o lado olhar
E a outros deixar o agir.

A outros, iguais,
Sem agir,
Ou a fingir,
Para o lado olhar,
A assobiar,
A fortunas ganhar!

Que triste esta primavera,
Sem esperança trazer,
Com sonhos feitos a desfazer,
Ou sem sonhos poder ter,
As gentes tristes a sofrer,
Os corações a sangrar,
Sem responsáveis castigar,
Sem justiça haver nem ter!

Este é o mundo!
Talvez o mundo a merecer
Sem primavera de esperança haver…


in José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 82 pp, 2010.


* * * 


Jrd, 2019-06-18


segunda-feira, 17 de junho de 2019

Em silêncio, não!


Diário do Sul, Suplemento don Quixote, 2019-06-17.


Em silêncio, não!


Disse muitos não,
que outros seriam os caminhos…

Em ruas contigo fui gritando
mas só
e calado
fui ficando
em bermas nuas
agarrado à liberdade que escolhi…

Ficava mas depois partia,
sempre partia…

Em silêncio procurava a luz e aprendia,
sempre aprendia…

Hoje converso mais com a terra
e com as plantas
e com os novos rebentos
e com as flores
matizadas,

e nessas conversas
todos nos entendemos,

e converso com as palavras
em silêncio
e com o arado
por vezes
sulco
não!


2012-11-14

* * * 

in José Rodrigues Dias, Emanações do silêncio, Ed. Forinfor, 278 pp, 2019.

* * *

Jrd, 2019-06-17

domingo, 16 de junho de 2019

Flutuando




Flutuando


Braçado de flores
flutua suave em luz matinal, de forças liberto, livre,
do céu debruçado…

Como mente
que ao chão presa
não se sente…


José Rodrigues Dias, 2019-06-16

sábado, 15 de junho de 2019

Lembranças antigas


Casa das Quintas, Quintas das Quebradas, Mogadouro.


Lembranças antigas


A um muro novo se encostando
descansa pelo tempo adentro uma velha charrua
que de ferrugem se vai pintando…

Lembranças de parelhas jungidas
que o seu pão iam ganhando, o homem estafado,
em suor com a aguilhada atiçadas…

Do chão para a boca
quantas as voltas e os trabalhos suados
para se comer o pão…


José Rodrigues Dias, 2019-06-15

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Puio, eu e o Douro




Puio, eu e o Douro


Lá em baixo, bem fundo,
nos pedregulhos sem um sinal macio de terra
onde nem a erva medra,

esguio corres
como serpente se dobrando, enrolando, seguindo
por carreiros,

uns carreiros que caminhos não são,
nem de gente, nem de ovelhas
nem mesmo do saltar das cabras são…

Mas não são os pedregulhos
que te impedem, que te impediram, de seguir, vencendo,
nesse teu tão áspero caminho…

Mas olhaste a gente
nascida presa de largueza, dos montes, de Trás-os-Montes,
com ela aprendeste…

Se há quem pense que foi a gente
que aprendeu contigo escavando o duro fraguedo do pão
abrindo os carreiros para um mar,

não, que não, esses que se desenganem,
tu sabes, eu sei, nós dos caminhos de pedras sabemos,
tu connosco é que depressa aprendeste…

...

Penso agora em silêncio comigo:
eu, sentindo-me hoje das pedras e dos mares agradecido,
eu é que terei aprendido contigo…


José Rodrigues Dias, 2019-06-13

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A pedra polida (Recantos do Nordeste)


Peça do escultor Manuel Barroco 
(Casa das Quintas, Quintas das Quebradas, Mogadouro).


A pedra polida
(Recantos do Nordeste)


A pedra polida
em recantos de adornos floridos
da pedra bruta…


José Rodrigues Dias, 2019-06-13

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Na Senhora do Caminho




Na Senhora do Caminho


Da pia a água que lava,
sem mácula o branco, sagrado,
Luz de vela que alumia…

Palavras e sinais,
até palmas quase profanas, rituais de iniciação
de novo caminho…

Na Senhora do Caminho,
fora da capela, a manhã tépida, límpida, suave,
eis a Vida que é caminho…

De partilha
a Vida
no caminho…


José Rodrigues Dias, 2019-06-12

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Olhar o céu




Olhar o céu


Visto do alto
o céu
é mais baixo…

Sente o segredo:
subir a escada, ainda que lentamente,
degrau a degrau…

Mesmo que empinada,
mui apertada em caracol, outros passando,
alto o degrau, arfando…


José Rodrigues Dias, 2019-06-07

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Ângulo recto




Ângulo recto


Pego numa simples pedrinha,
uma pedra qualquer
colhida ali mesmo da terra,
e prendo-a a um qualquer fio
que enfio na boca do poço
e por entre os meus dedos
deixo o fio escorregar incerto
de um para outro lado a oscilar…

Agita-se a água deitada ao acordar
em sobressalto
no choque inesperado e grita,
grita
do centro para fora a ondular…

Espero,
o tempo está ali todo, infinito,
o tempo todo do mundo…

Observo no meu tempo.
Lava a água a pedra suja da terra,
talvez uma simples pedrinha...,
enquanto a água a pedra vai polindo
imperceptível ou discreta
em suaves ondas
como em continuadas rondas
de demorada negociação…
Depois, a água a si própria se lava
da sujidade da pedra deixada,
assentando-a suavemente no chão,
naturalmente, sem humana mão…
Até mesmo as arestas agrestes
da própria pedra da terra
para o fundo cairão…


Observo, entretanto,
que o movimento vai parando…

No fim, uma linha vertical,
um fio-de-prumo
aprumando o meu olhar do cimo ao fundo,
e uma superfície horizontal,
um nível,
nivelando as rugas e os desníveis do mundo…

E um ângulo recto,
recto em todas as direcções e sentidos,
bem esquadrado em divina proporção,
em rectidão e harmonia
como um dia será neste nosso chão…


2012-06-06


in José Rodrigues Dias, Diário Poético (2012 - 2016) - Livro um, 1/10 (Janeiro a Junho de 2012), Ed. Forinfor, 2018, 280 pp.


* * * 

Jrd, 2019-06-06