quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quinta-Feira Santa



Quinta-Feira Santa


Chegou a noite, cansado,
grande já o dia, Sol alto e grande,
trabalho variado, queimado,
meados de Abril…

Morreu Gabriel García Márquez,
dia de solidão,
Cem Anos de Solidão

Jorge Amado, do mesmo lado do mar,
já tinha morrido…

Cristo morre amanhã
traído,
ceia hoje com os discípulos
em partilha:

 tomai e comei…,
bebei…,

o meu corpo…,
o meu sangue…,

em memória de mim…

 Entretanto, longe, lá muito longe,
é descoberto talvez um gémeo,
ou talvez um vago primo,
desta Terra que dura pisamos,
pó e barro,
água e pedras,
quase do mesmo tamanho,
chamaram-lhe Kepler,
Kepler qualquer coisa,
pode ter nascido planeta vivo…

(Da vida, quem sabe o quê?)

Morreu hoje Gabriel García Márquez…

Cristo morre amanhã, Sexta-Feira Santa.
Ressuscita ao terceiro dia,
no dia de Páscoa,
Primavera…

2014-04-17


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Edição Forinfor, 2016

sexta-feira, 3 de março de 2017

Os jangadeiros


Os jangadeiros

Troncos rijos encaixados,
jangada
de artesão lançada sobre o mar
em movimentos de braços sábios
a favor e contra os ventos,

de engenho a sua vela triangular
em andamentos mesmo contra os ventos
com suas concavidades
e convexidades
como asa de aeronave
e uma velha melodia sussurrada
em seus lábios
salgados…

Jangada
bela
navegando
sobre madeiros,
redes levando na caminhada
para as trazer cheias na chegada,
braços tostados orientando a vela
do sol e sal esbranquiçada,

nós, bolinando,
os jangadeiros
da vida com traços vagos nela,
rasgos fundos dela…

2014-01-03


José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, 178 pp, Ed. Forinfor, 2016.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Mestre Joaquim Soares - R.I.P.


Mestre Joaquim Soares
(Foto da sua página de FB)
R.I.P.


Joaquim Soares, Mestre do Cante, partiu. 
R.I.P.


Em jeito de homenagem singela,
um poema:


Cante
(hoje, património da humanidade)


Mesmo triste
que o cante te liberte
abraçando-te ao outro
que contigo cante
o que lá vem
em madrugada,

o que de longe vem
ecoando em passos badalados
em horas de tempo lento
de noite fria
ou do dia
quando o sol alto lá vai
escorrendo suor
no céu baixo
apertando cada palavra
que se vai libertando,
libertando, 
enfim,
em cante,

e os pássaros
amantes da liberdade
escondidos numa azinheira 
perdida aparecida
no campo campo campo largo
contigo logo cantarão
de braço dado
em fraternidade!

2014-11-27

José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Forinfor, 2016.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Solstício de Inverno





Solstício de Inverno


O Sol desce, desce, desce…


Como em precipício, decide parar…
Parece pensar na queda dos dias
e a vida de todos a querer segurar…

Já no dia de solstício,
o Sol decide a vida retomar…
E é de novo um início…

A palavra volta pura das fontes,
adormecidas e mortas as pragas
e aquelas ervas daninhas do ano…

E os dias tristes voltam soalheiros,
frios primeiro ainda
como em fase última de purificação…

As raízes sonolentas 
acordam
desabrochando mais...

As noites são de mais luz,
as madrugadas de mais manhãs,
os dias são de mais calor...

Que sejam de mais amor…


José Rodrigues Dias, 2011-12-20

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Repuxos




Repuxos


Não sei se os repuxos
descansam, se dormem, o jardim em silêncio,
se têm tempo de noite...


José Rodrigues Dias, 2106-10-31

sábado, 29 de outubro de 2016

Amiga




Amiga


Olha, a luz das estrelas existe
Como existe a luz do pensamento,
Mais fortes que qualquer escuridão.
Continua a segui-las com a força que sei que tens
E a sabedoria, crescendo, que sei que procuras.
Eu continuarei, sempre que algum tempo tiver,
Olhando o eterno belo em luz de lua
Em ti reflectida sempre que puder!


José Rodrigues Dias, "Traçados Sobre Nós", Chiado Editora, 2011, pág. 52 (104 pág.s).

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Badana da capa




Badana da capa


Do livro
Poemas daquém e dalém-mar,
a chegar...


José Rodrigues Dias, 2016-09-29

sábado, 1 de outubro de 2016

Badana da contracapa




Badana da contracapa


Do livro
Poemas daquém e dalém-mar,
a chegar...


José Rodrigues Dias, 2016-09-29

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Equinócio do Outono




Equinócio do Outono


Menores as noites
e nos olhos talvez sombras,
quase tudo se vendo com a luz do tempo
como as pequenas coisas de nada
e até os pequeninos seres decrescentes
e mesmo a fraqueza dos homens
em sorriso frágil 
disfarçada 
para além dos corpos estendidos
com a desnudada beleza
ao Sol…

Depois do colorido tempo
ressequido
outro tempo vem quase monótono
em tons e sons
e a senhora dona Lua de face prateada
ao Sol dourado clama por igualdade;
as árvores desfrutadas começam a adormecer
com o prenúncio de ida nas entranhas marcada
em voos de retorno anual
da passarada…

Por fim, não demora a tardinha a chegar
no caminho de um olhar da gente
talvez menos luminoso
e menos quente…


José Rodrigues Dias, 2012-09-25

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Bombeiro


Bombeiro


Quando há um homem tolo
E um rastilho
E se levanta o fogo
E quando o vento forte sopra
De um para outro lado
Que até o chão leva,
Pode pouco
O homem…


José Rodrigues Dias, 2013-08-29