sábado, 15 de julho de 2017

Dalém e daquém-mar




Dalém e daquém-mar


Triste, fico a meditar,
chegam tristes as notícias
dalém e daquém-mar...

Que coisa esta,
que gente ainda somos,
que nos resta?!...

Em cada fala se fala de outra coisa,
chamas, armas sem tempo, vil o metal, inocentes, culpados,
tempo de uma coisa em cada loisa...

Que coisa,
que coisa resta?
Que coisa!


José Rodrigues Dias, 2017-07-13

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Xila


Imagem da Net.
A propósito da Revolução Francesa (hoje, 14 de Julho), 
do meu segundo livro.


Xila


Paris em Maio,
Revolução enfurecida levada impensada
De rua em praça e de praça em rua,
Tão dura e ingénua, tão pura e nua!

De andaime em andaime trepada, em bâtiment,
Mãe franzina, rija, exilada,
Mãe de criança em creche guardada,
Bandeira de sangue deixada no alto, posição bem marcada,
Bandeira por mãe franzina e rija em bâtiment içada,
Em Paris em Maio, bem no alto e bem desfraldada!

Com a terna criança em creche ao fundo,
A força imparável de novo futuro mundo
Em bandeira de sangue jorrado de esperança,
Em amanhecer em dia de fantasia e confiança!

Mares de multidões sempre a rugir,
Sem parar, sem pensar, sem ouvir,
Com marcas de selva de grupo a agir!

Companheiro sorvido em multidões em revoltados mares,
Quase só, sem quase em cama amar,
Com dispersos, loucos e gemidos amares,
Em andares com pouco dormir por muito andar,
Com pesadelos de tortura em mistura com sorriso liberto
De criança nascida de Homem Novo em outros doces ares!

Novos senhores do Mundo, em Maio, Companheiros sonhadores,
Estudantes que ensinam e trabalhadores que aprendem
Em Sorbonnes fechadas em Quartiers Latin em renascidas alvoradas.

Gritos em Nanterre, em bidonvilles, noutros, em outros lugares.

Marx, Lenine e Trotsky na ponta de línguas convictas,
Puras ou adulteradas, como armas usadas bem afiadas.

Em fuga de rua ou praça,
Pedras arrancadas em massa,
Rápidas balas arremessadas.

Organizações perdidas,
Desfeitas e refeitas ao sabor de cada revoltado mar,
Perdidas em ondas incontroladas,
Em movimentos de águas inesperadas,
Com controleiros e infiltrados desfeitos em nada,
Em cada onda de cada alterado mar!

Velhos sonhadores,
Companheiros,
Novos senhores,
Sonhadores!

Xila, voltavas?
Voltava, voltava!
Se voltava, Companheiros!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Poemas em tercetos - a contracapa



Poemas em tercetos
simétricos, diarísticos
(Janeiro a Março, 2017)


A contracapa do livro

Sexto livro de Poesia,
o primeiro em registo diarístico
(Janeiro a Março de 2017),
como se nova experiência
na passagem de fórmulas para versos…

Noventa e seis poemas,
duzentos e cinquenta e três tercetos
simétricos,
o segundo verso como eixo
(de uma simetria não métrica, 
geométrica aqui, perfeita ou quase,
diferente o olhar…).

Por publicar em papel,
quase tudo de um todo imenso,
diarístico,
dos anos de 2012 a 2016 (inclusive),
para além de alguns poemas anteriores,
 quase já perdidos…


José Rodrigues Dias, 2017-07-13

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Poemas em tercetos




Poemas em tercetos simétricos, diarísticos 
(Janeiro a Março, 2017)


A capa...
Livro de Poesia (próxima semana)...
O sexto...


José Rodrigues Dias, 2017-07-12

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O mundo na minha escola primária


Talhas, a Escola Primária, fechada. 
Foto da Net.


O mundo na minha escola primária


Eu gostava muito da porta da minha escola primária: era de cantaria e redonda em cima. Era uma escola só para meninos; havia outra escola só para meninas. Havia muitos meninos e muitas meninas. Alguns andavam descalços. Não havia electricidade na terra e não havia televisão. Telefone havia. Lembro-me do telefone número 4. Havia poucos rádios e eram grandes, da gente rica. Trabalhavam a pilhas. Quando acabavam as pilhas ficavam sem saber as horas certas. Mas as horas eram todas boas. Eram as horas dadas pelo sol e pela lua, quando não havia névoas. Quando havia, ou quando chovia muito, que Deus a dava, não fazia diferença. Um dia nascia depois de outro dia e o mesmo acontecia com as noites. Eram sempre alternados. Também havia as horas dadas pela barriga. Essas eram as horas piores, com fome.

Notícias quase não havia em Talhas, nem era preciso. Quando alguém morria tocava o sino. Tocava de maneira diferente consoante o morto era homem ou era mulher. Se o morto era de outra terra, a notícia lá chegava e logo se espalhava.

Era assim o mundo. O mundo estava todinho ali na minha escola, no saber da senhora professora e no mapa dependurado por um fio numa parede da sala de aula ao pé do quadro. Um dia calhou cair com o ponteiro a forçar o Mondego a passar pela terra dos doutores. “Meninos, poucos podem ser doutores, mas têm que estudar todos muito para serem homens”, dizia a senhora professora, nós todos em silêncio. Também lá estava na parede um retrato. Era dum governador, que a gente ali na terra não conhecia bem, que a gente não precisava. Bastava o senhor regedor. As festas eram sempre no verão, o Natal era a seguir à consoada e a Páscoa o senhor Padre dizia, logo a seguir ao Domingo de Ramos. Os ramos eram raminhos de oliveira e era em latim a missa aos domingos e nos dias-santos. Ao entrar na igreja, os homens tiravam o chapéu dos domingos e dias-santos. Benziam-se à entrada com a água benta da pia. As mulheres ficavam na parte de trás da igreja.

Água era a das fontes, que era fresca mas pouca no verão, e não se podia gastar muita água para lavar as casas para a festa. E também ficava longe e os cântaros pesavam nos quadris. As necessidades eram feitas na loja dos animais e no campo, tudo muito natural. Era bom o campo, com vinhas e oliveiras. As pitas andavam em liberdade na rua. Quando era o tempo, havia os figos, as alfaces, os pepinos, os feijões, etc. Foi a minha professora que me ensinou a usar o “etc.”. Ensinava-nos muita coisa a senhora professora. Também tinha uma régua. A mão era certinha. Erros ninguém tinha.

Gostei muito da minha escola e da minha professora. Ensinou-me a ler, a contar e a escrever. As contas e os problemas eram muito difíceis. E ensinou-me também a aprender. Tive sorte com a minha escola e com a minha professora. Por acaso eram duas professoras. Gostei das duas. Lembro-me delas.

Um dia quis ter uma escola igual à minha. Hoje vendem as escolas.

Hoje já não há meninos nem meninas, mesmo todos juntos a brincar juntinhos aos crescidinhos. Nem escolas. Há outras réguas. Também não há gente. Há lixo. Dizem que é da cidade. Tanto campo que havia! Ah, lembro-me também que a senhora professora dizia que havia uma província toda planinha que era o celeiro de Portugal, cheiinha de trigo. Mas dizia a senhora professora também que lá havia fome. Isso eu nunca entendi bem. Mas ela sabia.

Parece que agora quase tudinho mudou. Do Portugal do mapa só vejo um risco grosso junto ao mar. Sem barcos. Ou com outros barcos. Desapareceu quase todinho. Deve ser da minha vista já cansada. É assim a vida.

Só vejo uma coisa que se mantém: o mundo, esse, continua dependurado por um fio. Por outro fio. Cairá?


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quinta-Feira Santa



Quinta-Feira Santa


Chegou a noite, cansado,
grande já o dia, Sol alto e grande,
trabalho variado, queimado,
meados de Abril…

Morreu Gabriel García Márquez,
dia de solidão,
Cem Anos de Solidão

Jorge Amado, do mesmo lado do mar,
já tinha morrido…

Cristo morre amanhã
traído,
ceia hoje com os discípulos
em partilha:

 tomai e comei…,
bebei…,

o meu corpo…,
o meu sangue…,

em memória de mim…

 Entretanto, longe, lá muito longe,
é descoberto talvez um gémeo,
ou talvez um vago primo,
desta Terra que dura pisamos,
pó e barro,
água e pedras,
quase do mesmo tamanho,
chamaram-lhe Kepler,
Kepler qualquer coisa,
pode ter nascido planeta vivo…

(Da vida, quem sabe o quê?)

Morreu hoje Gabriel García Márquez…

Cristo morre amanhã, Sexta-Feira Santa.
Ressuscita ao terceiro dia,
no dia de Páscoa,
Primavera…

2014-04-17


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Edição Forinfor, 2016

sexta-feira, 3 de março de 2017

Os jangadeiros


Os jangadeiros

Troncos rijos encaixados,
jangada
de artesão lançada sobre o mar
em movimentos de braços sábios
a favor e contra os ventos,

de engenho a sua vela triangular
em andamentos mesmo contra os ventos
com suas concavidades
e convexidades
como asa de aeronave
e uma velha melodia sussurrada
em seus lábios
salgados…

Jangada
bela
navegando
sobre madeiros,
redes levando na caminhada
para as trazer cheias na chegada,
braços tostados orientando a vela
do sol e sal esbranquiçada,

nós, bolinando,
os jangadeiros
da vida com traços vagos nela,
rasgos fundos dela…

2014-01-03


José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, 178 pp, Ed. Forinfor, 2016.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Mestre Joaquim Soares - R.I.P.


Mestre Joaquim Soares
(Foto da sua página de FB)
R.I.P.


Joaquim Soares, Mestre do Cante, partiu. 
R.I.P.


Em jeito de homenagem singela,
um poema:


Cante
(hoje, património da humanidade)


Mesmo triste
que o cante te liberte
abraçando-te ao outro
que contigo cante
o que lá vem
em madrugada,

o que de longe vem
ecoando em passos badalados
em horas de tempo lento
de noite fria
ou do dia
quando o sol alto lá vai
escorrendo suor
no céu baixo
apertando cada palavra
que se vai libertando,
libertando, 
enfim,
em cante,

e os pássaros
amantes da liberdade
escondidos numa azinheira 
perdida aparecida
no campo campo campo largo
contigo logo cantarão
de braço dado
em fraternidade!

2014-11-27

José Rodrigues Dias, Poemas daquém e dalém-mar, Forinfor, 2016.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Solstício de Inverno





Solstício de Inverno


O Sol desce, desce, desce…


Como em precipício, decide parar…
Parece pensar na queda dos dias
e a vida de todos a querer segurar…

Já no dia de solstício,
o Sol decide a vida retomar…
E é de novo um início…

A palavra volta pura das fontes,
adormecidas e mortas as pragas
e aquelas ervas daninhas do ano…

E os dias tristes voltam soalheiros,
frios primeiro ainda
como em fase última de purificação…

As raízes sonolentas 
acordam
desabrochando mais...

As noites são de mais luz,
as madrugadas de mais manhãs,
os dias são de mais calor...

Que sejam de mais amor…


José Rodrigues Dias, 2011-12-20