domingo, 31 de maio de 2015

Margarida, distraída



Margarida, distraída


Um dia, precavida, disseste-me,
Por tão distraído dizeres o teu ser ser:
Se algum dia, passando, passar sem te falar
Estou passando, perdida, olhando, sem te olhar!


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Servos


Servos



Conta-se que havia um senhor que tinha muitos servos e que nas suas terras havia trabalho e pão. Mas um dia começou o senhor a empobrecer. Ano após ano, cada vez mais pobre, não importa aqui como o senhor empobrecia, já não sabia o senhor o que fazer com os servos, que o tempo, conta-se, era de muita secura. Outros senhores davam-lhe conselhos, o senhor até os seguia, mas cada dia se via mais pobre… E o senhor, que diziam ser um homem de bem, já de longa idade, olhava, pensativo e triste, os seus servos na secura da terra. Que haveriam de comer, com tanta secura…

Os campos à volta eram já quase só de terra batida naquela aridez crescente, isso via bem o senhor, e os servos sem pão e sem trabalho da secura sofriam… Um dia, olhando os servos já quase espalmados, disseram certos senhores de fora ao senhor para cortar mais no pão dos seus servos, ele que já contrariado tinha antes cortado. Mas que haveria o senhor de fazer, ele que não tinha pão e que já só o recebia daqueles senhores de fora a quem já tanto agora devia…

Um dia, falando o senhor no seu jeito aos servos, já quase sem dignidade na postura, o senhor disse-lhes, com pena, é verdade, que ia cortar mais no pão. Que poderiam dizer os servos e ele se o pão era daqueles senhores de fora e os senhores assim queriam… E o senhor cortou, cortou mais, que tinha que assim cortar, dizia a si mesmo, olhando triste os servos, para a si mesmo se desculpar.

Entretanto, nas terras à volta, a secura dos tempos ia aumentando e os homens de fora que tinham o pão iam apertando o senhor que cada dia mais lhes devia.

E o pão do senhor aos servos foi assim diminuindo, o senhor mais pobre, mais triste, cada dia mais pobre, pior os servos, as dívidas do senhor maiores àqueles senhores de fora…

Um dia faltou ao senhor um servo. Homem bom, procurou-o. Encontrou-o morto.
Noutro dia, faltaram-lhe dois.
Depois, mais tarde, outros servos…
Há quem conte, sem se saber bem como, que os servos se revoltaram…
Mais tarde, conta-se, os senhores de fora encontraram o senhor morto e ficaram com o que sobrou…


José Rodrigues Dias, 2012-01-29

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sobreiros



Sobreiros


Gostaria que os homens fossem como os sobreiros,
Nas agruras resistentes, sempre sóbrios, em solos ardentes.
Gostaria que os homens ao quarto de século fossem jovens adultos
Como os sobreiros, com a cortiça virgem tirada dos troncos
Pela primeira vez descortiçados por mestres tiradores
Sem machados a cortarem as raízes e a seiva do crescimento.
Gostaria que os homens nos sobreiros, então, se olhassem
E no espelho do céu se repensassem no seu tronco nú,
Com a casca rugosa superficial tirada, reduzidos à sua essência,
À seiva que lhes dá a vida pelas raízes na secura da terra conquistada.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros,
Em nova etapa, com a força retemperada e, nove anos passados,
De novo descascados por hábeis mestres descortiçadores,
Com precisão no corte para de novo não os magoar no seu ser
Nem os ofender no essencial do seu viver e crescer.
Gostaria, então, que os homens olhassem de novo os sobreiros,
Maiores, continuando sóbrios no seu porte, verdadeiros,
E sentissem como leve continua a ser a cortiça secundeira
Que vento fraco matinal de quase aragem leva ligeira.
De tronco nú, gostaria que os homens neles de novo se mirassem
E em imagem de futuro com eles se reiniciassem
E de novo, em nova etapa, se fortificassem.
Gostaria, então, que os homens continuassem como os sobreiros
E que um dia, depois, nove anos depois, vissem como teria
Finalmente, então, qualidade a cortiça amadia.
E de novo em tronco nú, despojados da sua superficialidade,
Reduzidos à sua essência, em nova etapa iniciada,
Com mais porte e mais seiva, maiores, verdadeiros,
Gostaria que os homens olhassem agora os adultos sobreiros,
Imponentes, agarrados mais ao solo, ainda mais sóbrios.
Gostaria, assim, que os homens fossem como os sobreiros,
Crescendo, dando-se ao cuidar de mestres, aos outros se dando,
Olhando-se no espelho do céu, almejando o brilho das estrelas,
Libertando-se do superficial, o essencial preservando,
Como os sobreiros, imponentes no ser do tempo,
Olhando do seu alto a pequenez dos pequeninos chaparros
E o abocanhar sôfrego dos porquinhos.
Gostaria, então, que os homens fossem como os sobreiros
E que vissem como é até leve a cortiça amadia
Que um vento mais forte como colorido trapo superficial
Para um longe escuro leva para sempre,
Num qualquer dia!


José Rodrigues Dias, Traçados Sobre Nós, Chiado Editora, 2011, pp 69-71.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Cidade grande



Cidade grande


Cidade grande,
Com ondas de gentes
Empurradas para os limites,
Espumando desfeitas nos rochedos!

Empurradas para todos os limites…
Limites do espaço, da miséria, da vida,
Do tempo todo sem tempo nenhum livre…
Sem tempo mesmo para se amar serenamente…

E o monte, simples,
Na sua morada altaneira,
Asseada, varrida pelo vento,
Olhando e dormindo ao pé do céu,
Lá em cima, junto ao céu das estrelas,
Sobre a planície sempre sua companheira,
Meneando os seus cabelos longos de trigo,
Docemente aberta a amor genuíno
De amantes assim eternos,
Sem um queixume,
Livres e iguais,
Ternos…


José Rodrigues Dias, IV Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições, p. 281, 2011.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Amor



Amor


À noite, em cada noite,
Olha a serenidade da luz da Lua,
Mesmo quando a Lua estiver escondida
Por nuvens voando livres ao vento solto,
Como que desafiando-te num jogo de esconde-esconde,
E sente o Amor.
Sente o Amor!
O amor de companheira,
Ou de livro aberto, de página escrita ou à espera de palavra,
Mesmo que palavra seja difícil de chegar e de encontrar,
Por ser palavra perdida…


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.

sábado, 2 de maio de 2015

Tu, terra, Eva…


Tu, terra, Eva…


Eva ali nua
Saída da terra,
Do que fundo é,
Raiz que é…

É encosta, costela,
Árvore, fogo, ar, serra…
É Douro e Tua,
Meu selvagem Sabor,
É à terra amor…

Eva ali nua
Livre,
Um porquê de criança,
Livre o homem,
Adão…

Eva, vida, viva…

Sereia das águas,
Rumorejo das videiras,
Passarada às cerejas,
Olhos sem mágoas…

Eva é o que ali se deleita,
Beleza virgem
Que enfeita a pureza…


José Rodrigues Dias, Évora, 2012-05-22

Em A Terra de Duas Línguas II, Antologia de Autores Transmontanos, pp. 79-80, Coordenação: Ernesto Rodrigues - Amadeu Ferreira, Lema d´Origem, 2013.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Miguel



Miguel

(Ter trabalho é ter riqueza)


Os dezanove anos que o Miguel disse ter
Pareciam ser catorze ou quinze. Não mais.
O rosto era suave, bonito, preto, o olhar calmo,
Talvez de quem quase nada espera ter ou ver.

O Miguel vendia, ou tentava vender,
Saquinhos de caju torrado que disse ser,
Com cuidado e saber, ele próprio a preparar.
Senti ser verdade quando um de nós,
Muitos anos vividos em Moçambique,
Conhecedor, sobre tal o decidiu questionar.

A clientela, a quem o Miguel queria
Agora o caju vender,
Para o pão noutro dia
Poder então comer,
Era aquele pequeno grupo que ali aprecia
Aquele Índico tépido, de muitos tons, em baía,
Envolto, em muitos verdes, por pequenas elevações,
Como que protegendo-o, acariciando-o,
Nas suas suaves, quase esquecidas, ondulações.

O guia era uma figura bem disposta, curiosa,
De pele preta, um ventre algo saliente, mediana altura,
Com um português correcto, com uma inesperada cultura,
Em tons ora sérios, numa linguagem elegante,
Ora em mesclas de falar docemente provocante,
Como numa picada de imprevistos, no mato, sinuosa.

Porém, o guia era uma figura intrigante.
Aquele de nós, o de muitos anos de Moçambique,
Conhecendo as gentes, cedo o notou e muito curioso ficou.
Então, aproveitando um minuto da sua ausência,
Intrigado, perguntou, quase afirmando, ao Miguel:
Ouve lá, o guia é rico?!.

O Miguel, de rosto suave, preto, bonito,
Na tranquilidade que todo o tempo do mundo lhe dá,
Naquele mundo sem fim, de tanta terra e de tanto mar,
Também de tanto puro ar, ficou perplexo,
Senti-o eu no seu quase não doce olhar.

Sentindo-se como um encostado à parede,
Hesitando uma fracção de segundo,
Que muito mais não podia ser, respondeu:
Ter trabalho é ter riqueza!

Hábil, evitando o concreto da pergunta,
Protegendo o guia, na cor seu irmão,
Seu conhecido de ontem ou não,
O jovem Miguel, homem feito de menino,
Apanhando castanha, caju torrando,
Vendedor quando comprador tiver,
Respondeu de forma sábia,
Quase cruel, por singela e crua ser,
De quem já muito sabia,
A quem a vida já muito devia,
Com uma infinita certeza:

Ter trabalho é ter riqueza.


José Rodrigues Dias, Braços Abraçados, Tartaruga Editora, 2010.