sábado, 18 de junho de 2016

Saramago


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Recordando José Saramago
Poema escrito há precisamente seis anos, no dia da sua morte.


Saramago

No dia seguinte ninguém morreu, disseste,
Livro abrindo;
Morte em intermitência…
Hoje, disseram que morreste,
Notícias abrindo;
Morte em permanência…

Agora, José, que morreste,
(Morreste?)
Que outro mar passaste,
Como que a caminho de outra Lanzarote,
Diz, José, há vida em morte
Como há morte em vida sem sorte?
Ou sem norte?
Há intermitências de vida em morte?
Há dor e amor?
Há Criador?

Morto vivo, renasceste depois de morto.
Hoje, morto?
Morto, manter-te-ás vivo, morto!

J. Rodrigues Dias, Poiesis, Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea, Vol. XIX,  Editorial Minerva, 2010. 

segunda-feira, 28 de março de 2016

Páscoa, celebração



Páscoa, celebração


Por entre restos um pequenino pinheiro
onde outro tombou,
por entre nuvens
Sol,
por entre ruínas
flores,
Primavera…

Harmonia, balança, beleza,
matizada sinfonia,
liberdade, o cante, a canção…

Celebração da vida e da natureza
com o borrego de Páscoa
no campo
em renovação
neste Alentejo sem dimensão…

2013-04-01


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Ed. Forinfor, 2016

domingo, 27 de março de 2016

Páscoa


Páscoa


A Luz irrompe das trevas,
da terra funda
que foi túmulo,
porque a Luz é mais forte
que a morte
e o que a morte inunda…

A Luz rompe a pedra
que a cobre,
irrompe em novo dia
e se eleva…

O pássaro que na noite jazia
no jardim sob um manto de folhas
pressente a Luz
pelo despertar da manhã,
acorda o Sol
e canta a Primavera
e a harmonia!

E canta, canta,
canta
para todos nós!

Passagem a outro tempo
de recriação,

como Luz
em ovo
que se abre
em movimento

(de Alfa para Ómega),

sem sombras os olhares,
os olhos límpidos
de milagres
como a Luz…

2014-04-20


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Forinfor, 2016.

sábado, 26 de março de 2016

Sabbatum Sanctum


Sabbatum Sanctum


Dia de espera,
espera
de esperança
de vida
de túmulo nascida…

Quem espera
alcança…

Dia da Senhora da Solidão,
filho no chão,
irmão,
tempo de solidão…

Por que tanto se desespera,
tanta guerra,
irmão?

Tempo de espera,
de solidão...

2014-04-19


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Forinfor, 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

Sexta-Feira Santa


Sexta-Feira Santa


Crucificado,
traído,
Cristo,
hoje morto…

A morte,
momento de passagem,
três dias,
Páscoa,
uma imagem...

A vida,
todo o outro tempo…

Aqui, noutro império,
crucificados,
traídos,
mutilados,
sem quase próprios pecados,
durante quanto tempo
a passagem?


2014-04-18


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), Forinfor, 2016.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Quinta-Feira Santa


Quinta-Feira Santa


Chegou a noite, cansado,
grande já o dia, Sol alto e grande,
trabalho variado, queimado,
meados de Abril…

Morreu Gabriel García Márquez,
dia de solidão,
Cem Anos de Solidão

Jorge Amado, do mesmo lado do mar,
já tinha morrido…

Cristo morre amanhã
traído,
ceia hoje com os discípulos
em partilha:

 tomai e comei…,
bebei…,

o meu corpo…,
o meu sangue…,

em memória de mim…

 Entretanto, longe, lá muito longe,
é descoberto talvez um gémeo,
ou talvez um vago primo,
desta Terra que dura pisamos,
pó e barro,
água e pedras,
quase do mesmo tamanho,
chamaram-lhe Kepler,
Kepler qualquer coisa,
pode ter nascido planeta vivo…

(Da vida, quem sabe o quê?)

Morreu hoje Gabriel García Márquez…

Cristo morre amanhã, Sexta-Feira Santa.
Ressuscita ao terceiro dia,
no dia de Páscoa,
Primavera…

2014-04-17


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), 2016

domingo, 20 de março de 2016

Equinócio da Primavera




Equinócio da Primavera

  
Maiores vieram as sombras, os negros e as noites
envolvendo as coisas, os homens e a própria luz,
o olhar da gente caído de frio,
cinzento o tempo de solstício.
Assim era!
E assim foi!

Mas, depois, com o tempo do Sol
faz-se um novo tempo,
o dia mais dia,
a noite menos noite…

Os rebentos despertam
com a chegada da passarada
e a manhã apressa-se.

Demora-se a tardinha
no caminho de um olhar
mais caloroso da gente…

2012-03-20


José Rodrigues Dias, Tons e Sons de Primavera(s), 
Forinfor, Março, 2016.

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher


Museu do Aljube, 
Resistência e Liberdade, Lisboa.


Mulher


Como seria inteira 
no correr do tempo a história
se a mulher ausente?...

A mulher resistente, 
vigilante, constante, memória,
mulher companheira!...

Inteira só a história
com a mulher e companheira
e é com a memória!...


José Rodrigues Dias, 2016-03-08

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Vê, Tomé!... (Vê, Einstein!)





Vê, Tomé!...
(Vê, Einstein!)


Entretecendo mil ideias,
tecendo o espaço e o tempo,
o tolo tudo concebendo...

Bastas ideias muito loucas,
postulados e outras coisas mais
como de gradientes e rotacionais,
orelhas um pouco moucas,

viajando de Newton para umas ondas gravitacionais
como as de uma criança atirando pedras a um lago
deslocando umas plumas leves dum pato sossegado,

mas em outras dimensões
e a coisa com outra dimensão,
buracos negros, buracões,

onde a luz se perto passasse
se dobrasse,
caísse
e adormecesse...,

só vendo, como Tomé
(Como?... A luz ali anoitecia?...),
eis a humana conclusão...

Antenas no espaço e no tempo
orientadas como dedos espetados
e eis as plumas em movimento!

Vê, Tomé!...


José Rodrigues Dias, 2016-02-12

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SNS, o teu poema perfeito


António Arnaut

Parabéns, 
hoje, 28 de Janeiro de 2016, 
dia de aniversário (80 anos).


SNS, o teu poema perfeito

(Pequena homenagem a António Arnaut,
obreiro do Serviço Nacional de Saúde, 35 anos depois)


Teu o poema perfeito

(em tempo: digo quase perfeito
por no tempo se ter retrocedido,
tu triste, magoado, ofendido,
o poema a sentir-se desfeito…),

de ti, luz de vela, o sonho nascido
a régua e a esquadro,
aberto, bem aberto, o compasso,
todos à ordem,
o horizonte largo,

poema verso a verso burilado
em cada letra soletrada em nova palavra
em chão matizado em lavra
de solidariedade,
cada homem um irmão,
qualquer o seu género e a idade,
braços abraçados,
mão na mão,

eis, mundo inteiro,
o poema,
eis a saúde
feita aqui universal
e do homem um direito,
ei-la,
a saúde!

A saúde,
ei-la
em liberdade!

E, assim, Homem,
teu o poema justo e perfeito
na luz iniciado,
a constituição
livro primeiro sagrado!

De ti, poeta e obreiro de oriente,
o poema perfeito
(pelo tempo feito imperfeito)
no peito da gente,

o teu poema decerto preferido
verso a verso construído,

em cada verso um nome,
o nome de cada homem nascido,

não importando
quem é,
a quem pertence o sobrenome,
de que gente é o homem
que ali está dorido
como outro qualquer nascido,

apenas se indagando
com o coração
e as ferramentas na mão,
auscultando...

Senhor, onde lhe dói,
onde começou, quando, como foi,
onde é a sua dor?

Senhor doutor, mas quanto será?

Será o que for,
senhor,
não importa o que custará,
será o que tiver que ser,
vamos é ver
essa dor
e outra dor precaver...

Senhor,
vamos lá ver
essa dor…


José Rodrigues Dias, 2014-09-15